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Protestos na Bolívia pressionam Rodrigo Paz e reabrem disputa por poder

Milhares de bolivianos voltam às ruas neste domingo (24.mai.2026) para exigir a renúncia do presidente Rodrigo Paz e a convocação imediata de novas eleições. Em meio a bloqueios de estradas que dificultam o abastecimento de alimentos e combustíveis, o ex-presidente Evo Morales apoia publicamente as manifestações e cobra uma “saída democrática” para a crise política.

País sob pressão nas ruas e nas estradas

As principais cidades do país vivem um fim de semana tenso. Grupos de manifestantes montam barricadas em rodovias estratégicas, enquanto marchas se espalham por La Paz, Cochabamba, Santa Cruz e El Alto. Em muitas regiões, caminhões estão parados há dias, sem conseguir entregar produtos básicos. Filas diante de mercados e postos de gasolina se alongam a cada hora.

O bloqueio atinge corredores logísticos que respondem por grande parte do transporte interno de alimentos e gás de cozinha. Moradores relatam desabastecimento crescente de itens como arroz, óleo e farinha. Comerciantes dizem que estoques que normalmente duram uma semana se esgotam em dois ou três dias. A sensação é de que a crise política atravessa a janela da cozinha e chega ao prato.

Rodrigo Paz tenta manter o discurso de controle da situação, mas a pressão aumenta. A oposição fala em “ruptura de confiança” e acusa o governo de agravar a crise econômica com decisões erráticas desde o início do ano. A inflação acumulada em 2026 supera dois dígitos, segundo estimativas de economistas locais, em um país acostumado a conviver com números mais estáveis na última década.

Nas ruas, o alvo é direto. Faixas pedem a saída imediata de Paz e a formação de um governo de transição com mandato curto, de 6 a 12 meses, apenas para conduzir novas eleições gerais. Em algumas cidades, líderes comunitários anunciam assembleias diárias para decidir o rumo dos protestos e avaliar eventuais propostas de diálogo vindas de La Paz.

Evo volta ao centro do tabuleiro

Evo Morales, afastado do Palácio Quemado desde 2019, volta a ocupar espaço central no debate político. O ex-presidente apoia os protestos e defende a antecipação do calendário eleitoral como forma de restaurar a legitimidade das instituições. “O povo boliviano exige o direito de escolher novamente. A resposta deve ser democrática, pacífica e imediata”, afirma em declaração divulgada por sua equipe.

A fala reorganiza forças dentro e fora do Movimento ao Socialismo (MAS). Uma ala vê na crise a chance de reposicionar Morales como articulador nacional, inclusive em possíveis negociações com o governo. Outra teme que sua volta ao protagonismo reacenda divisões internas e afaste setores urbanos que se distanciam do ex-presidente nos últimos anos. A disputa sobre quem capitaliza o desgaste de Rodrigo Paz permeia cada reunião de bastidor.

Analistas políticos ouvidos por rádios locais avaliam que o governo perde margem de manobra a cada dia de bloqueio. Com o transporte comprometido, prefeitos e governadores pressionam o Palácio por uma solução rápida. O custo de manter estradas fechadas por mais de uma semana é alto para produtores rurais, comerciantes e trabalhadores informais, que vivem de entregas diárias e vendas em feiras populares.

Na prática, a equação é delicada. Se o governo tolera os bloqueios, reforça a percepção de fragilidade. Se reprime de forma dura, alimenta o discurso de ruptura democrática. Evo Morales tenta se colocar no meio desse impasse, propondo eleições antecipadas como saída negociada. “Não se trata de vingança ou revanchismo, mas de reconstruir a confiança nas urnas”, diz, em outra intervenção pública.

A memória recente pesa. Desde a crise eleitoral de 2019, a Bolívia atravessa ciclos repetidos de protestos, renúncias e governos de transição. O cansaço social é visível. Famílias relatam ter participado de manifestações em pelo menos três grandes ondas de mobilização nos últimos sete anos. A atual leva, porém, combina frustração econômica com desconfiança política, mistura que historicamente aumenta o risco de ruptura institucional.

Abastecimento ameaçado e risco de escalada

As consequências dos bloqueios já aparecem na mesa das famílias. Em bairros populares de La Paz, o preço de produtos básicos sobe em ritmo diário. Donas de casa relatam aumentos de até 30% em poucos dias para alguns alimentos, diante da menor oferta nas prateleiras. Hospitais começam a registrar dificuldades para receber insumos e medicamentos, principalmente em regiões atendidas por rodovias hoje interrompidas.

Organizações da sociedade civil alertam para risco de insegurança alimentar nas próximas semanas, caso as estradas continuem bloqueadas. Entidades ligadas a produtores rurais calculam prejuízos milionários com cargas de frutas, verduras e carne presas em caminhões, sem refrigeração adequada. Cada dia de paralisação aprofunda a perda econômica e aumenta o desgaste de Rodrigo Paz, que vê sua base de apoio empresarial se fragmentar.

O impacto político extrapola as fronteiras. Países vizinhos acompanham a crise com atenção, preocupados com rotas de comércio e fluxos migratórios. Embaixadas monitoram o cenário e discutem planos de contingência para cidadãos estrangeiros. Investidores aguardam sinais de estabilidade antes de destravar projetos em setores como gás, mineração e infraestrutura.

Negociações discretas começam a surgir nos bastidores. Interlocutores tentam construir uma saída que combine o fim gradual dos bloqueios com um cronograma político mais claro. O debate passa por três pontos centrais: eventual renúncia de Rodrigo Paz, encurtamento de seu mandato ou compromisso público com eleições antecipadas em prazo definido, como 6 ou 9 meses.

Qualquer arranjo, porém, depende de algum nível de confiança entre governo, oposição e movimentos sociais. Até agora, os lados trocam acusações de má-fé. Manifestantes afirmam que a renúncia é condição inegociável. Aliados de Paz dizem que ceder a essa exigência abre precedente perigoso e incentiva novas ondas de protestos no futuro.

Saída política ainda em aberto

O próximo capítulo da crise deve ser escrito nos próximos dias, à medida que o desabastecimento se acentua e o clima nas ruas se cristaliza. Se os bloqueios se mantêm firmes por mais uma semana, o custo social e econômico tende a se tornar insustentável, aumentando a pressão sobre o Palácio para uma decisão drástica.

No horizonte imediato, três cenários se desenham: resistência do governo e prolongamento do impasse, acordo por eleições antecipadas com Rodrigo Paz ainda no cargo ou renúncia seguida de governo de transição. Nenhuma dessas rotas é simples. A postura de Evo Morales, ora como aliado de manifestantes, ora como possível negociador, ajuda a definir qual porta se abre primeiro.

Sem resposta política clara, a Bolívia corre o risco de repetir um ciclo de instabilidade que já cobra preço alto da economia e da confiança nas instituições. A pergunta que ecoa entre mercados vazios, estradas bloqueadas e praças cheias segue sem resposta: quem vai assumir a responsabilidade de destravar o país antes que a crise saia completamente de controle?

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