Esposa de chefe do Comando Vermelho é presa em megaoperação no Rio
A Polícia Civil prende nesta quinta-feira (29) Raquel Neves dos Santos Mendonça, mulher de Antônio Ilário Ferreira, o Rabicó, apontado como chefe do Comando Vermelho. A detenção ocorre em uma megaoperação contra um esquema de lavagem de dinheiro que usa empresas de reciclagem e sucatas para movimentar milhões de reais da facção. A ação se espalha por cidades do Rio e de outros cinco estados.
Rede financeira do CV mira empresas de reciclagem
Delegados e investigadores passam meses rastreando depósitos fracionados, notas fiscais suspeitas e transferências em cadeia entre empresas do ramo de sucatas. As apurações mostram que a organização transforma toneladas de material reciclável em fachada para mascarar dinheiro vindo do tráfico de drogas. A prisão de Raquel marca um novo passo na estratégia de atingir o núcleo financeiro do Comando Vermelho, não apenas seus braços armados.
As ordens são expedidas pela 1ª Vara Criminal Especializada em Organização Criminosa do Rio e somam 162 medidas judiciais. São 55 mandados de prisão preventiva e 107 de busca e apreensão em endereços ligados ao grupo. Os alvos se espalham por bairros da capital fluminense e por cidades como São Gonçalo, Duque de Caxias, Itaboraí, Iguaba Grande, Armação dos Búzios e São João de Meriti. Equipes também atuam em São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Maranhão, o que revela a capilaridade do esquema.
Rabicó, preso e já conhecido dos órgãos de segurança, surge nas trocas de mensagens interceptadas como peça central da engrenagem, segundo policiais ouvidos sob reserva. Ele é descrito nos autos como “principal operador financeiro” do Comando Vermelho. De acordo com a investigação, cabe a ele organizar empresas de fachada, coordenar movimentações bancárias e usar terceiros para ocultar patrimônio e lucros ilícitos.
Os relatórios apontam que empresas de reciclagem e comércio de sucatas fazem transferências milionárias para contas ligadas diretamente a Rabicó e a empresas controladas por ele. As cifras exatas ainda não vêm a público, mas investigadores falam em volume “de dezenas de milhões de reais” ao longo de anos. A estratégia replica, em escala local, modelos de lavagem já vistos em outros setores, como combustíveis e transporte de cargas.
Como funciona o esquema de lavagem e o que muda com a operação
O dinheiro do tráfico entra no sistema por meio de depósitos em espécie, sempre em valores fracionados, abaixo de limites que costumam acender alertas bancários. Essas quantias seguem para contas de passagem em nome de laranjas e, em seguida, para empresas de reciclagem e ferros-velhos ligadas à facção. A emissão de notas fiscais falsas dá aparência de legalidade ao fluxo. No papel, o que parece lucro de sucata é, na verdade, faturamento do crime.
Relatórios de Inteligência Financeira, cruzamento de dados bancários e a quebra de sigilos fiscal, telefônico e telemático ajudam a compor o mapa dessa engrenagem. Investigações de campo identificam, ainda, áreas usadas para queima clandestina de cabos de cobre e depósitos de materiais de origem suspeita. Esses locais funcionam como elo entre o furto de metais, a receptação qualificada e a lavagem de recursos. A pulverização do dinheiro em diversas contas espalhadas pelo país tenta embaralhar o rastro para dificultar o trabalho dos analistas.
Ao mirar a esposa de Rabicó e pessoas do círculo familiar e empresarial da cúpula do CV, a operação atinge um ponto sensível da facção. O foco deixa de ser apenas o varejo da droga e passa a atingir o caixa central, responsável por abastecer compras de armas, financiamento de fuzis, pagamento de olheiros e reforço da presença da facção em comunidades. Na avaliação de investigadores, cada empresa bloqueada, conta fechada ou bem apreendido representa menos fôlego para a manutenção dessa estrutura.
Especialistas em segurança pública ouvidos pela reportagem afirmam que o Brasil reage com atraso à profissionalização financeira das facções. Um professor de direito penal que acompanha o tema lembra que “o país sempre combateu o crime organizado pela ponta da arma, não pelo extrato bancário”. A recente decisão dos Estados Unidos de classificar Comando Vermelho e PCC como organizações terroristas expõe, segundo ele, “a diferença entre nosso modelo de repressão e o modelo americano, centrado em sufocar o fluxo de dinheiro”.
Pressão sobre o crime organizado e próximos passos
A ofensiva desta quinta-feira tende a abrir novas frentes de investigação. A análise do material apreendido em computadores, celulares e documentos deve revelar novas empresas de fachada, laranjas ainda desconhecidos e rotas alternativas de lavagem. Delegados dizem, em caráter reservado, que a estimativa é de desdobramentos ao longo de meses, com pedidos adicionais de prisão e bloqueio de bens em diferentes estados.
O impacto imediato recai sobre o ecossistema de negócios que serve de escudo para o dinheiro do crime. Empresas de reciclagem e comércio de sucatas entram no radar com força renovada, o que pode aumentar a fiscalização setorial e endurecer exigências de comprovação de origem do material negociado. Advogados que atuam na área criminal preveem também mais atenção de bancos e órgãos de controle a depósitos em espécie e clientes com perfil semelhante ao identificado na investigação.
Para as comunidades onde o Comando Vermelho exerce influência, o efeito é menos imediato, mas potencialmente profundo. A redução da capacidade de investimento da facção pode se traduzir, no médio prazo, em menos poder de cooptação, compra de territórios e armamento pesado. A experiência internacional mostra, porém, que grandes organizações criminosas tendem a buscar rapidamente novas brechas regulatórias e novos setores para substituir canais bloqueados.
A operação que leva à prisão de Raquel Neves dos Santos Mendonça sinaliza uma mudança de foco no combate ao crime organizado no país, com atenção maior à engenharia financeira das facções. O sucesso dessa estratégia depende de continuidade, troca de informações entre estados e coordenação estreita com órgãos de controle e parceiros estrangeiros. A principal dúvida, agora, é se o cerco ao dinheiro do CV será pontual ou se marca, de fato, o início de uma política duradoura de sufocamento econômico das facções.
