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PT arma frente ampla para reeleger Lula e conter avanço de Flávio Bolsonaro

O PT abre, em 24 de abril de 2026, seu 8º Congresso Nacional em Brasília decidido a traçar a estratégia da campanha pela reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. A cúpula petista discute alianças com a centro-direita, propostas para segurança pública e regulação das casas de apostas, com o objetivo declarado de frear o avanço do senador Flávio Bolsonaro nas pesquisas.

Congresso define rumo da campanha e fala em embate ‘democracia x ditadura’

No auditório lotado por dirigentes, governadores, prefeitos, parlamentares e ministros, o partido apresenta um rascunho de programa de governo que descreve as eleições de outubro como um novo confronto direto com a extrema-direita. O texto sustenta que a disputa volta a opor “democracia contra ditadura, soberania contra entreguismo, bem-estar contra sofrimento, desenvolvimento contra retrocesso, esperança contra medo, vida contra morte”. A narrativa ecoa a campanha de 2022, mas com um ingrediente adicional: pesquisas internas apontam crescimento de Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL, sobre Lula em segmentos do eleitorado evangélico e nas regiões Sul e Centro-Oeste.

Lula não participa da abertura por ter passado por procedimentos médicos, mas envia mensagem em vídeo e é esperado para o ato principal neste sábado, 25. No vídeo, reforça a necessidade de “ampliar o diálogo com quem pensa diferente” e de “não subestimar a capacidade de reorganização do bolsonarismo”. No palco, quem assume o papel de fiador da coalizão é o vice-presidente Geraldo Alckmin, do PSB, presença simbólica da guinada ao centro que garantiu a vitória de 2022.

“O presidente Lula salvou a democracia no Brasil. Se perdendo as eleições tentaram dar um golpe, imagine se tivessem ganho”, afirma Alckmin, arrancando aplausos de delegados de todas as tendências. Ao lembrar os ataques de 8 de janeiro de 2023, ele tenta falar para além da militância petista e sinalizar segurança institucional a empresários e eleitores moderados, hoje disputados voto a voto com Flávio.

Alianças ao centro, fim da escala 6×1 e nova arquitetura da segurança

O documento que orienta os debates aponta a “ofensiva programática e unidade popular” como tática para enfrentar a extrema-direita. Na prática, isso significa costurar acordos com partidos de centro-direita, hoje divididos entre o governo e a oposição, e oferecer um pacote de propostas que dialogue com a vida concreta de trabalhadores urbanos, moradores da periferia e pequenos empresários. Entre as bandeiras, aparece o fim da escala 6×1, modelo que garante apenas um dia de descanso a cada seis trabalhados. O texto descreve a medida como forma de enfrentar a “exploração do tempo de vida da classe trabalhadora” e de recolocar a pauta do tempo livre no centro do debate trabalhista.

No campo da segurança pública, o PT propõe uma virada estrutural. O plano em discussão defende a criação de um Ministério da Segurança Pública, separado da Justiça, e de um Sistema Único de Segurança que integre ações federais, estaduais e municipais. A inspiração é o desenho do SUS, criado em 1988, mas adaptado ao enfrentamento do crime organizado, das milícias e da violência policial. Aliados avaliam que o tema, historicamente dominado pela direita, precisa ser apropriado pelo governo para reduzir o desgaste em capitais onde a sensação de insegurança já aparece entre as três principais preocupações dos eleitores.

Nas conversas de bastidor, integrantes da executiva falam em usar dados de queda de homicídios em alguns estados governados por aliados e o reforço do orçamento da área como vitrine. Governadores presentes defendem que qualquer novo ministério venha acompanhado de mais recursos e clareza sobre o papel das polícias estaduais, hoje responsáveis por mais de 80% do policiamento ostensivo no país.

Regulação das apostas mira eleitor evangélico e pressão no Congresso

A regulação das casas de apostas surge como um dos pontos mais sensíveis da pauta econômica e moral. Ministros palacianos comemoram a decisão recente do governo de restringir as chamadas bets de “predição”, que pagam por apostas sobre eventos como condições climáticas ou até a morte de uma pessoa. O Planalto também determina o bloqueio de sites irregulares, medida que mira um mercado bilionário ainda em grande parte informal. A estratégia é lida, no próprio congresso, como passo calculado para reduzir a resistência de parlamentares e lideranças evangélicas ao governo.

Lula volta a qualificar publicamente o setor como “jogatina” e defende proibições mais duras. A base aliada na Câmara, porém, enxerga no tema uma rara convergência com bancadas religiosas que criticam os efeitos do vício em jogo sobre famílias de baixa renda. O texto em debate no congresso petista fala em banir casas de apostas consideradas “predatórias”, citando nominalmente o popular “Jogo do Tigrinho”, e propõe que empresas não enquadradas nesse perfil paguem imposto seletivo maior que o cobrado hoje sobre o tabaco, que tem carga superior a 60% em alguns produtos.

A lógica é simples: reduzir a oferta de jogos mais agressivos, aumentar a tributação sobre as demais apostas e direcionar parte da arrecadação para saúde mental, prevenção ao endividamento e políticas para juventude. A proposta converge com projeto do líder do governo na Câmara, Pedro Uczai (PT-SC), que prevê banir determinados formatos de bet e impor novas travas ao setor. Se avançar, a agenda deve reorganizar o lobby das empresas, que já financiam clubes de futebol, influenciadores digitais e times de esportes eletrônicos.

Ofensiva contra desinformação e recados para Washington

O combate à desinformação aparece como eixo central da estratégia eleitoral. “Não podemos permitir que as forças da reação utilizem novamente a máquina da desinformação para sequestrar o debate público. A reeleição de Lula é o eixo em torno do qual devemos organizar a resistência contra a hegemonia financeira e a extrema-direita”, diz o texto-guia. Na prática, o partido promete ampliar equipes de comunicação digital, investir em produção de conteúdo regionalizado e pressionar por regras mais rígidas para plataformas, tema hoje em disputa no Congresso e no Supremo.

No palanque, figuras históricas como José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil, e Paulo Okamoto, presidente do Instituto Lula, resgatam a ideia de soberania como marca do governo. Eles criticam duramente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e cobram de Washington a “liberdade de Nicolás Maduro”, apresentado como ex-presidente da Venezuela “sequestrado pelos EUA”. A leitura entre diplomatas é que o PT tenta falar simultaneamente à sua base tradicional, avessa à influência norte-americana, e a uma fatia do eleitorado que associa a política externa atual à retomada de protagonismo regional.

As falas sobre Trump e Maduro tendem a gerar reações em organizações internacionais e na própria chancelaria dos EUA, mas também funcionam como contraponto ao discurso de Flávio Bolsonaro, que promete reaproximação automática com Washington. Ao recolocar a política externa no centro da narrativa, o PT tenta transformar diferenças geopolíticas em marca eleitoral de longo prazo.

Blocos eleitorais em disputa e incertezas até outubro

As decisões do 8º Congresso Nacional do PT podem redesenhar a formação de blocos para a eleição presidencial. Ao acenar a partidos de centro-direita, o partido busca repetir a fórmula que uniu PSB, MDB, PSD e legendas menores em 2022, mas agora com o desafio adicional de conter o desgaste natural de quase quatro anos de governo. Dirigentes estimam que, sem uma frente ampla estruturada até julho, Flávio Bolsonaro pode consolidar vantagem em estados do Sudeste e atrair apoios hoje oficialmente neutros.

Para o eleitor comum, o impacto das definições passa por temas concretos: jornada de trabalho, segurança nas ruas e acesso facilitado ao jogo on-line. Para empresários e governadores, o foco recai sobre previsibilidade regulatória e volume de recursos federais para segurança e políticas sociais. A oposição, por sua vez, já prepara discurso de crítica a um suposto “aparelhamento” da segurança pública e a um “punitivismo seletivo” contra o setor de apostas.

Ao fim do congresso, o partido deve aprovar uma resolução com metas e prazos para a montagem da chapa, a negociação com legendas do centro e a apresentação de projetos prioritários no Congresso Nacional. A largada oficial da campanha ainda depende do calendário eleitoral, mas a disputa antecipada com Flávio Bolsonaro já empurra Lula e o PT para decisões que vão muito além da sobrevivência política da sigla. O ponto em aberto é se o discurso de frente ampla contra a extrema-direita seguirá mobilizando a maioria do eleitorado em 2026 ou se encontrará um país mais fragmentado e menos disposto a escolher entre polos tão marcados.

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