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Raphinha revela rotina de jogos para aliviar pressão na Copa

A três dias da estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2026, Raphinha descreve um hotel tomado por videogames, truco e pingue-pongue em Basking Ridge, em Nova Jersey. O atacante detalha como a seleção brasileira transforma a concentração em rotina de trabalho intenso misturada a momentos de descontração para suportar 54 dias de isolamento e pressão.

Hotel vira reduto entre treino, pressão e silêncio

No início da tarde de 10 de junho, o saguão silencioso do hotel da seleção em Basking Ridge contrasta com o clima dentro das salas reservadas ao elenco. Em um dos ambientes, a bola não é de couro, mas de plástico: está em curso um campeonato de pingue-pongue que mobiliza titulares e reservas, em disputas curtas e ruidosas, longe das câmeras.

Em outro espaço, uma mesa concentra gritos e risadas de um grupo em partida de truco. Na sala ao lado, alguns jogadores se isolam com fones de ouvido, mergulhados em videogames. Em um canto, um simulador de Fórmula 1 atrai fila de curiosos e transforma defensores e atacantes em pilotos por alguns minutos. É assim que a seleção tenta atravessar uma preparação que pode durar 54 dias, da apresentação em Teresópolis, em 27 de maio, até a final do Mundial, marcada para 19 de julho, nos Estados Unidos.

Raphinha, 29, hoje um dos mais experientes do grupo, descreve uma rotina que começa cedo e exige disciplina. “A rotina aqui começa bem cedo. Logo depois do café, a gente já vai direto para o treino. Cada um faz sua preparação, às vezes tem ativação individual, às vezes tem ativação em grupo”, conta o atacante. O trabalho ocorre sob o comando de Carlo Ancelotti, que abre apenas 15 minutos diários à imprensa. “É nesse momento que vocês acompanham aqueles 15 minutos de treino, né?”, provoca o jogador, antes de brincar: “Depois desses 15 minutos, eu não posso falar o que acontece.”

Ele relata que, encerrado o treino, o elenco se espalha entre banheira de gelo, sauna e tratamentos de recuperação. A partir do momento em que volta ao hotel e termina o almoço, o vestiário se divide entre os jogos. “Alguns vão direto para o videogame, outros para o truco. Temos até um simulador de F1 lá dentro. E também está rolando um campeonato de pingue-pongue”, diz. Os mais experientes, como ele se define, ainda encaixam novas sessões de fisioterapia entre uma partida e outra. “Cada um leva uma rotina um pouco diferente.”

Lazer como antídoto à cobrança e à memória do Qatar

O clima descontraído dentro do hotel não elimina a pressão que acompanha a seleção, mas funciona como válvula de escape em um grupo com idades e trajetórias diferentes. Para Raphinha, esse equilíbrio é indispensável. “Em meio à pressão natural que todo atleta carrega por representar a seleção brasileira em um Mundial, é fundamental buscar momentos para relaxar”, afirma.

A fala vem de alguém que carrega sua própria conta pendente com a Copa do Mundo. Em 2022, no Qatar, o então titular do time de Tite disputa cinco jogos sem marcar gols ou dar assistências. Sai do torneio não apenas em branco, mas sob críticas pela atuação e por declarações que repercutem mal, como quando diz não assistir aos jogos do Mundial e questiona a obrigação de acompanhar Messi e Mbappé. “Por que eu tenho que saber algo sobre Messi e Mbappé?”, reage à época. Dois anos depois, vê os mesmos Messi e Mbappé decidirem uma final histórica, com cinco gols somados e o título para a Argentina.

O novo Mundial encontra o atacante em fase distinta no Barcelona. Na temporada que antecede a Copa, ele participa ativamente da conquista do Campeonato Espanhol, com 13 gols e 3 assistências. A transformação no clube ainda não se reflete por completo na seleção. O último gol com a camisa amarela sai em março de 2025, na vitória por 2 a 1 sobre a Colômbia, pelas Eliminatórias, ainda sob Dorival Júnior. De lá para cá, Raphinha entra em campo em outras sete partidas e contribui diretamente para apenas um gol, com uma assistência no amistoso contra o Egito, o último teste do Brasil antes da estreia.

Lesões ao longo de 2024 interrompem convocações e atrasam a retomada do protagonismo que ele busca no time nacional. Agora, na segunda Copa, o atacante tenta conciliar cobrança e serenidade. “A seleção é feita de resultados. Se não tem resultados, a gente vai ser cobrado”, reconhece. Os momentos de lazer no hotel, conta, ajudam a reduzir o ruído interno e a manter o foco entre treinamentos, vídeos táticos e conversas com a comissão.

Jogos de baralho, controles de videogame e raquetes de pingue-pongue viram instrumentos de gestão emocional em uma rotina que mistura o desgaste físico e o peso simbólico da camisa amarela. Em vez do isolamento tradicional dos tempos de concentração em hotéis fechados, o ambiente em Basking Ridge tenta simular uma casa provisória. A seleção aposta na convivência, na competição leve dentro do grupo e na descontração controlada como complemento ao trabalho de psicologia esportiva e à preparação física.

Equilíbrio em jogo e expectativa para os próximos 40 dias

A estratégia não mira apenas o rendimento em campo, mas também a imagem pública da equipe em um Mundial em que a relação com o torcedor passa pelas redes sociais. Ao revelar a rotina de jogos e brincadeiras, Raphinha expõe um elenco mais acessível, que busca normalidade em meio ao aparato de segurança, aos treinos fechados e à agenda cronometrada. O lado humano de um grupo acostumado à cobrança diária reaparece em campeonatos internos de pingue-pongue e em discussões acaloradas de truco.

Esse retrato ajuda a aproximar a seleção de uma torcida que, desde 2014, convive com decepções em Copas e expõe sua frustração em tempo real. Um elenco que se mostra menos sisudo e mais integrado tende a gerar empatia e engajamento, especialmente em uma preparação longa e distante do Brasil. O ambiente leve, porém, não mascara o termômetro que vale no fim: vitórias, desempenho e, para muitos, a obrigação de voltar a uma final depois de 24 anos.

Os próximos dias em Basking Ridge mantêm a mesma equação: manhãs de treino intenso, sessões de vídeo e correções táticas, seguidas por tardes de recuperação e noites de jogos. Se tudo correr como planejado pela comissão técnica, essa rotina se estende por quase dois meses até 19 de julho, data da decisão. O desafio é atravessar esse período sem que o confinamento desgaste relações internas ou contamine o desempenho.

Raphinha sabe que entra em campo marcado pela lembrança do Qatar e pela expectativa de repetir na seleção o protagonismo que exibe no Barcelona. Entre uma partida de pingue-pongue e outra, o atacante tenta encontrar o ponto de equilíbrio entre leveza e responsabilidade. A resposta para saber se essa mistura de videogame, truco e simulador de F1 rende um Brasil mais forte não virá das salas de jogos do hotel, mas do placar quando a bola rolar.

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