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PF faz buscas em cobertura onde mora Castro, ligada a ex-secretários

A Polícia Federal cumpre nesta quarta-feira (27) mandados de busca na cobertura onde mora o governador do Rio, Cláudio Castro (PL), em área nobre da cidade. O imóvel pertence a uma empresa controlada por ex-integrantes do governo estadual e é comprado em 2023 por R$ 3,5 milhões. A defesa do governador afirma que ele apenas aluga o apartamento e nega qualquer irregularidade.

Imóvel, ex-secretários e suspeita de conflito de interesses

A operação coloca sob holofotes a relação entre o chefe do Executivo fluminense e ex-secretários que hoje controlam a empresa dona da cobertura. Investigadores querem entender se a aquisição do imóvel, três anos após Castro assumir em definitivo o governo do estado, está ligada a benefícios obtidos na máquina pública. O foco é mapear contratos, nomeações e decisões tomadas na gestão atual que possam ter favorecido o grupo empresarial.

O apartamento, avaliado em R$ 3,5 milhões, é comprado em 2023, em um momento de expansão dos contratos do governo com empresas ligadas a antigos quadros da administração. Documentos analisados pela PF apontam que os sócios têm passagens recentes por cargos de alto escalão, com acesso direto ao gabinete do governador e influência sobre licitações estratégicas. A proximidade política e pessoal alimenta a suspeita de conflito de interesses, ainda que o contrato de locação apresentado por Castro esteja, em tese, formalizado.

Investigadores ouvidos reservadamente afirmam que a presença do governador no imóvel é um elemento relevante do quebra-cabeça, mas não o único. O objetivo é seguir o fluxo de dinheiro que permite a compra da cobertura em 2023 e cruzar esses dados com pagamentos feitos pelo estado a empresas ligadas ao mesmo grupo. A PF busca e-mails, mensagens e registros contábeis que indiquem se a empresa funciona como fachada para operações menos transparentes de ex-secretários que seguem influentes na política fluminense.

A equipe de defesa de Castro tenta conter o dano político desde as primeiras horas da operação. Em nota, advogados do governador afirmam que “o contrato de locação é regular, com valor compatível de mercado, e o governador não tem qualquer ingerência sobre a vida societária da empresa proprietária”. Afirmam ainda que ele “está à disposição das autoridades para esclarecer todos os pontos da investigação”. Até o início da noite, o Palácio Guanabara evita comentar a relação do governador com os ex-integrantes do governo que hoje administram a empresa.

Impacto político e pressão por transparência no governo do Rio

A ação da PF atinge um governo que tenta reforçar a imagem de estabilidade após uma década de crises políticas e escândalos de corrupção no Rio. A revelação de que o governador mora em um imóvel pertencente a uma empresa ligada a ex-secretários reabre o debate sobre fronteiras entre vida privada e função pública. Mesmo que a locação seja regular no papel, a escolha do endereço carrega peso político e simbólico em um estado que viu dois ex-governadores serem afastados por denúncias de desvio de recursos.

O caso ganha ainda mais relevância porque envolve ex-integrantes do próprio círculo de confiança de Castro. Esses personagens deixam o governo, mas mantêm contratos com o estado ou trânsito livre em secretarias estratégicas. A investigação tenta entender se a empresa que compra a cobertura funciona como peça desse tabuleiro, garantindo ao grupo uma relação privilegiada com o titular do Palácio Guanabara. Especialistas em direito administrativo ouvidos pela reportagem lembram que a legislação não proíbe que governantes aluguem imóveis de empresas privadas, mas exige transparência sobre vínculos e potenciais conflitos de interesse.

A reação na Assembleia Legislativa se espalha ao longo do dia. Deputados de oposição falam em “captura do governo por grupos privados” e pedem explicações detalhadas sobre todos os contratos do estado com empresas ligadas aos ex-secretários. Aliados de Castro minimizam o episódio e argumentam que “não há ilegalidade em morar em imóvel alugado de empresa privada”. Mesmo entre governistas, porém, há preocupação com o desgaste de imagem em um ano em que o governo busca aprovar projetos sensíveis, como novos pacotes de concessões e parcerias público-privadas.

A investigação também pressiona órgãos de controle estaduais. Conselheiros do Tribunal de Contas e membros do Ministério Público do Rio acompanham os movimentos da PF e avaliam ampliar apurações já em curso sobre contratos do Executivo. A possibilidade de sobreposição de investigações, vista em outros casos recentes, aumenta a sensação de cerco político em torno do governo. No cenário jurídico, a defesa de Castro tenta antecipar-se e reforça que “não há qualquer benefício indevido” e que os ex-secretários “não exercem hoje função pública que possa ser influenciada pelo governador”.

O que pode vir a seguir na investigação e na política fluminense

Os próximos passos da PF dependem da análise do material apreendido na cobertura e em endereços ligados à empresa proprietária. Relatórios preliminares devem ser enviados ainda nas próximas semanas à Justiça Federal, que decide sobre novas diligências, como quebras de sigilo bancário e fiscal. Se forem identificados vínculos diretos entre decisões de governo e vantagens ao grupo empresarial, o caso pode evoluir para uma denúncia formal por corrupção ou lavagem de dinheiro.

No campo político, adversários de Castro avaliam recorrer à Justiça Eleitoral e à própria Assembleia para cobrar mais detalhes sobre o contrato de locação, valores pagos mensalmente e eventuais contrapartidas. Organizações da sociedade civil que monitoram transparência pública defendem que o governo divulgue, em até 30 dias, uma lista de todos os contratos do estado com empresas que tenham entre seus sócios atuais ou recentes ex-integrantes do primeiro escalão. A pressão é para que casos como o da cobertura não fiquem restritos aos autos de uma investigação federal, mas alimentem uma discussão mais ampla sobre ética, patrimônio e proximidade entre agentes públicos e negócios privados.

O desfecho ainda é incerto. A operação desta quarta-feira não afasta o governador do cargo nem implica, por si só, culpa criminal. O efeito imediato é político: corrói a narrativa de normalidade construída pelo governo e recoloca o Rio na vitrine negativa de investigações envolvendo o topo da hierarquia estadual. A resposta de Castro, a consistência das explicações e a velocidade da PF em apresentar resultados vão definir se o episódio se dilui como mais uma crise passageira ou se marca um novo capítulo na longa disputa entre poder e transparência no estado.

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