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Presidente do Botafogo minimiza anúncio de venda da SAF e afasta risco ao clube

O presidente do Botafogo associativo, João Paulo Magalhães Lins, minimiza nesta terça-feira (14) o anúncio de venda da SAF do clube feito pela administradora judicial da Eagle Holdings no Financial Times. Em entrevista ao programa Prime Time, da CNN, ele afirma acompanhar de perto a disputa societária e garante que não existe risco de o Botafogo acabar. O dirigente diz manter diálogo constante com John Textor e demais envolvidos para blindar o clube.

Disputa internacional expõe Botafogo em anúncio de classificados

João Paulo fala em tom firme, mas procura reduzir o impacto do anúncio que coloca a SAF do Botafogo e a do Lyon ao lado de carros usados em uma sessão de classificados de um dos jornais mais influentes do mundo. Ele admite o constrangimento de ver o clube exposto dessa forma no exterior, mas descreve o movimento como parte obrigatória de um processo judicial que se desenrola na Justiça inglesa.

Segundo o presidente, o anúncio não nasce de uma decisão isolada de John Textor, mas de um rito imposto ao administrador judicial nomeado para a Eagle Holdings, companhia que controla a SAF alvinegra. “Temos acompanhado atentamente essa briga internacional entre os sócios da Eagle Holdings, a companhia que é acionista do Botafogo”, afirma. “É extremamente desagradável você estar nos classificados da Inglaterra, ‘vendo aqui um carro e vendo aqui o Botafogo, o Lyon’. É uma situação muito chata, mas é parte de um rito que o administrador judicial indicado pela Justiça inglesa tem que fazer para colocar os ativos ‘na rua’.”

O anúncio, publicado em inglês no início de abril, sinaliza ao mercado que participações em clubes como Botafogo e Lyon podem ser negociadas para atender credores da Eagle. O caso envolve litígios entre sócios internacionais, dívidas relevantes e pressão de investidores que buscam recuperar aportes feitos desde 2021, quando Textor inicia sua ofensiva no futebol europeu e brasileiro.

João Paulo explica que essa exposição não significa, automaticamente, uma mudança imediata de controle da SAF botafoguense. O processo na Inglaterra ainda passa por fases de avaliação de propostas, análise de ativos e definição de prioridades de pagamento, o que pode levar meses até qualquer desfecho concreto. O presidente insiste que, nesse período, o foco da associação é garantir que o protocolo contratual seja respeitado e que o clube não perca direitos garantidos em contrato.

Blindagem institucional e diálogo com Textor no centro da estratégia

O dirigente reforça ao longo da entrevista que a associação, hoje dona de uma participação minoritária na SAF, atua como guardiã da história e dos símbolos do Botafogo. Ele descreve uma rotina de reuniões, consultas jurídicas e conversas diretas com Textor e representantes da Eagle para mapear riscos e cenários. “Temos mantido diálogo com todas as partes envolvidas, o dono da SAF do Botafogo, John Textor, com seus sócios, os administradores”, diz. “Estamos falando para tentar entender, já que somos os minoritários e estamos nos deparando com toda essa situação nova, a melhor forma de se portar para a gente garantir a proteção do Botafogo, acima de tudo sempre.”

A preocupação cresce entre torcedores, conselheiros e investidores desde que a crise da Eagle se torna pública, com disputas societárias internacionais vindo à tona e afetando diretamente a capacidade de investimento na SAF. A modelagem original da operação, firmada em 2022, prevê o aporte de centenas de milhões de reais em estágios, atrelados a metas esportivas e financeiras. A instabilidade da holding, porém, pressiona o fluxo de caixa do projeto e coloca em dúvida o ritmo de novos investimentos.

Questionado no ar sobre o risco extremo de o Botafogo deixar de existir, João Paulo rejeita o cenário de forma categórica. “Meu dever é proteger o Botafogo da melhor maneira. Estamos mantendo conversas com o John Textor regularmente. Tem risco de algumas coisas acontecerem. Risco do Botafogo acabar não existe, isso não é caso nem da gente falar isso. O Botafogo é imortal.” A frase mira a angústia de parte da torcida, que associa anúncios de venda da SAF a uma ameaça direta ao clube centenário fundado em 1904.

O presidente também aborda o que considera o ponto de inflexão da crise atual. Ele reconhece os avanços esportivos e estruturais da era Textor, mas critica a expansão simultânea para outros mercados. “O Textor é uma pessoa que fez muito pelo Botafogo. Já tive essa conversa com ele, acho que ele fez uma decisão errada em algum momento de comprar o Lyon, isso gerou um buraco de caixa na empresa dele”, afirma. “Foi uma pena. Virou uma bola de neve e nos atingiu.” A compra do Lyon, anunciada em 2022 por valor estimado em centenas de milhões de euros, pressiona a estrutura financeira do grupo e contribui para a sequência de problemas que hoje respinga em General Severiano.

Mercado atento, torcida em alerta e incertezas no curto prazo

A disputa societária da Eagle, com reflexos diretos na gestão da SAF, desperta atenção de fundos de investimento, bancos credores e grupos interessados em entrar no futebol brasileiro. O anúncio no Financial Times funciona como vitrine e alerta. De um lado, indica possível oportunidade de aquisição de participação em um clube com forte torcida no Rio de Janeiro e presença constante em competições nacionais. De outro, revela um ativo pressionado por litígios, dívidas e instabilidade decisória.

No campo político, a diretoria associativa tenta controlar danos à imagem do Botafogo, preocupado com receita de bilheteria, patrocínios e programas de sócio-torcedor. A percepção de insegurança pode afetar negociações com marcas e parceiros comerciais, em um momento em que o clube busca ampliar receitas recorrentes para reduzir dependência de aportes da SAF. O discurso de João Paulo, ao reforçar que “o Botafogo é imortal” e que não há risco de extinção, procura estabilizar esse ambiente.

O futuro imediato passa por decisões nas cortes inglesas e por eventuais negociações com novos investidores interessados nas ações hoje sob a Eagle Holdings. A associação acompanha o processo com advogados no Brasil e no exterior, enquanto monitora o cumprimento de cláusulas contratuais que preservam nome, escudo, cores e direitos políticos mínimos. Em paralelo, a gestão tenta manter o foco do elenco e da comissão técnica em campo, num calendário que segue com Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e compromissos internacionais.

As próximas semanas apontam para um cenário de alta volatilidade, com possibilidade de entrada de novos sócios na SAF, rearranjo de poderes dentro da estrutura societária e ajustes no planejamento financeiro para os próximos anos. O presidente evita projeções públicas mais ambiciosas, mas insiste na linha de defesa institucional e diálogo permanente com Textor e a Justiça inglesa. A grande incógnita, para torcedores e mercado, é quem estará no comando da SAF quando o processo judicial da Eagle se encerrar e qual será o espaço de manobra do Botafogo associativo nesse novo desenho de poder.

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