PT abre congresso e arma estratégia para reeleger Lula em 2026
O PT abre, em Brasília, o 8º Congresso Nacional para traçar a estratégia da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2026. O encontro começa em 24 de abril, reúne a cúpula petista e discute alianças com a centro-direita, mudanças em políticas públicas e formas de enfrentar o avanço da extrema direita.
PT mede forças e redesenha alianças
O congresso transforma um hotel de Brasília no principal centro de decisões da política petista até o fim da semana. Dirigentes, governadores, prefeitos, parlamentares e ministros chegam com uma missão clara: montar o arco de alianças que pode garantir mais quatro anos de Lula no Planalto, em uma eleição marcada para outubro de 2026 e hoje polarizada com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que avança nas pesquisas internas.
O presidente não participa da abertura por ter passado por procedimentos médicos, mas envia um vídeo com recado direto à militância. A expectativa é que Lula apareça no segundo dia do evento, em um ato preparado para consolidar o discurso de que a disputa de 2026 volta a opor “democracia e ditadura”, nas palavras do programa oficial do partido. No texto, os estrategistas afirmam que não se trata apenas de evitar a volta dos “golpistas”, mas de decidir entre “soberania e entreguismo, bem-estar e sofrimento, desenvolvimento e retrocesso, esperança e medo, vida e morte”.
Geraldo Alckmin, vice-presidente e filiado ao PSB, ocupa lugar de honra na abertura e simboliza o esforço do PT para fincar pé no centro político. Ele lembra o 8 de janeiro e afirma que Lula “salvou a democracia no Brasil”. “Se perdendo as eleições tentaram dar um golpe, imagine se tivessem ganhado”, diz, mirando o bolsonarismo. O gesto fala tanto para aliados tradicionais quanto para partidos de centro-direita que hoje flertam com a candidatura de Flávio Bolsonaro.
Programa mira trabalho, segurança e desinformação
O texto que orienta o congresso enxerga a campanha como uma nova guerra de narrativa. A direção admite, nos bastidores, que subestimou a máquina de desinformação em 2018 e 2022. Agora, o documento defende uma “ofensiva programática e unidade popular” para reagir a fake news sobre corrupção, costumes e economia. “Não podemos permitir que as forças da reação utilizem novamente a máquina da desinformação para sequestrar o debate público”, registra o texto, que coloca a reeleição de Lula como “eixo” da resistência à extrema direita e à “hegemonia financeira”.
Ao mesmo tempo, o partido tenta oferecer bandeiras concretas à base trabalhadora. Uma das principais propostas é o fim da escala 6×1, modelo que prevê seis dias de trabalho para um de folga, comum em setores como comércio e serviços. Dirigentes defendem um novo arranjo de jornada que, segundo eles, enfrente a “exploração do tempo de vida da classe trabalhadora” e devolva fins de semana e convivência familiar a milhões de empregados. A medida tende a mobilizar centrais sindicais e, se avançar, obrigará empresas a rever escalas, contratar mais pessoal ou reorganizar turnos já a partir de 2027.
Na segurança pública, o PT promete um redesenho estrutural. O plano defende a criação de um Ministério da Segurança Pública, separado da Justiça, e de um Sistema Único que integre ações federais, estaduais e municipais. A proposta busca responder a críticas de que o governo trata o tema de forma dispersa, enquanto o bolsonarismo explora o medo da violência para inflamar sua base. Integrantes da equipe de Lula dizem que a medida aproxima a área de segurança do modelo do SUS, com coordenação nacional e financiamento estável, mas admitem resistência de governadores e policiais que temem perda de autonomia.
A pauta das apostas online entra na programação como um flanco sensível entre governo e eleitorado evangélico. Ministros palacianos destacam a decisão recente de restringir as chamadas bets de “predição” — que vão de apostas em condições climáticas a palpites macabros sobre a morte de pessoas — e o bloqueio de sites irregulares. Aliados veem na medida um aceno direto a pastores que denunciam a “normalização da jogatina” em cultos país afora.
O documento do PT propõe proibir casas de apostas classificadas como “predatórias”, citando o popular “Jogo do Tigrinho” como exemplo, e aplicar imposto seletivo mais alto às demais plataformas do setor, acima das taxas cobradas sobre o tabaco hoje. O líder do governo na Câmara, deputado Pedro Uczai (PT-SC), já apresenta projeto de lei com essa linha, que pode virar um dos testes da força da nova coalizão no Congresso depois do recesso do meio do ano.
Disputa com a direita, base evangélica e arena internacional
Entre discursos e resoluções, o alvo preferencial é a extrema direita. Flávio Bolsonaro aparece nos debates internos como adversário mais provável e mais competitivo que o pai, Jair Bolsonaro, hoje atolado em investigações e inelegível até 2030. Petistas calculam que alianças com siglas de centro-direita, como MDB, PSD e setores do União Brasil, podem decidir a eleição em estados-chave como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia, que somam juntos mais de 40% do eleitorado nacional.
A disputa pelo voto evangélico, que representou cerca de 31% da população brasileira em 2022, recebe atenção especial. Assessores de Lula defendem que o endurecimento contra as apostas online e o discurso contra “jogatinas” criam um ponto de contato com parte das lideranças religiosas que não se identifica com a agenda extremada do bolsonarismo. A leitura é que uma migração de 3 a 5 pontos percentuais nesse segmento pode ser decisiva num segundo turno apertado.
Figuras históricas do partido, como José Dirceu e Paulo Okamotto, também sobem ao palanque para reforçar a bandeira da soberania nacional. Eles criticam o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e cobram a libertação de Nicolás Maduro, ex-presidente da Venezuela, que o PT acusa de ter sido “sequestrado” pelos EUA no início do ano. O tom endurece o discurso externo e mexe com a diplomacia de Lula, que tenta manter interlocução com Washington enquanto resgata a retórica de independência do início dos anos 2000.
A narrativa soberanista ajuda a consolidar a base ideológica do partido, mas pode tensionar relações com investidores estrangeiros e com parte do agronegócio, setor que responde por cerca de 24% do PIB brasileiro e mantém forte interlocução com republicanos nos Estados Unidos. Aliados de perfil moderado avaliam, reservadamente, que a retórica contra Trump fala mais ao núcleo duro petista do que ao eleitor mediano que decide a eleição no Sudeste.
Definições, riscos e o tabuleiro até outubro de 2026
As resoluções do 8º Congresso do PT não têm força de lei, mas funcionam como bússola para a campanha que entra em campo nos próximos meses. O partido pretende aprovar, até o fim do encontro, um roteiro de alianças, prioridades legislativas e compromissos de governo para os próximos quatro anos. A partir de maio, a cúpula petista passa a rodar o país em caravanas, enquanto o governo testará no Congresso propostas como o Ministério da Segurança, o fim da escala 6×1 e o aperto sobre as bets.
O cálculo de Lula e do PT é que, se as medidas avançarem, o presidente chegará a 2026 com entregas concretas para trabalhadores, sensação de maior controle na segurança pública e discurso firme contra a extrema direita. O risco é que o tabuleiro se mova mais rápido do que a capacidade de articulação no Congresso e que Flávio Bolsonaro transforme essas pautas em munição contra o governo. A disputa, como admitem até petistas veteranos nos corredores do congresso, volta a ser uma corrida ponto a ponto — e a largada, neste fim de abril, acontece dentro do próprio partido.
