Peru vive reta final de apuração com Keiko e Sánchez separados por 18 mil votos
A apuração da eleição presidencial do Peru entra na reta final na madrugada deste domingo (14), com o país virtualmente dividido ao meio. Com 98,5% das urnas contadas, Keiko Fujimori aparece com 50,051% dos votos, contra 49,949% de Roberto Sánchez, uma diferença de apenas 18.488 eleitores.
País cansado e desconfiado acompanha disputa voto a voto
O número atualizado pelo órgão eleitoral mantém o país em suspensão depois de quase uma semana de contagem lenta e contestada. A eleição ocorre em meio à mais aguda crise de legitimidade em décadas, com nove presidentes em dez anos e quatro ex-mandatários presos por corrupção. Analistas descrevem um eleitorado exausto, que desconfia das instituições e vota mais por rejeição do que por entusiasmo.
Keiko Fujimori, principal rosto da direita peruana e filha do ex-presidente Alberto Fujimori, chega à sua quarta tentativa de ocupar o Palácio de Governo. Ela faz campanha com discurso de linha dura contra o crime e resgata o legado do pai, que governou nos anos 1990 e morreu cumprindo pena por violações de direitos humanos e corrupção. Roberto Sánchez, herdeiro político do ex-presidente de esquerda Pedro Castillo, preso após tentar fechar o Congresso em 2022, suaviza a proposta econômica para atrair o centro e acalmar o mercado.
A tensão cresce à medida que o mapa da apuração se estreita. Desde a noite de segunda-feira (8), quando Sánchez ultrapassa Keiko pela primeira vez, a liderança muda de mãos e encolhe a cada atualização. Ele chega a abrir cerca de 50 mil votos de vantagem nas primeiras horas daquele dia, com pouco mais de 95% das urnas contabilizadas. Ao longo da semana, a diferença cai para a casa das dezenas de milhares, depois de milhares e, por fim, para algumas centenas de votos.
Na quarta-feira (10), Sánchez ainda lidera com cerca de 31 mil votos à madrugada, com 96,8% das urnas apuradas. À medida que a contagem avança para 97,9%, a vantagem se reduz para algo em torno de 6 mil votos. A virada definitiva vem na quinta (11), quando Keiko passa a aparecer numericamente à frente com margens mínimas, girando entre 561 e pouco mais de 1,6 mil votos, sempre com 98,2% das atas somadas.
Votos do exterior empurram Keiko à frente e alimentam disputa
O cenário muda de forma mais clara na sexta (12) e no sábado (13), quando o foco da apuração se desloca para as atas do exterior e áreas remotas. Às 17h45 de sexta, a diferença era de 21 mil votos a favor de Sánchez, com 94,9% das urnas. Horas depois, já com 95,6% da apuração, a vantagem cai para 26 mil. Na sequência, o quadro se estreita até que, às 15h18 de segunda-feira (8), Sánchez ultrapassa Keiko e inverte o jogo, inaugurando uma disputa milimétrica que se arrasta por dias.
Os votos vindos de fora do país se revelam decisivos na reta final. Às 02h15 deste domingo, 95,1% das urnas no exterior estão apuradas. Keiko aparece com 63,3% dessas atas, enquanto Sánchez acumula 36,6%. Esse desempenho entre peruanos que vivem em outros países ajuda a sustentar a vantagem de 18.488 votos no placar geral, mesmo com um país rachado internamente entre litoral, serra e regiões amazônicas.
A disputa se dá em ambiente carregado de desconfiança. “Esta é uma eleição sem liderança sólida, com grande desconfiança no sistema eleitoral”, avalia o analista político Jeffrey Radzinsky. Segundo ele, “a figura do presidente da República perdeu peso no imaginário coletivo”, o que aprofunda a sensação de vazio institucional. Urpi Torrado, CEO da empresa de pesquisas Datum Internacional, afirma que a dinâmica do voto é marcada pela rejeição. “Grande parte da votação está sendo impulsionada pela rejeição, e não pelo entusiasmo. Muitos peruanos escolhem o que consideram o menos pior”, resume.
A campanha reflete esse clima. Keiko promete reforçar o combate ao crime organizado, blindar a polícia e ampliar o espaço das Forças Armadas no enfrentamento a gangues, em sintonia com o endurecimento observado em outros países da região. Sánchez tenta equilibrar a herança de Castillo, que representou setores rurais e populares, com um discurso de responsabilidade fiscal e respeito a contratos, numa tentativa de evitar fuga de capitais e nova desvalorização do sol peruano.
Governo frágil à vista em país dividido e Congresso fragmentado
Quem vencer herda um país com baixa tolerância a frustrações políticas. Pesquisas recentes indicam que quase metade dos cidadãos não acredita que o próximo presidente completará o mandato de cinco anos. O Congresso segue altamente fragmentado, com dezenas de partidos e alianças frágeis, o que torna frequente o uso de mecanismos de destituição. Nos últimos dez anos, presidentes caem em meio a escândalos, impeachments relâmpago e renúncias sob pressão.
O novo governo precisará lidar com expansão da criminalidade, avanço do narcotráfico em corredores de fronteira e economia que cresce menos do que o esperado. Medidas impopulares para reorganizar gastos públicos, rever subsídios e enfrentar a informalidade podem encontrar um Congresso disposto a bloquear pautas cruciais, seja para enfraquecer o Executivo, seja para negociar vantagens de curto prazo.
O estreitamento da vantagem de Keiko, medido em minutos pelos portais oficiais, já alimenta discursos de contestação. Setores ligados a Sánchez falam em “vigilância permanente” sobre cada ata. Entre fujimoristas, cresce a pressão para que o órgão eleitoral consolide logo o resultado. O histórico recente de protestos massivos, que deixaram mortos e feridos após a queda de Castillo e a posse de Dina Boluarte, serve de lembrete do potencial explosivo do momento.
O impacto ultrapassa as fronteiras. Investidores regionais acompanham o desenrolar da apuração atentos a sinais de ruptura institucional ou radicalização. Governos vizinhos, que convivem com seus próprios ciclos de instabilidade, observam como Lima administra mais um capítulo de sua crise prolongada. O alinhamento do próximo presidente, seja com uma agenda mais à direita, seja com um eixo de esquerda moderada, influencia debates em temas como integração andina, política para a Amazônia e posição do país em fóruns multilaterais.
Resultado incerto alimenta risco de contestação e nova crise
As próximas horas são decisivas. Restam pouco mais de 1,5% das urnas a serem contabilizadas, parte delas em áreas rurais de difícil acesso e em consulados no exterior. Cada atualização pode redesenhar um placar que já oscilou de 50 mil votos de diferença para menos de 600 em diferentes momentos da semana, antes de chegar ao cenário atual de 18.488 votos de vantagem para Keiko.
O órgão eleitoral mantém o discurso de cautela e evita antecipar qualquer proclamação oficial. Fujimori e Sánchez também adotam tom prudente em público, embora suas bases se mobilizem nas ruas e nas redes sociais. O país aguarda não apenas um nome vencedor, mas sinais de que o resultado será aceito por derrotados e vencedores. A dúvida que paira sobre Lima nesta madrugada é se o próximo presidente conseguirá algo raro no Peru recente: governar cinco anos completos sem que o relógio da crise volte a correr contra o Palácio de Governo.
