Papa Leão XIV cobra vias seguras para migrantes nas Ilhas Canárias
O Papa Leão XIV encerra nesta quinta-feira (11) a visita à Espanha com um recado direto sobre a crise migratória. Em evento nas Ilhas Canárias, ele afirma que “a história julgará” líderes que ignoram mortes no Atlântico e pede vias legais e seguras para a imigração.
Pontífice escolhe fronteira marítima como palco do alerta
O discurso ocorre no último dia da passagem do pontífice pela Espanha, em 2026, e transforma o arquipélago em vitrine de uma cobrança global. As ilhas, a mais de mil quilômetros do continente europeu, recebem 46.843 migrantes irregulares em 2024, contra menos de mil em 2015, segundo dados oficiais. A rota pelo Atlântico se consolida como uma das mais letais do mundo.
Leão XIV sobe ao palco diante de migrantes, voluntários e lideranças religiosas e políticas. Ele olha para o mar e lembra que “de certa forma, todos nós somos migrantes”. A frase funciona como fio condutor de uma fala que mistura teologia, política e estatística. “Não basta gerenciar as chegadas, divulgar estatísticas, reforçar as fronteiras ou lamentar as mortes depois que elas já ocorreram”, afirma.
O cenário ilustra a acusação. De acordo com a ONG Caminando Fronteras, mais de 3 mil pessoas morrem em 2025 tentando alcançar as ilhas em barcos improvisados, superlotados e sem equipamentos de segurança. São travessias noturnas, feitas às pressas, que transformam a faixa de oceano entre a África e a Espanha em corredor de desaparecidos.
Antes de chegar às Canárias, o papa passa por Madri e Barcelona. Em Barcelona, abençoa a torre da Sagrada Família, agora concluída, em uma cerimônia para milhares de fiéis. Em Madri, reúne cerca de 70 mil pessoas em um estádio e endurece o tom contra a “indiferença organizada” diante das mortes de civis em guerras e do avanço da fome. A parada final no arquipélago desloca esse foco para quem foge dessas mesmas crises.
Migrantes ganham voz e expõem custo humano da travessia
O momento mais silencioso do evento ocorre quando o nigeriano Bousso Diouf toma o microfone. Ele atravessa o Atlântico em uma embarcação de madeira com dezenas de pessoas. Fala pausadamente, em espanhol, com sotaque marcado. “Ninguém abandona sua terra, sua família e suas raízes de livre e espontânea vontade quando pode viver em paz”, diz. O público acompanha em pé.
Diouf descreve noites sem sono, motores falhando, água entrando pelo casco e o medo constante de não ver terra firme. “Deixamos para trás nossas memórias, nossos entes queridos e uma parte de nossos corações, na esperança de encontrar uma vida melhor”, continua. O papa o escuta de frente, mãos cruzadas, sem interromper. A organização calcula centenas de histórias semelhantes apenas no último ano.
O pontífice responde em seguida e liga o testemunho individual a um fracasso coletivo. Na segunda-feira (8), ele já havia dito ao Parlamento espanhol que a omissão diante dos migrantes desafia “os fundamentos éticos da ordem internacional”. Nesta quinta, nas ilhas, ele amplia o alvo. Pede “vias legais e seguras” para a imigração e cobra cooperação internacional no combate ao tráfico de pessoas e no financiamento de operações de resgate.
Leão XIV insiste que a crise não se resolve apenas com polícia e muros. “O mundo precisa fazer mais para erradicar a pobreza, as guerras e a corrupção que forçam os migrantes a fugir de suas casas”, afirma. O recado atinge governos que endurecem fronteiras sem investir nas causas de fundo. Também pressiona países ricos a reverem cortes em programas de ajuda externa e acolhimento.
Entre as organizações que atuam nas ilhas, a leitura é de que o gesto tem peso político. Juan Carlos Lorenzo, coordenador da Comissão Espanhola para Refugiados nas Ilhas Canárias, chama a visita de “marco significativo”. Para ele, a presença do papa “servirá como uma forte afirmação da defesa dos direitos humanos, do respeito e da dignidade que todas as pessoas merecem, independentemente de sua origem”.
Europa dividida entre acolhimento e fechamento de fronteiras
A escolha das Canárias expõe uma tensão que atravessa a política europeia. A Espanha mantém uma postura mais aberta que a de vizinhos como Itália e Grécia. O governo implementa um programa para conceder residência a mais de 500 mil pessoas em situação irregular. A medida reduz o risco de trabalho escravo, amplia a arrecadação e tira milhares de imigrantes da clandestinidade burocrática.
O processo, porém, anda devagar. Filas se arrastam por meses, às vezes por anos, em escritórios de imigração e delegacias. Organizações relatam pessoas vivendo em abrigos lotados, sem autorização para trabalhar, dependentes de ajuda pública. Na prática, a regularização prometida pelo governo convive com um limbo legal que afeta o acesso a saúde, educação e moradia digna.
Líderes da ultradireita espanhola exploram essa frustração. Eles acusam o programa de ser um “incentivo” à migração irregular, afirmam que o país não aguenta mais pessoas e vinculam aumentos de criminalidade à chegada de estrangeiros, sem apresentar dados consistentes. A narrativa encontra eco em parte do eleitorado, pressiona o governo e ecoa no Parlamento Europeu, onde avançam propostas para endurecer deportações.
Ao falar em “história que condena” e em responsabilidade compartilhada, Leão XIV entra nesse debate. Sem mencionar partidos, ele confronta a ideia de que a solução está apenas em barreiras mais altas. Ao mesmo tempo, reforça o argumento de que não basta abrir portas sem investir em integração, emprego formal e políticas urbanas capazes de absorver novas ondas de chegada.
Especialistas em migração lembram que a pressão sobre rotas como a das Canárias tende a crescer se conflitos na região do Sahel, crises políticas no oeste africano e choques climáticos se mantiverem no ritmo atual. A falta de canais legais empurra mais gente para esquemas de tráfico que operam entre desertos e mar, com lucratividade semelhante à do contrabando de drogas.
Ao fim da visita, apelo por ação global concreta
O papa deixa a Espanha com uma agenda clara. Ele quer que países estabeleçam cotas transparentes de acolhimento, invistam em operações permanentes de busca e salvamento no Atlântico e coordenem políticas de desenvolvimento em regiões de origem dos migrantes. Pede ainda uma espécie de “pacto ético” para que nenhuma embarcação em perigo fique sem resposta por razões políticas.
Diplomatas europeus avaliam, em reservado, que a fala pode fortalecer setores favoráveis a uma reforma do pacto migratório da União Europeia. Mesmo assim, reconhecem que a resistência de governos alinhados a plataformas anti-imigração deve manter o debate travado no curto prazo. A incógnita é se a pressão da opinião pública, alimentada por episódios como o desta semana nas Canárias, será suficiente para destravar novos compromissos.
Nas ilhas, organizações locais prometem usar o efeito simbólico da visita para cobrar prazos e metas do governo espanhol. Querem estruturas de acolhimento mais estáveis, reforço orçamentário e um calendário claro de regularizações. Enquanto isso, barcos continuam a sair de costas africanas em direção ao norte, muitas vezes na calada da noite. A pergunta que fica, depois da passagem de Leão XIV, é quanto tempo o mundo ainda tolera que essa travessia siga sendo, para tantos, uma escolha entre arriscar tudo e não ter futuro algum.
