PF mira Jaques Wagner e banqueiro em caso Banco Master
Investigação
PF apura suposta compra de influência no Senado envolvendo Banco Master e políticos para alterar regras do FGC.
A Polícia Federal investiga se o banqueiro Daniel Vorcaro, sócio do Banco Master, tenta comprar influência no Senado por meio do líder do governo, Jaques Wagner (PT-BA), entre 2023 e 2026. A apuração mira encontros reservados, uso de avião particular, tentativa de alterar regras do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e suspeitas de propina e lavagem de dinheiro.
Operação atinge líder do governo e expõe Banco Master
O caso ganha peso político e econômico porque atinge o articulador do governo Lula no Senado e um banco em expansão agressiva no mercado de crédito. Se confirmadas as suspeitas, o esquema pode ter distorcido o debate sobre o FGC, que protege pequenos poupadores e sustenta a confiança no sistema bancário.
Em 18 de junho de 2026, a PF cumpre 18 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Brasília e Salvador, na nona fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro André Mendonça, do STF. Endereços ligados a Wagner são vasculhados. Os agentes apreendem US$ 49 mil em espécie e uma coleção de relógios de alto valor.
Os investigadores apuram se Wagner recebeu vantagens indevidas de um grupo empresarial próximo ao Banco Master. Entre os pontos sob análise estão um apartamento de luxo em Salvador, avaliado em R$ 2,5 milhões, supostamente colocado à disposição do senador em 2024, e uma propina de R$ 3,5 milhões, associada a repasses feitos entre 2023 e 2026.
Encontros, avião particular e a emenda do FGC
O núcleo da investigação sobre o Banco Master nasce do celular de Daniel Vorcaro, apreendido pela PF. Mensagens e registros de chamadas mostram que o banqueiro se aproxima de Wagner por meio de Guilherme Henrique Sodré Martins, o “Tio Guiga”, amigo antigo do senador e figura influente em seu círculo familiar.
Sodré é pai de Eduardo Mendonça Sodré Martins, enteado de Wagner. Documentos da PF descrevem Guilherme como “intermediário historicamente vinculado ao senador”. Em 19 de junho de 2024, ele se apresenta a Vorcaro, coloca-se “à disposição” e passa a costurar encontros.
Em 7 de agosto de 2024, Sodré envia uma mensagem cifrada ao banqueiro: pede contato urgente, insiste em sigilo e, depois de uma ligação por aplicativo, orienta um encontro com Wagner em Brasília. “O encontro vai ser hoje em Brasília! Lucas, chefe de gabinete, vai enviar mensagem para acertar detalhes! Abraços e sucesso”, escreve.
Seis dias depois, em 18 de agosto de 2024, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), apontado pela PF como amigo de Vorcaro, apresenta uma emenda que amplia o limite de ressarcimento do FGC. A mudança, segundo os investigadores, beneficia diretamente o Banco Master e outros bancos médios, que poderiam atrair mais depósitos com a promessa de maior proteção ao correntista.
A proposta não prospera. Mas, na avaliação dos investigadores, as conversas apontam tentativa organizada de influenciar o Senado. Véspera da emenda, em 12 de agosto de 2024, Sodré envia ao banqueiro o número pessoal de Wagner, acompanhado de um breve recado: “boa sorte”.
O ex-sócio de Vorcaro, Augusto Lima, também entra em cena. No dia da inclusão da emenda, ele telefona para Wagner e envia o link da proposta. Em outra mensagem, encaminha documentos ao senador e escreve: “Pronto amigo. Seguem os outros dois. Abs”. A PF vê nesse movimento um esforço coordenado para obter apoio explícito do líder do governo à mudança no FGC.
Os diálogos revelam ainda que Vorcaro organiza, em setembro de 2024, o uso de uma aeronave particular vinculada ao Master por Wagner e aliados. O banqueiro define horários e rotas e, segundo relatório policial, dá “orientações expressas de que a operação deveria transcorrer de forma discreta”. A PF investiga se a viagem configura vantagem indevida.
Defesa de Wagner e avanço das suspeitas
Após as buscas, Wagner tenta reduzir o alcance de sua relação com o banqueiro. Em entrevista, afirma que a convivência com Vorcaro é limitada. “Tive com ele duas vezes, uma vez quando entrou de sócio do Augusto Lima para comprar o Credcesta. Outra vez, quando o Augusto Lima pediu uma indicação na área jurídica, eu disse que não tinha pessoa melhor como o ministro Lewandowski”, diz.
O senador insiste que não participou de tratativas espúrias. “Não existiu intermediação e não existe relação”, declara, ao rebater a narrativa de que o amigo Guilherme Sodré faz a ponte com o banqueiro. Em nota, a defesa do petista argumenta que ele não pode ser responsabilizado por “conversas de terceiros”.
Os investigadores, porém, sustentam que as mensagens extraídas do celular de Vorcaro contradizem o discurso público de Wagner. Para a PF, encontros, viagens e a sincronia entre as conversas e a tramitação da emenda ao FGC sugerem um esforço do Banco Master para moldar decisões no Congresso em benefício próprio.
O inquérito apura também a origem e o destino de recursos que circulam entre empresas ligadas a Vorcaro, a Augusto Lima e operadores financeiros próximos ao grupo. Entre as hipóteses estão pagamento de propina, compra disfarçada do apartamento de R$ 2,5 milhões em Salvador e patrocínio de viagens internacionais, com direito a ingressos para shows nos Estados Unidos.
A casa eclética de Brasília e o risco sistêmico
Paralelamente ao eixo baiano, a PF mapeia a atuação de Vorcaro em Brasília. O banqueiro aluga uma mansão na capital onde recebe políticos de campos opostos. Entre os frequentadores estão o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, e o ministro do STF Alexandre de Moraes, hoje alvo central do bolsonarismo.
Ao menos uma das reuniões entre Flávio e Vorcaro ocorre no primeiro semestre de 2025, em encontro reservado, sem outros convidados. A presença de nomes tão distintos reforça, para investigadores e aliados políticos, o caráter eclético da rede de contatos do banqueiro, que transita tanto com o bolsonarismo quanto com o núcleo do governo Lula.
O fio que costura esses episódios é o interesse do Banco Master em ganhar espaço num mercado dominado por grandes instituições. O FGC, criado para proteger depósitos até determinado valor quando um banco quebra, é peça-chave dessa estratégia. Ao elevar o teto das indenizações, a emenda de 2024 tornaria mais atraente aplicar dinheiro em bancos médios, como o Master, sem aumentar na mesma proporção os riscos para o correntista.
Para reguladores e especialistas ouvidos pela PF, uma mudança pontual, costurada em gabinetes e encontros privados, poderia desequilibrar a concorrência, concentrar benefícios em poucos grupos e impor custos maiores ao sistema como um todo. O caso reacende o debate sobre como bancos financiam influência política e colocam sua própria sobrevivência à frente do interesse público.
Pressão sobre o Senado e incerteza para o sistema financeiro
As investigações ainda correm em sigilo, mas já produzem efeitos visíveis. No Congresso, cresce a pressão sobre o governo para explicar o alcance da atuação de Wagner em temas de interesse direto do Banco Master. Adversários falam em Conselho de Ética, enquanto aliados tentam conter danos e insistem que não há prova de contrapartida concreta.
Para o banco e para Vorcaro, o risco é duplo. No plano criminal, o avanço da PF pode levar a indiciamentos por corrupção, tráfico de influência e lavagem de dinheiro. No plano reputacional, a associação do nome do Master a um suposto esquema de compra de decisões legislativas afasta investidores e clientes, num ambiente em que confiança vale tanto quanto capital.
O desfecho também importa para outros bancos de médio porte, que acompanham o caso com discrição. Se a investigação confirmar que a tentativa de alterar o FGC se apoia em vantagens ilícitas, a reação provável é um endurecimento nas regras de transparência sobre a relação entre instituições financeiras e o poder público.
Relatórios internos da PF indicam que novas quebras de sigilo e oitivas de parlamentares, empresários e intermediários financeiros devem ocorrer nos próximos meses. O Supremo acompanha cada passo. Entre a sobrevivência política de Jaques Wagner, o futuro jurídico de Daniel Vorcaro e o equilíbrio do sistema bancário, o inquérito promete testar os limites da relação entre dinheiro e poder em Brasília.
O que o Daniel Vorcaro fez?
Daniel Vorcaro, sócio do Banco Master, é investigado por articular encontros com políticos, oferecer avião particular e, segundo a PF, tentar influenciar emenda que ampliaria o limite de ressarcimento do FGC, em benefício do banco. A apuração também mira supostos repasses irregulares, vantagens indevidas e possíveis crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.
