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Protestos na Bolívia fecham bancos e ampliam pressão sobre Rodrigo Paz

Protestos nacionais contra medidas de austeridade fecham agências bancárias em La Paz e bloqueiam estradas na Bolívia nesta terça-feira (19), elevando a pressão sobre o governo centrista de Rodrigo Paz. Greves, marchas e confrontos com a polícia aprofundam a crise política e econômica que se arrasta desde o início de maio.

Crise nas ruas e nas estradas

As manifestações ganham força nas últimas duas semanas e atingem agora o coração do sistema financeiro. Bancos como o BCP, o Banco Econômico e o estatal Banco Unión fecham temporariamente parte de suas agências na capital administrativa, alegando falta de segurança. O atendimento migra para caixas eletrônicos e plataformas digitais, em um esforço para manter serviços básicos enquanto as ruas seguem tomadas.

Greves de trabalhadores do transporte, bloqueios em rodovias nacionais e marchas de sindicatos, mineiros e grupos rurais formam um mosaico de insatisfação. Em La Paz, apoiadores do ex-presidente Evo Morales voltam a ocupar o centro da cidade na segunda-feira (18), ampliando a pressão sobre o Palácio Quemado. Os atos deixam caminhões parados por dias nas estradas e dificultam o acesso a hospitais, segundo autoridades locais.

Economia em aperto e disputa política

Os protestos nascem de queixas salariais e do aumento do custo de vida, mas se transformam em questionamento direto à estratégia econômica do governo. Professores cobram reajustes e mais recursos para educação. Trabalhadores do transporte anunciam greves por tempo indeterminado, alegando escassez de combustível e incerteza sobre o abastecimento. Grupos indígenas e rurais rejeitam a agenda de reforma agrária, que consideram favorável a grandes proprietários de terra.

Rodrigo Paz assume a Presidência em novembro com a promessa de estabilizar uma economia já em turbulência. Em poucos meses, adota cortes de gastos e reduz subsídios aos combustíveis, medidas que considera indispensáveis. Em discursos recentes, o presidente afirma que o aperto é temporário e busca se colocar como gestor responsável. “Não podemos continuar gastando o que não temos. As reformas são dolorosas, mas necessárias para proteger os mais vulneráveis a médio prazo”, diz, em tom de justificativa.

O cálculo político, porém, se mostra arriscado. Analistas ouvidos por agências internacionais avaliam que o movimento se desloca de reivindicações pontuais para um sentimento antigovernamental mais amplo. Em faixas e discursos, parte dos manifestantes já pede a renúncia de Paz. A oposição e aliados de Morales aproveitam o desgaste e são acusados pelo governo de estimular bloqueios. As autoridades atribuem aos protestos ao menos três mortes recentes, incluindo pacientes que não conseguem chegar a hospitais em tempo.

A tensão aumenta mesmo após o recuo parcial do Planalto boliviano. O governo revoga neste mês uma lei agrária polêmica, alvo de críticas de comunidades rurais, na tentativa de desarmar uma das frentes de conflito. As ruas, porém, não esvaziam. A sensação, entre sindicalistas e movimentos sociais, é de que a crise atual soma anos de frustração com crescimento fraco, inflação persistente e serviços públicos sobrecarregados.

Impacto imediato: bancos fechados e ajuda externa

A suspensão de parte das operações bancárias sinaliza um novo estágio da crise. Funcionários de pelo menos cinco instituições relatam à Reuters que as agências não retomam o funcionamento normal enquanto a violência não diminui. A associação bancária Asoban evita comentar as razões específicas, mas ressalta que o sistema segue “parcialmente operacional”, com foco em canais digitais. Para milhões de bolivianos que dependem de atendimento presencial, a orientação é aguardar ou buscar caixas eletrônicos em áreas menos afetadas.

Nas estradas, os bloqueios interrompem o fluxo de alimentos, combustíveis e medicamentos. Em algumas cidades, supermercados já registram prateleiras vazias e filas mais longas. Hospitais relatam falta de insumos e dificuldades para receber pacientes de regiões rurais. O governo mobiliza cerca de 3.500 policiais e militares para desobstruir as vias e afirma ter detido pelo menos 57 pessoas ligadas aos protestos mais violentos. A estratégia combina repressão pontual e convites para mesas de negociação com categorias em greve.

A pressão ultrapassa as fronteiras. A Argentina envia uma aeronave militar carregada com alimentos, após pedido oficial de La Paz. O Chile organiza o envio de suprimentos básicos por via aérea, em coordenação com autoridades bolivianas. As imagens de caminhões parados e de filas por gasolina ganham espaço na imprensa regional, alimentando preocupações sobre o risco de desabastecimento prolongado e novos fluxos migratórios.

No câmbio informal, operadores relatam maior pressão sobre o boliviano, moeda local, em meio ao clima de incerteza. Empresários do comércio e da indústria alertam para queda de vendas e interrupção de cadeias de produção, especialmente nas regiões dependentes de insumos importados. Pequenos negócios, que vivem do movimento diário de clientes, sofrem com a combinação de ruas fechadas e dificuldade de acesso ao dinheiro vivo.

Próximos passos e incertezas

O governo aposta em um pacote de reformas em preparação para o Congresso, que prevê o fim gradual dos controles de preços dos combustíveis e incentivos à produção doméstica de energia. A equipe econômica vende o plano como saída para reduzir a dependência de importações caras e criar novas frentes de investimento. Sindicatos, porém, enxergam na proposta mais um capítulo de aperto sobre trabalhadores e acusam Paz de governar sem ouvir as bases sociais.

Negociações com categorias em greve avançam lentamente. O Palácio acena com aumentos salariais pontuais e programas de auxílio econômico para setores mais afetados, mas evita rever a espinha dorsal da agenda de austeridade. Líderes de movimentos rurais e urbanos insistem que não recuam sem garantias concretas. “Não queremos promessas, queremos comida acessível e combustível que caiba no bolso”, resume um dirigente sindical, em meio a um dos bloqueios.

A escalada boliviana volta a colocar o país no radar de organismos internacionais e vizinhos preocupados com a estabilidade regional. A memória de outras ondas de protestos na América do Sul ainda pesa em governos que acompanham de perto a situação. Se os bloqueios persistem por mais semanas, economistas apontam risco de contração mais forte da atividade e de desgaste político irreversível para Rodrigo Paz. A pergunta, em La Paz e fora dela, é se o presidente conseguirá encontrar um ponto de equilíbrio antes que a rua defina sozinha os rumos da Bolívia.

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