Papa Leão XIV critica tratamento a imigrantes: “pior que o dado a pets”
O papa Leão XIV faz nesta quinta-feira (23), em evento internacional sobre a crise dos refugiados, sua crítica mais dura às políticas de imigração em vigor. O pontífice afirma que muitos governos tratam imigrantes de forma “menos humana do que tratam seus animais de estimação” e cobra mudanças imediatas.
Pontífice mira políticas de linha-dura e desumanização
Diante de representantes de mais de 50 países e organismos multilaterais, Leão XIV descreve o cenário atual como “uma falência moral coletiva”. Ele aponta em especial leis aprovadas nos últimos cinco anos em nações da Europa, da América do Norte e da Oceãnia que restringem pedidos de asilo, permitem detenções prolongadas e ampliam deportações sumárias.
O papa lembra que, em 2025, o número de pessoas deslocadas à força no mundo ultrapassa 120 milhões, segundo a ONU, crescimento de quase 50% em uma década. “Sabemos contar fronteiras, mas não sabemos contar vidas”, diz, em discurso transmitido ao vivo em vários fusos horários. “Há crianças que dormem em contêineres metálicos, enquanto em muitas casas há camas, cobertores e comida reservados a cães e gatos. Não se trata de criticar o amor pelos animais, mas de denunciar o desprezo pelas pessoas.”
A fala se insere em uma série de intervenções públicas do pontífice sobre migração desde o início de seu papado, há pouco mais de três anos. Desta vez, porém, a comparação direta com animais de estimação ganha contornos de ruptura com o vocabulário diplomático habitual da Santa Sé. Assessores admitem reservadamente que o texto é revisado até a véspera para soar “inconfundível” em meio a comunicados técnicos e declarações protocolares.
Leão XIV menciona, sem citar países, centros de detenção em ilhas isoladas, campos sobrelotados na fronteira de zonas de guerra e deportações em massa organizadas em menos de 48 horas. “Quando uma família é tratada como ameaça estatística, perdeu-se a noção de humanidade”, afirma. Em outro trecho, questiona: “Como justificar orçamentos bilionários em muros e cercas, enquanto cortamos verbas para integração e acolhida?”
Pressão internacional por revisão de políticas
A crítica do papa recai sobre medidas de linha-dura que ganham força desde 2016, impulsionadas por crises políticas internas e pelo avanço de discursos nacionalistas. Leão XIV argumenta que a combinação de vistos mais restritos, terceirização do controle de fronteiras e criminalização de rotas migratórias empurra pessoas desesperadas para redes de tráfico e travessias cada vez mais letais. Em 2025, mais de 8 mil migrantes morrem em rotas marítimas e terrestres, segundo dados de organizações independentes.
Na plateia, diplomatas tomam notas enquanto o pontífice afirma que “nenhuma estatística de segurança justifica humilhar um ser humano”. Ele propõe que, até 2030, os países que compõem o G20 destinem pelo menos 0,7% do PIB a programas de acolhida, reassentamento e integração de refugiados e migrantes vulneráveis. Também pede que, em até dois anos, sejam revistos acordos que permitem a detenção de famílias e crianças por tempo indeterminado.
A comparação com animais domésticos ecoa entre organizações de defesa de direitos humanos, que veem na fala uma síntese da assimetria atual. Em muitas cidades, gastos anuais com o mercado pet superam, com folga, os orçamentos dedicados a abrigos para refugiados. Em 2024, o setor de produtos e serviços para animais de estimação movimenta mais de US$ 250 bilhões no mundo, enquanto o financiamento humanitário para crises migratórias fica abaixo de 60% do necessário, segundo estimativas da ONU.
Governos com políticas mais rígidas reagem com cautela. Integrantes de ao menos três delegações consultadas se limitam a dizer que “levam em conta” a posição do Vaticano, mas reiteram que “cada país tem o direito de proteger suas fronteiras”. Aliados de Leão XIV lembram que o pontífice não questiona a soberania, e sim a forma como ela é exercida. “O papa não está pedindo fronteiras abertas”, afirma um cardeal próximo. “Ele está dizendo que nenhuma fronteira justifica a perda deliberada de compaixão.”
Disputa política e próximos passos da Igreja
A intervenção de Leão XIV ocorre em um momento em que parlamentos discutem novos pacotes de segurança migratória, alguns com prazo para votação já no segundo semestre de 2026. Parlamentares conservadores usam o aumento de pedidos de asilo, que cresce mais de 30% em certos países entre 2020 e 2025, como argumento para endurecer leis. A fala do papa, ao expor o custo humano dessas medidas, tenta deslocar o eixo do debate para a proteção de direitos fundamentais.
A Santa Sé indica que não ficará apenas na denúncia. Documentos preparatórios em discussão em Roma preveem, para os próximos 12 meses, missões em regiões de fronteira, encontros com chefes de Estado e uma campanha global de paróquias e comunidades para acolher famílias deslocadas. A ideia é que, até 2028, dioceses em todos os continentes tenham programas estruturados de apoio jurídico, aprendizado de idioma e inserção no mercado de trabalho para imigrantes.
Líderes católicos em países com forte oposição à migração se veem pressionados a se posicionar. Alguns já indicam, em declarações públicas, desconforto com o tom direto de Leão XIV. Outros abraçam a mensagem e falam em “momento de conversão” para sociedades que se acostumam a ver resgates no mar e campos lotados como paisagem permanente. A reação interna à Igreja tende a influenciar quanto peso a crítica terá na política doméstica de cada país.
Leão XIV encerra o discurso com um apelo que resume a tensão entre ética e cálculo eleitoral. “Um dia, os livros de história dirão o que fizemos com quem bateu à nossa porta”, afirma. A pergunta, agora, é se governos dispostos a ampliar muros e portões sentirão o efeito político de uma comparação que coloca o destino de milhões de pessoas abaixo do cuidado dedicado aos próprios animais de companhia.
