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EUA exigem retorno ao país de origem para pedido de green card

O Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos (USCIS) determina que estrangeiros em situação temporária no país só poderão pedir o green card a partir do exterior. O anúncio é feito nesta sexta-feira, 22 de maio de 2026, e endurece de forma imediata as regras para quem pretende transformar uma estadia provisória em residência permanente.

Nova regra trava mudança de status dentro dos EUA

A decisão altera uma prática que, por anos, permite que turistas, estudantes e trabalhadores com vistos temporários solicitem o green card sem sair do território americano. Na nova diretriz, a regra passa a ser o retorno ao país de origem para dar início ao processo de residência permanente, em consulados e embaixadas dos EUA.

O green card, nome popular do Cartão de Residente Permanente, é o documento que autoriza o estrangeiro a viver e trabalhar legalmente nos Estados Unidos sem limite de prazo. A mudança impacta diretamente esse caminho de regularização, hoje usado por milhares de pessoas que chegam ao país com vistos de não imigrante e decidem permanecer.

Em nota, o porta-voz do USCIS, Zach Kahler, diz que o órgão “retorna à intenção original da lei para garantir que os estrangeiros naveguem corretamente pelo sistema de imigração do nosso país”. Segundo ele, a partir de agora, “um estrangeiro que esteja nos EUA temporariamente e queira um green card deve retornar ao seu país de origem para solicitar, exceto em circunstâncias extraordinárias”.

Essas exceções não são detalhadas publicamente. O USCIS informa apenas que agentes de imigração serão orientados a avaliar “todos os fatores e informações relevantes, caso a caso”, o que abre espaço para decisões pontuais em situações humanitárias, de segurança ou de interesse nacional, mas deixa imigrantes e advogados sem parâmetros claros.

Medida se encaixa em pacote restritivo do governo Trump

A decisão é apresentada como ajuste técnico, mas se encaixa no movimento mais amplo do governo Donald Trump para restringir a imigração legal e ilegal. Desde janeiro, o Departamento de Estado já informa a revogação de mais de 100 mil vistos ao longo do segundo mandato do republicano, entre eles cerca de 8 mil vistos de estudantes estrangeiros.

Ao justificar a nova regra, Kahler afirma que o objetivo é fazer o sistema de imigração “funcionar como a lei pretendia, em vez de incentivar brechas”. A principal preocupação declarada é com estrangeiros que têm o pedido de residência permanente negado e decidem não sair do país. “Quando os estrangeiros solicitam a partir de seus países de origem, isso reduz a necessidade de encontrar e remover aqueles que decidem se esconder e permanecer nos EUA ilegalmente após terem o pedido de residência negado”, afirma.

O porta-voz reforça que o sistema americano é desenhado para que vistos temporários tenham data de saída definida. Turistas, estudantes e trabalhadores sazonais, argumenta, devem deixar os Estados Unidos ao fim da autorização de permanência. “Esse período não deve funcionar como o primeiro passo no processo do green card”, diz.

Na prática, a nova diretriz atinge justamente quem usa a via legal para mudar de status, seja por oferta de trabalho, reunião familiar ou outras categorias previstas em lei. Advogados de imigração ouvidos por entidades de direitos civis apontam o risco de aumento na informalidade, com estrangeiros relutando em deixar o país por medo de não conseguir voltar, sobretudo em regiões com forte presença de estudantes e trabalhadores temporários.

Impacto em estudantes, trabalhadores e famílias

O endurecimento das regras muda o cálculo de quem planeja estudar, trabalhar ou empreender nos Estados Unidos com vistas à residência permanente. Um estudante brasileiro em curso de quatro anos, por exemplo, passa a ter de voltar ao Brasil para iniciar o pedido de green card, mesmo que já tenha proposta de emprego em solo americano. O processo, em alguns casos, leva mais de 12 meses entre entrevistas, checagens de antecedentes e prazos consulares.

Trabalhadores temporários de tecnologia, agricultura e serviços, muitos deles amparados por vistos com validade de poucos anos, também enfrentam um cenário mais incerto. Empresas que patrocinam vistos de trabalho e, mais tarde, pedidos de residência, terão de reprogramar contratos, orçamentos e cronogramas. Cada retorno ao país de origem significa custos adicionais com viagens, tempo fora do posto e riscos burocráticos, em especial em consulados com filas longas.

Famílias mistas, com parte dos membros já residentes permanentes e outros ainda com vistos temporários, sentem o impacto de forma mais aguda. Em casos de negativa do pedido feito no exterior, o cônjuge ou filho pode ficar impedido de retornar por anos, a depender da categoria de visto e do histórico migratório. Organizações de defesa de imigrantes alertam para o potencial de separações prolongadas.

A medida também tende a pressionar a rede consular americana em países que concentram altos fluxos migratórios para os Estados Unidos. Embaixadas e consulados já operam com filas para vistos de turismo e estudo, e agora precisarão absorver um volume maior de processos de residência permanente. Em 2025, antes mesmo da nova regra, algumas repartições registram esperas superiores a seis meses para entrevistas de vistos de imigrante, segundo dados oficiais.

Incertezas jurídicas e disputa política à frente

Especialistas preveem que a mudança regra o debate político em Washington e pode parar na Justiça federal. Grupos de direitos civis avaliam contestar a medida com base em casos específicos, alegando violação de princípios de proporcionalidade e de proteção a famílias já estabelecidas no país. Parlamentares democratas, críticos da agenda migratória de Trump, pressionam por audiências públicas e projetos que limitem a margem de manobra do Executivo.

Ao mesmo tempo, a Casa Branca reforça o discurso de segurança nacional. Em pronunciamentos recentes, o governo insiste na necessidade de “deportar esses bandidos para manter a América segura”, linguagem que mistura o combate a crimes graves com a gestão de fluxos migratórios regulares. A associação entre residência permanente e risco à segurança tende a alimentar a polarização em ano eleitoral.

O USCIS ainda precisa detalhar, por meio de normas internas e manuais de orientação, como serão tratadas as tais “circunstâncias extraordinárias”. Da clareza desses critérios depende, em grande parte, a previsibilidade do sistema para estudantes, profissionais qualificados e famílias que já planejam o futuro no país. Até lá, a regra geral é simples e dura: quem está temporariamente nos Estados Unidos e sonha com o green card precisa, primeiro, fazer as malas de volta.

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