Prime Video afasta Rômulo Mendonça e Bugarelli das finais da NBA
A Prime Video afasta, nesta sexta-feira (12), o narrador Rômulo Mendonça e o comentarista Ricardo Bugarelli das transmissões das finais da NBA. A decisão ocorre após comentários considerados inadequados em episódio do “Jararacas Podcast”, que motivam investigação interna na plataforma de streaming.
Podcast vira foco de crise em plena decisão da NBA
O afastamento atinge diretamente a cobertura do jogo 5 entre New York Knicks e San Antonio Spurs, uma das noites mais aguardadas da temporada 2025/26. Rômulo e Bugarelli vinham se consolidando como vozes reconhecíveis das transmissões da NBA na Amazon no Brasil, o que amplia a repercussão do caso entre fãs e profissionais do mercado esportivo.
O episódio que desencadeia a crise ocorre no “Jararacas Podcast”, projeto independente dos dois comunicadores. Durante uma edição publicada na terça-feira anterior ao jogo, Rômulo faz uma paródia em tom de deboche sobre um vídeo da colega de emissora Alana Ambrósio, que havia divulgado no Instagram um relato pessoal sobre dificuldades da carreira no esporte. O conteúdo circula em redes sociais, gera reação negativa e chega à direção da Prime Video.
Na nota enviada à imprensa, a empresa adota tom duro e reforça que considera o episódio uma violação de conduta. “Estamos cientes de comentários inadequados feitos a respeito de um membro de nossa equipe de transmissão. Não toleramos esse comportamento e os talentos envolvidos foram suspensos de nossas transmissões enquanto realizamos uma investigação completa do caso”, afirma o comunicado oficial.
Os dois narradores reagem um dia depois, também por escrito, em posicionamento divulgado pelo perfil do podcast. Eles insistem na defesa de que se trata de humor e reforçam a independência do projeto em relação à emissora. “O Jararacas é um podcast independente, de resistência, que fala de basquete, esportes e coisas aleatórias com humor”, escrevem.
Limites do humor, ambiente de trabalho e repercussão pública
No texto, Rômulo e Bugarelli relatam a sequência de eventos da semana. “A paródia foi feita no episódio de terça-feira. Fizemos a transmissão mais extraordinária das nossas vidas na quarta-feira. Teve outro episódio do podcast na quinta-feira. E fomos informados na sexta-feira pela empresa que ficaríamos fora enquanto um incidente estava sendo averiguado”, descrevem.
Segundo os comunicadores, a direção da Prime Video comunica o afastamento antes mesmo de explicar formalmente qual era o alvo da apuração. “Posteriormente, fomos informados qual era o incidente e nos foi solicitado um pedido de desculpas o qual acordamos fazer no próximo ep do Jararacas – nosso podcast independente onde ocorreu a paródia”, afirmam. Eles também se queixam de terem sido surpreendidos pela exposição pública do caso. “A informação foi vazada de forma indevida e publicada sem que fôssemos ouvidos.”
O episódio reacende um debate que atravessa o jornalismo esportivo nos últimos anos: até onde vai a liberdade de expressão de comentaristas e narradores quando eles também produzem conteúdo em canais próprios, como podcasts e lives, e em que momento essa atuação colide com as políticas das empresas que os contratam. A fala de Rômulo sobre Alana é recebida por parte da audiência como ataque pessoal a uma colega em situação de vulnerabilidade, o que pressiona a Prime Video a agir com rapidez.
Na mesma nota, os dois tentam afastar acusações de preconceito. “Para quem acha que a paródia aconteceu por ‘inveja’ ou ‘machismo’, definitivamente, não é isso”, escrevem. Eles destacam que o humor do programa atinge diferentes figuras públicas. “Estamos sempre fazendo sátiras, paródias e piada com todos, sejam eles atletas, políticos ou mesmo jornalistas.”
Alana segue escalada normalmente nas transmissões da empresa, o que reforça a leitura de que, para a plataforma, o alvo da correção são os autores da piada, não a linha editorial. A manutenção da repórter e o corte imediato de dois nomes associados ao basquete mostram como conflitos internos hoje se estendem para a arena pública em poucas horas, impulsionados por vídeos compartilhados em alta velocidade.
Substituição imediata e futuro em aberto para dupla
Com o afastamento, a Amazon aciona um plano emergencial para não comprometer o produto que vende ao assinante. Marcelo Gomes assume a narração do jogo 5, enquanto a ex-jogadora Janeth Arcain se mantém na equipe de comentários. No comunicado do “Jararacas”, Rômulo e Bugarelli pedem que o público não transfira a polêmica para os colegas de cabine. “Pedimos que tenham empatia com o Marcelo Gomes e a Janeth Arcain, narrador e comentarista que estarão no jogo hoje. Eles são ótimos profissionais e merecem ser reconhecidos”, afirmam.
A rápida troca de vozes em uma decisão da NBA, torneio que movimenta bilhões de dólares por temporada e cresce de forma consistente no mercado brasileiro desde meados dos anos 2000, costuma pesar na percepção de quem acompanha o campeonato há anos. Para parte da audiência, o narrador se torna quase um personagem da história do esporte transmitido. Quando essa figura sai de cena de um dia para o outro, a mudança funciona como lembrete de que o comportamento fora do ar também passa a ser cláusula central na carreira.
O caso entra para a lista de conflitos recentes entre comunicadores esportivos e empresas de mídia provocados por conteúdos em plataformas paralelas, como canais de vídeo e redes sociais. A fronteira entre o “independente” e o “oficial” se mostra cada vez mais tênue quando o público identifica os profissionais antes pela voz e pelo estilo do que pelo CNPJ que assina o contrato. A investigação aberta pela Prime Video, sem prazo divulgado para conclusão, deve definir se o afastamento termina com um retorno discreto às transmissões ou com uma ruptura definitiva.
No encerramento da nota, a dupla procura sinalizar normalidade aos fãs do programa. “Segunda-feira estaremos no ar às 10h30 para levar humor e muito basquete para todos vocês”, prometem, anunciando o episódio em que pretendem formalizar o pedido de desculpas solicitado pela empresa. O movimento tenta preservar a base de ouvintes do podcast enquanto o futuro na tela da Prime segue em suspenso.
A repercussão, porém, já ultrapassa o nicho do basquete. Entidades do setor, colegas de profissão e torcedores discutem, em redes sociais e programas especializados, qual deve ser o padrão ético para quem ocupa posição de destaque em coberturas esportivas. A pressão por ambientes de trabalho menos hostis convive com a defesa do humor como ferramenta crítica. A investigação da Prime Video e a resposta do público nos próximos dias vão indicar qual desses vetores se impõe e que tipo de limite passa a valer para as próximas gerações de narradores e comentaristas.
