Peru vive contagem voto a voto com diferença de 4,5 mil votos
A eleição presidencial do Peru entra nesta sexta-feira (data local) em sua fase mais tensa, com 98,327% das urnas apuradas e uma diferença de apenas 4.519 votos entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez. A disputa, aberta desde domingo (7), mantém o país em suspenso e expõe os limites logísticos de um sistema baseado em voto impresso em um território de selvas e montanhas.
Apuração lenta, tensão crescente
Os números atualizados pelo ONPE, órgão responsável pelos processos eleitorais, mostram Keiko Fujimori com 50,012% dos votos, enquanto Roberto Sánchez aparece com 49,988%. A margem, inferior a 0,05 ponto percentual, sustenta um cenário de incerteza que deve se prolongar por dias, possivelmente semanas, segundo projeções internas da própria autoridade eleitoral.
Nas ruas de Lima e de outras grandes cidades, o clima é de espera carregada. Quartéis-generais de campanha monitoram cada atualização da contagem, transmitida em tempo real pela internet. Nas redes sociais, simpatizantes dos dois lados divulgam parciais, contestam tabelas e antecipam batalhas jurídicas. A percepção é de que qualquer voto ainda em trânsito pode alterar o desfecho da disputa presidencial de 2026.
A lentidão não é surpresa para os peruanos. O país depende integralmente do voto em cédulas de papel, que precisam deixar vilarejos isolados em vales andinos e comunidades ribeirinhas na floresta amazônica até chegar a centros regionais de apuração. Em muitas localidades, as urnas viajam de barco, atravessam trilhas a cavalo ou em lombo de burro, sob escolta militar ou policial.
A operação começou logo após o fechamento das urnas no domingo (7), mas ainda enfrenta travessias por rios caudalosos, estradas de terra interrompidas por deslizamentos e pistas de pouso precárias. Cada atraso em um trecho remoto empurra para frente a consolidação do resultado nacional, num país acostumado a disputas apertadas, mas ainda marcado por sucessivas quebras de mandato e presidentes encurtados por crises políticas.
Polarização nas cidades, virada no interior
As primeiras horas de apuração reforçam o padrão conhecido das últimas eleições peruanas. Keiko Fujimori, herdeira do legado conservador de direita do ex-presidente Alberto Fujimori, larga na frente com a contagem das grandes cidades e dos centros urbanos da costa. As pesquisas de boca de urna também indicam vantagem inicial da candidata, reforçada pelos votos da capital e de regiões mais conectadas à economia formal.
À medida que as atas do interior começam a chegar, o quadro se estreita. Roberto Sánchez, nome da esquerda nesta eleição, ganha terreno em províncias rurais, comunidades indígenas e áreas de agricultura familiar, onde o voto costuma se concentrar em candidatos que prometem redistribuição de renda, investimentos sociais e maior presença do Estado. O mapa da apuração, atualizado pelo ONPE, espelha essa divisão entre costa urbana e interior rural.
O avanço de Sánchez a partir da contagem de zonas rurais não é suficiente, porém, para consolidar uma virada estável. A disputa volta a se aproximar de um empate com a entrada dos votos do exterior, em especial de colônias peruanas na América do Norte, na Europa e em partes da Ásia, onde a comunidade expatriada tende a apoiar candidaturas conservadoras. Com 94,495% das urnas do exterior apuradas, Fujimori soma 63,4% dos votos, contra 36,5% de Sánchez.
O efeito desses votos de fora do país é imediato no placar geral. A diferença, que vinha se reduzindo à medida que o interior andino se somava à contagem, volta a favorecer a candidata de direita, reabrindo a discussão sobre qual parcela do eleitorado efetivamente decide a eleição. Analistas em Lima já descrevem a disputa como um “duplo Peru”: o que vota em massa nas metrópoles e o que espera dias para ver sua cédula chegar à capital.
Risco de contestação e impacto regional
A mínima margem entre os dois candidatos alimenta a possibilidade de contestações legais, pedidos de recontagem e protestos de rua. O histórico recente do Peru não ajuda a aliviar o clima. O país alterna governos interrompidos, denúncias de corrupção e choques entre Executivo e Congresso desde meados da década passada. Um resultado tão apertado tende a colocar mais pressão sobre instituições já desgastadas.
Economistas lembram que qualquer sinal de instabilidade prolongada costuma se refletir na confiança de investidores e no câmbio. Um governo questionado desde o primeiro dia, independentemente de ser liderado por Fujimori ou Sánchez, enfrenta mais dificuldade para aprovar reformas, definir prioridades orçamentárias e negociar com governadores regionais. Empresas de mineração, construção e energia, setores centrais da economia peruana, observam a disputa voto a voto com atenção redobrada.
No plano externo, chancelerias sul-americanas acompanham a apuração com cautela. Uma vitória da direita tende a aproximar Lima de governos conservadores da região e de agendas econômicas mais pró-mercado. Um triunfo de Sánchez reposiciona o Peru no bloco de países governados por líderes de esquerda, com impacto em debates sobre integração regional, políticas ambientais na Amazônia e alinhamentos em fóruns multilaterais.
A demora na proclamação final reforça ainda um debate mais amplo sobre a adequação de sistemas eleitorais baseados em voto exclusivamente impresso em países de geografia complexa. Especialistas em direito eleitoral defendem combinar cédulas físicas com mecanismos de transmissão digital segura dos resultados de cada mesa, reduzindo o peso logístico do transporte das urnas. No Peru, qualquer mudança desse tipo exigiria reforma legal e amplo consenso político, algo raro na cena atual.
Sem data para o desfecho
O ONPE evita cravar um prazo definitivo para o anúncio do resultado final. Técnicos admitem, em conversas reservadas, que a conclusão formal da apuração pode levar semanas, sobretudo se houver impugnações de atas, recursos em série ou denúncias de irregularidades locais. Cada contestação abre uma nova frente de análise jurídica e recálculo, o que prolonga a incerteza política.
Keiko Fujimori e Roberto Sánchez orientam suas campanhas a manter vigília permanente nos centros de apuração e em tribunais eleitorais. Equipes jurídicas já se mobilizam para contestar eventuais mesas suspeitas e defender votos considerados decisivos em regiões-chave. A disputa que começou nas urnas se transfere, aos poucos, para salas de audiência e reuniões a portas fechadas em Lima.
O país, nesse meio-tempo, segue dividido e em suspenso, com um presidente ainda indefinido e uma agenda urgente de problemas econômicos e sociais em espera. A pergunta que se coloca, enquanto barcos e burros ainda transportam cédulas por rios e trilhas, é se o próximo governo conseguirá romper o ciclo de crises antes que a próxima eleição comece a ser disputada.
