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Petro diz que aliados dos EUA na Colômbia são genocidas e narcos

O presidente colombiano Gustavo Petro acusa, nesta quinta-feira 4 de junho de 2026, os aliados dos Estados Unidos na Colômbia de serem “genocidas” e “narcotraficantes”. A declaração, dada em entrevista à agência francesa AFP no Palácio de Nariño, em Bogotá, reage ao apoio de Washington ao ultradireitista Abelardo de la Espriella no segundo turno das eleições presidenciais.

Petro confronta apoio de Washington à ultradireita

Petro entra na entrevista com a AFP decidido a marcar posição. Ao comentar o gesto político dos Estados Unidos, que se alinham formalmente a Abelardo de la Espriella após o primeiro turno de 31 de maio, o presidente descreve o campo adversário como herdeiro direto das máfias armadas que moldam a história recente do país. “Seus aliados na Colômbia vêm do regime narco-paramilitar; são genocidas e narcotraficantes”, afirma o primeiro presidente de esquerda da Colômbia, sentado no gabinete da Casa de Nariño.

O alvo imediato é o advogado milionário Abelardo de la Espriella, favorito após liderar o primeiro turno e superar o candidato apoiado por Petro, o senador Iván Cepeda. Mas o recado vai além de uma disputa eleitoral. Ao falar em “regime narco-paramilitar”, Petro aponta para uma estrutura de poder que, segundo ele, mistura velhas elites políticas, chefes de grupos paramilitares e redes do narcotráfico, amparadas por setores do Estado e tratadas historicamente como parceiras pelos Estados Unidos.

A entrevista ocorre no coração do governo, em um momento de definição. Em menos de três semanas, os colombianos voltam às urnas para escolher o próximo presidente. A intervenção aberta de Washington em favor de um candidato de extrema direita altera o equilíbrio tradicional, baseado em apoios discretos, reuniões reservadas e comunicados neutros. Ao expor esse movimento, Petro vincula diretamente a política externa norte-americana ao que descreve como crimes de massa e negócios ilegais.

Uma disputa pelo sentido da aliança bilateral

A relação entre Bogotá e Washington se apoia, há pelo menos três décadas, na promessa de combate conjunto às drogas e ao crime organizado. Em 2000, o Plano Colômbia canaliza mais de US$ 10 bilhões em ajuda militar e policial ao país ao longo dos anos seguintes. Tropas treinadas, helicópteros de ataque, operações conjuntas e programas de erradicação de plantações de coca definem a agenda bilateral. Petro tenta reescrever essa história.

Desde que assume a Presidência, em agosto de 2022, ele critica a “guerra às drogas” como um fracasso que fortalece cartéis, estimula a violência no campo e alimenta o próprio poder dos grupos paramilitares. Nas últimas semanas, com o avanço de de la Espriella, o presidente intensifica o discurso. Ao dizer que aliados dos Estados Unidos são “genocidas”, ele remete a massacres cometidos por paramilitares nas décadas de 1990 e 2000, períodos em que esses grupos atuam, muitas vezes, em zonas de forte presença militar e sob a lógica de combate à guerrilha.

Ao falar em “narcotraficantes”, Petro atinge um pilar ainda mais sensível. Washington há anos apresenta a Colômbia como exemplo de cooperação antidrogas e comemora quedas pontuais em índices de produção. Em 2023, o Escritório de Política Nacional para Controle de Drogas da Casa Branca registra mais de 230 mil hectares de coca no país. Para o presidente colombiano, a persistência desses números mostra que o problema não está apenas nos camponeses que plantam, mas na teia de proteção política e empresarial em torno do comércio ilegal.

Ao associar essa teia aos “aliados” de Washington, Petro transforma uma disputa interna em teste geopolítico. A campanha de de la Espriella se apresenta como guardiã da ordem, promete mão pesada contra o crime e acusa o governo de leniência com ex-guerrilheiros. Com o apoio explícito dos Estados Unidos, esse discurso ganha musculatura internacional. O presidente responde tentando deslocar o centro moral da discussão: para ele, não é a esquerda no poder que ameaça a democracia, mas a permanência de um pacto silencioso com estruturas armadas que, segundo afirma, “decidiram quem vive e quem morre em regiões inteiras da Colômbia”.

Eleições sob pressão externa e risco de ruptura

O apoio norte-americano a Abelardo de la Espriella rompe a cautela tradicional de Washington em eleições latino-americanas recentes. Ao se alinhar a um candidato que se define como “ultradireitista” e que constrói carreira defendendo figuras ligadas ao velho establishment, os Estados Unidos assumem o risco de serem vistos como parte direta da disputa doméstica. A declaração de Petro, com termos duros e específicos, amplia esse risco e desloca a atenção internacional para a qualidade da democracia colombiana.

Diplomatas ouvidos reservadamente em Bogotá avaliam que o episódio pode congelar iniciativas de cooperação em áreas sensíveis, como segurança de fronteira, inteligência e programas sociais financiados com recursos norte-americanos. Um esfriamento imediato não é inevitável, mas a troca de acusações públicas em 4 de junho marca, ao menos, um rebaixamento no tom de confiança que vinha sendo construído desde a posse de Petro. A reação oficial de Washington ainda não é conhecida, mas tende a cobrar explicações formais e a reiterar o apoio à “defesa da democracia” no país andino.

Internamente, a fala de Petro alimenta a polarização. Eleitores conservadores e setores empresariais veem nas palavras do presidente um ataque frontal a aliados históricos e um gesto que pode prejudicar investimentos estrangeiros. Movimentos sociais, organizações de direitos humanos e lideranças de regiões marcadas pela violência leem na mesma frase um raro reconhecimento, em alto volume, da ligação entre paramilitarismo, política tradicional e negócios ilegais. O conflito de narrativas aprofunda a cisão entre duas visões de futuro para a Colômbia.

O que fica em jogo após a acusação

A poucos dias do segundo turno, a política externa dos Estados Unidos se torna tema central do debate interno. A escolha de Washington por um candidato ultradireitista não apenas reforça de la Espriella, como empurra Petro a se equilibrar entre a defesa da soberania e a necessidade de preservar a cooperação com a maior potência militar do mundo. A acusação de que os “aliados” dos EUA são “genocidas e narcotraficantes” deixa pouco espaço para recuos retóricos sem perda de credibilidade.

A partir de agora, cada gesto entre Bogotá e Washington será lido à luz dessa frase. Uma eventual vitória de Abelardo de la Espriella consolidará a aposta norte-americana e pode significar um giro conservador nas políticas de paz, drogas e direitos humanos, com impacto direto sobre comunidades rurais, lideranças sociais e ex-combatentes. Uma vitória do campo progressista, por outro lado, reforçará a tese de Petro de que a Colômbia precisa se afastar do velho pacto narco-paramilitar e renegociar, em novos termos, sua relação com os Estados Unidos. Resta saber se, após a troca de acusações desta quinta-feira, os dois governos ainda encontram um canal de diálogo capaz de sustentar essa conversa.

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