Presidente do Botafogo social acusa Textor e pede apoio à nova SAF
O presidente do Botafogo social, João Paulo Magalhães Lins, acusa John Textor de falhar na gestão da SAF e prejudicar o clube, em 8 de junho de 2026. Em entrevista à ESPN, na sede da Ferj, ele cobra responsabilidade do empresário e convoca a torcida a se unir em torno da nova estrutura societária.
Desabafo público em dia de eleição na Ferj
O relógio marca pouco depois das 16h quando João Paulo deixa o plenário da Ferj, no Rio de Janeiro, e encara as câmeras. O ambiente é de celebração para Rubens Lopes, reeleito para mais quatro anos no comando da federação, mas o dirigente alvinegro escolhe falar de crise. Em tom firme, ele direciona a insatisfação de conselheiros, sócios e boa parte da arquibancada a John Textor, acionista que comandou a SAF do Botafogo pelos últimos anos.
“Eu acho que o descontentamento com o John Textor é do associativo com ele, não é o contrário. Ele não tem que estar descontente com a gente”, dispara João Paulo, diante da equipe da ESPN. O dirigente lembra que o americano teve 11 meses para recompor a relação com seus sócios na estrutura societária e não conseguiu. “Ele teve 11 meses para tentar fazer um acordo com os sócios dele, com quem ele brigou. Não conseguiu, ele falhou. E ele não pode levar o Botafogo para a lama”, afirma.
O desabafo ecoa em um clube pressionado por decisões esportivas e financeiras recentes. A SAF convive com uma série de transfer bans, punições que impedem o registro de novos jogadores por dívidas com clubes e empresários. Ao falar em “inúmeros transfer bans” e “muitos compromissos sem serem cumpridos”, João Paulo traduz em voz alta o temor de que a instabilidade administrativa comprometa temporadas inteiras e afaste reforços estratégicos em janelas de mercado decisivas.
Crise de gestão e busca por nova direção
O dirigente faz questão de separar a figura pública de Textor do gestor que conduziu o futebol alvinegro. “Não tenho nada contra a pessoa física do John Textor. Acho ele um camarada muito gentil, cortês com todo mundo”, reconhece. A frase seguinte, porém, marca a ruptura definitiva. “Mas ele teve falhas muito significativas como gestor de futebol e prejudicou muito o Botafogo. As pessoas não têm ideia do cenário que o Botafogo se encontra hoje.”
O cenário inclui incertezas sobre fluxo de caixa, atrasos em pagamentos e um passivo que hoje trava operações corriqueiras de um clube de Série A. Transfer bans sucessivos, aplicados por instâncias da Fifa e da CBF, restringem a montagem do elenco e empurram o departamento de futebol para soluções de curto prazo, muitas vezes mais caras. A percepção de que compromissos firmados não são honrados aumenta a desconfiança de parceiros comerciais e investidores potenciais.
Nos bastidores, a resposta institucional vem com a tentativa de mudança no controle da SAF. Botafogo social, SAF e o investidor canadense Gabriel de Alba já assinam um contrato vinculante que prevê a entrada da gestora GDA Luma Capital como nova acionista majoritária. O acordo funciona como um compromisso formal: define estrutura de poder, metas de investimento e prazos para que a nova controladora assuma de fato o comando, mas ainda depende de etapas legais e financeiras para ser concluído.
Um desses pontos sensíveis está na França. Falta um acerto entre a SAF do Botafogo e o Lyon para viabilizar a transferência do bloco de ações hoje vinculado à Cork Gully LLP, administradora judicial da Eagle, empresa de Textor. Sem a definição de valores e condições, a transição de poder permanece em suspenso, mantendo o clube num limbo societário que freia decisões de médio e longo prazo.
Impacto esportivo e disputa por confiança
As críticas públicas de João Paulo não se limitam à retórica. Ao afirmar que “o botafoguense é que está sangrando com inúmeros transfer bans”, ele aponta para consequências diretas no campo. Cada punição limita a reposição de peças, encarece negociações e fragiliza o elenco em competições nacionais e internacionais. Em um calendário que concentra decisões entre abril e dezembro, semanas sem poder registrar atletas podem significar perda de pontos, queda em mata-matas e desvalorização de ativos.
A turbulência administrativa também pesa na relação com a torcida. Após campanhas recentes que oscilaram entre a euforia de brigar pelo título brasileiro e o trauma de perder força na reta final, a percepção de descontrole financeiro volta a assombrar o clube. A presença de um investidor estrangeiro, antes vendida como garantia de profissionalização e aporte de capital, passa a ser questionada quando contratos são descumpridos e dívidas com terceiros aparecem em instâncias internacionais.
O discurso de João Paulo tenta reorganizar esse tabuleiro de expectativas. “Acho que nós vamos trabalhar todos unidos, todos os botafoguenses de mãos dadas, vamos apoiar agora a SAF, num novo momento”, projeta. O apelo busca reposicionar o associativo, que por vezes aparece como antagonista da SAF, como parceiro da futura controladora. Ao defender “um novo momento”, o presidente sinaliza que a aposta recai sobre a GDA Luma Capital e sobre Gabriel de Alba, vistos nos bastidores como agentes de uma gestão mais ortodoxa, com foco em equilíbrio de contas e governança.
O movimento tem impacto direto sobre potenciais patrocinadores e credores. Uma SAF em transição, mas com contrato vinculante assinado, envia ao mercado a mensagem de que há um plano em curso para estabilizar finanças, profissionalizar processos e recuperar a credibilidade. Ao mesmo tempo, a exposição pública das falhas de Textor reforça a pressão para que o atual gestor colabore com a transição e cumpra obrigações pendentes.
Pressão sobre Textor e o que vem a seguir
A fala do presidente do Botafogo social, feita em um dia de recondução de poder na Ferj, funciona como um recado para dentro e para fora do clube. Dentro, porque consolida a posição do associativo de que a era Textor, tal como foi conduzida, se esgota. Fora, porque coloca investidores, parceiros e federação diante de um quadro de instabilidade que exige respostas rápidas, sob risco de novos bloqueios e sanções esportivas.
O próximo passo decisivo é o desfecho da negociação com o Lyon e a liberação definitiva das ações hoje em mãos da Cork Gully LLP. Só com essa etapa resolvida a GDA Luma Capital poderá assumir formalmente o controle da SAF e imprimir sua marca de gestão. Até lá, o Botafogo segue em um regime de transição vigiada, com decisões estratégicas obrigadas a considerar tanto o legado de Textor quanto as exigências do novo investidor.
A janela de transferências mais próxima deve servir como termômetro da capacidade de reação do clube. Se os transfer bans forem equacionados a tempo e se novos investimentos forem anunciados, a leitura será de que a mudança de controle começa a produzir efeitos concretos. Caso contrário, o alerta de João Paulo, dado em uma tarde de junho na sede da Ferj, pode se tornar o símbolo de um ponto de ruptura mais profundo, em que a disputa pelo comando da SAF passa a ameaçar não só a tabela de classificação, mas o próprio projeto de clube-empresa do Botafogo.
