Palmeiras goleia Junior por 4 a 1, mas avança em 2º na Libertadores
O Palmeiras goleia o Junior Barranquilla por 4 a 1, nesta quinta (28), em jogo de ataques variados e noite especial de Flaco López, mas termina o grupo em segundo lugar na Libertadores de 2026.
Orquestra no ataque, ruídos na defesa
O roteiro da noite se define logo aos 5 minutos do primeiro tempo. O Junior tenta pressionar alto, marca individualmente, abre espaços. O Palmeiras escapa com um toque rápido, encontra Flaco López no meio, e o argentino conduz o contra-ataque que desmonta a defesa colombiana. A jogada termina em gol, primeiro sinal de que o time de Abel Ferreira encontra um caminho claro para a goleada.
A partir dali, o jogo se torna um catálogo de soluções ofensivas. O Palmeiras acelera por dentro, ataca pelos lados, troca passes curtos na entrada da área e alterna construções lentas com arrancadas em velocidade. Flaco López, convocado para a Copa do Mundo cerca de meia hora antes do apito inicial, reage como quem recebe um ultimato e não um prêmio. Desarma, volta até o meio-campo, organiza saídas, puxa contra-ataques, distribui dois passes para gol e participa diretamente do lance em que Allan deixa o dele.
O Junior insiste na marcação agressiva, mas se perde nos duelos individuais. Jhon Arias, faminto por protagonismo, encontra corredores entre as linhas adversárias e participa da maioria das chegadas perigosas. Allan pisa na área, pressiona a saída colombiana e se beneficia do volume de jogo alviverde. Emi Martínez e Giay, firmes nas laterais, sustentam a amplitude e permitem que o time ataque com cinco ou seis jogadores em bloco.
O placar elástico nasce dessa diversidade. Um gol sai em contra-ataque, outro em construção paciente no campo ofensivo, com tabelas curtas e inversões de lado. A goleada se fecha com o chute de fora da área de Andreas Pereira, que arrisca de média distância e transforma o 3 a 1 em 4 a 1, já no segundo tempo. Em 90 minutos, o Palmeiras mostra que sabe chegar ao gol de todas as maneiras que um time adulto precisa dominar em mata-mata continental.
A noite, porém, não é perfeita. O lado esquerdo da defesa sofre desde o início. O Junior encontra ali seu melhor atalho e aproveita um erro de cobertura para marcar o gol colombiano. Em outro lance, um pênalti é assinalado, mas o VAR intervém e anula a decisão de campo, mantendo o controle do placar nas mãos do time brasileiro. Muriel ainda acerta a trave em chute de fora, em rara escapada solitária dos visitantes. A sensação é clara: o Palmeiras encanta na frente, mas ainda se expõe atrás.
Melhor atuação em casa, mas sem prêmio máximo
O torcedor que ocupa as arquibancadas vê, possivelmente, a atuação mais espetacular do Palmeiras em casa nesta edição da Libertadores. O time joga solto, cria com naturalidade e transforma o segundo tempo em exibição. Cada toque de Flaco López parece carregar a euforia da convocação recebida minutos antes, como se ele precisasse comprovar, lance a lance, que merece o bilhete para o Mundial.
Abel Ferreira acompanha tudo à beira do campo, gesticulando mais para corrigir os espaços às costas da defesa do que para pedir ousadia no ataque. O técnico sabe que, em torneio de mata-mata, brilhar com a bola não basta. A própria partida oferece o alerta: o gol sofrido, o pênalti anulado pelo vídeo e a bola na trave mostram que o Junior, mesmo dominado, encontra brechas para ameaçar.
A vitória por 4 a 1 parece suficiente, em qualquer cenário normal, para coroar a melhor equipe da chave. Mas a noite em Assunção trata de colocar o Palmeiras no lugar de perseguidor. O Cerro Porteño vence o Sporting Cristal, em casa, e garante a liderança do grupo. O Palmeiras fecha a fase com uma goleada convincente, mas fica com o segundo lugar e perde o direito de decidir em casa nas oitavas de final.
O contraste é forte. Dentro de campo, os números impressionam: quatro gols, ao menos três chances claras desperdiçadas, um controle territorial que beira os 70% de presença ofensiva em certos períodos da partida. Na tabela, porém, o atraso na arrancada da fase de grupos cobra seu preço. O Palmeiras não tropeça nesta quinta, mas paga pelos pontos perdidos antes de encontrar essa versão mais agressiva e criativa do time.
O desempenho deixa lições diferentes para cada setor. No ataque, a mensagem é de confiança. Flaco López se firma como protagonista, Andreas mostra que pode decidir de fora da área, Allan cresce em jogos grandes, Arias transforma esforço em clareza. Na defesa, a preocupação é objetiva. A marcação pelo lado esquerdo falha mais de uma vez, as coberturas internas chegam atrasadas e o espaço entre volantes e zaga continua maior do que Abel gostaria.
Oitavas no horizonte e a urgência por equilíbrio
A goleada desta quinta muda o humor do vestiário, mas não altera a matemática do torneio. O Palmeiras entra nas oitavas de final como segundo colocado de sua chave, obrigado a decidir fora de casa. Em um calendário comprimido pela Copa do Mundo, com datas entre julho e agosto ainda em ajuste, cada detalhe de logística vira combustível para vantagem esportiva. O time de Abel passa a conviver com viagens mais longas, ambientes hostis e gramados menos familiares na fase decisiva.
A atuação ofensiva, por outro lado, mexe com a percepção dos rivais. Um time que goleia por 4 a 1, com gols de contra-ataque, construção trabalhada e chute de longe, envia um recado técnico claro ao continente. Qualquer adversário que enfrente o Palmeiras nas oitavas sabe que não basta fechar a área. É preciso resistir a um repertório amplo, que inclui velocidade em transição, infiltrações por dentro e finalizações de média distância.
A chave da campanha, a partir de agora, está no ajuste defensivo. Abel Ferreira tem pouco tempo para reduzir os espaços pelo lado esquerdo, sincronizar coberturas e diminuir o número de finalizações permitidas. O jogo contra o Junior funciona como vitrine do potencial e, ao mesmo tempo, como dossiê dos problemas. O VAR salva um pênalti, a trave evita outro gol, mas oitavas de final raramente oferecem tanta margem para erro.
O torcedor sai do estádio dividido entre a euforia da goleada e a pergunta incômoda: este time, do meio para frente irresistível, resiste ao teste mais duro que se aproxima? A Libertadores costuma cobrar caro de quem privilegia apenas um lado do campo. O Palmeiras chega às oitavas com moral em alta, artilheiro em noite de Copa do Mundo e ataque em estado de graça. A campanha, porém, só ganha contornos históricos se a defesa acompanhar o ritmo da orquestra.
