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Protestos na Albânia miram megaresort ligado a Jared Kushner

Milhares de pessoas ocupam as ruas de Tirana, na Albânia, nesta terça-feira (2), para barrar um projeto turístico bilionário ligado a Jared Kushner e Ivanka Trump. A Promotoria Especial do país abre investigação por suspeita de corrupção e pressão sobre áreas ambientais protegidas.

Protesto em Tirana expõe crise em torno do litoral albanês

A marcha começa no centro da capital e avança até a sede do governo sob um coro repetido: “Cancelem o projeto”. Famílias inteiras caminham com cartazes que dizem “A Albânia não está à venda” e “Ivanka, vá para casa”. Em poucas horas, a manifestação transforma uma disputa sobre um resort de luxo em um teste sobre quem decide o futuro do litoral albanês.

O alvo é um pacote de investimentos estimado em 1,4 bilhão de euros, anunciado por Kushner há cerca de dois anos. O plano prevê hotéis e resorts de alto padrão na ilha desabitada de Sazan, antiga base militar secreta do regime comunista, e na área costeira protegida de Vjosa-Narta, próxima à comunidade de Zvernec, no sul do país. Na propaganda, trata-se de transformar a costa em um destino exclusivo para milionários do Mediterrâneo. Na leitura dos moradores, é um processo de expulsão silenciosa.

Vídeos que circulam nas redes sociais, com legendas em inglês e albanês, mostram manifestantes afirmando que “o país não será vendido a Israel, Ivanka Trump ou Jared Kushner”. Em uma das postagens mais compartilhadas, um perfil de esquerda resume o sentimento: “This is what class consciousness looks like, and it is a beautiful thing!”. A cena ecoa em contas internacionais e atrai a atenção de veículos como a Al Jazeera, que envia repórteres ao local.

O ato em Tirana ocorre dias depois de um protesto em Zvernec, onde ambientalistas e moradores denunciam cercas de arame farpado erguidas sobre a areia. Os bloqueios restringem o acesso a uma praia que, por décadas, serve como área de lazer e subsistência para pescadores e famílias da região. Para os manifestantes, o arame farpado simboliza a passagem de um litoral público para um playground privado de alto padrão.

Investigação anticorrupção e disputa ambiental em área protegida

A reação nas ruas ganha força quando a Promotoria Especial da Albânia para o combate à corrupção e ao crime organizado anuncia, no mesmo período, uma investigação sobre a origem dos recursos usados na compra dos terrenos e sobre as operações de revenda a investidores internacionais. Promotores querem entender quem financia o projeto, em que condições e com que contrapartidas do Estado. A mudança de status de áreas protegidas para fins turísticos também entra na mira.

Organizações ambientais afirmam, desde janeiro, que o megaempreendimento ameaça ecossistemas frágeis e a biodiversidade em Sazan e em Vjosa-Narta. Cerca de 40 entidades assinam um apelo público pela suspensão imediata das obras e das autorizações administrativas. Elas alertam para riscos à fauna marinha, às aves migratórias e a zonas úmidas que funcionam como barreira natural contra erosão costeira. Um relatório preliminar classifica a região como “sensível e insubstituível” no equilíbrio ecológico do país.

O governo albanês tenta enquadrar os investimentos como uma oportunidade histórica. Ao longo de dois anos, ministros apresentam o projeto como vitrine global, capaz de atrair turistas de alta renda e colocar o país em uma “nova rota” do turismo mediterrâneo. Dados oficiais prometem milhares de empregos diretos e uma injeção de recursos externos em infraestrutura hoteleira, portos e energia. O discurso, porém, esbarra na memória recente de projetos imobiliários que concentram renda e privatizam paisagens inteiras nos Bálcãs.

Uma entrevista de Ivanka Trump, que circula em trechos nas redes, amplia a irritação. Ela descreve uma visita à ilha de Sazan, onde diz ter nadado com Kushner antes de se encantar com o lugar. “Para mim, é como se fosse mais que um desafio”, afirma. “Não é nem como um negócio, apesar da escala. É a culminação de toda minha experiência no mercado imobiliário e nas minhas reflexões sobre como viver.” A fala é lida por críticos como prova de que o projeto ignora as comunidades locais e trata a costa albanesa como um laboratório pessoal de luxo.

Em outra peça promocional, divulgada por apoiadores do empreendimento, Ivanka menciona um “enorme projeto off the grid”, uma espécie de ilha autossuficiente em energia e serviços, com 1.400 hectares e infraestrutura construída do zero. Para ambientalistas, o sonho de uma bolha isolada no meio do Mediterrâneo traduz o conflito central: de um lado, um refúgio fechado para bilionários; de outro, o direito de acesso de cidadãos comuns ao mar.

Confrontos, punições e a disputa pelo futuro da costa

O clima se torna mais tenso quando seguranças privados entram em confronto com manifestantes em um dos protestos recentes. Vídeos mostram empurrões, golpes e pessoas feridas sendo atendidas na rua. O episódio leva o governo a suspender policiais envolvidos na operação e a cancelar as licenças de duas empresas de segurança contratadas na área. Autoridades dizem querer evitar “escalada da violência”, mas não recuam oficialmente do apoio ao investimento estrangeiro.

Os protestos, que reúnem milhares de pessoas em Tirana e em Zvernec, revelam um raro consenso entre moradores urbanos, comunidades costeiras e ativistas ambientais. Para eles, o megaresort representa um modelo de desenvolvimento que privilegia estrangeiros e elites locais, em troca de áreas até então acessíveis e de ecossistemas pouco estudados. A comparação com Gaza, feita por críticos ao lembrar planos de enclaves de luxo em zonas devastadas, circula em faixas e discursos improvisados.

Na prática, o caso força o país a debater que tipo de turismo deseja atrair e a que preço. Se o projeto avançar, resorts cinco estrelas e marinas privadas podem redesenhar a economia de cidades costeiras inteiras, empurrando moradores para periferias afastadas e encarecendo o custo de vida. Se travar, governos terão de explicar por que anunciaram, com entusiasmo, investimentos cuja legalidade e impacto ambiental agora são questionados por promotores e juízes.

A investigação anticorrupção segue sem prazo definido para conclusão, mas já altera o ritmo das negociações. Investidores observam o caso com cautela, enquanto organizações locais organizam novos atos e prometem monitorar cada licença concedida. Em entrevistas a emissoras internacionais, lideranças afirmam que não aceitarão “praias cercadas e guardadas por seguranças para poucos privilegiados”.

O próximo capítulo depende da disposição das autoridades judiciais em avançar sobre contratos e eventuais mudanças na legislação ambiental aprovadas nos últimos anos. Se promotores comprovarem irregularidades na origem dos recursos ou na transformação de áreas protegidas em zona turística, o projeto de 1,4 bilhão de euros pode virar símbolo de um freio à venda do litoral albanês. Se não, a pergunta que ecoa nas ruas de Tirana seguirá sem resposta: até onde um país está disposto a ir para atrair o dinheiro de seus convidados mais ricos?

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