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ONU prevê novos recordes de calor até 2030 e alerta para custo humano

A Organização das Nações Unidas prevê que, entre 2026 e 2030, pelo menos um ano quebre o recorde histórico de temperatura global estabelecido em 2024. O alerta vem em meio à onda de calor que faz de maio de 2026 o maio mais quente já registrado na Europa, com termômetros acima de 34 °C em diversas cidades. Especialistas apontam a crise climática e a dependência de combustíveis fósseis como motores de uma década marcada por extremos.

Europa vira laboratório de um clima que já mudou

No continente europeu, o novo normal chega antes do verão. Em cidades da Suíça, celulares desligam por superaquecimento em plena transmissão ao vivo, sob temperaturas que passam de 34 °C em maio. Em países acostumados a primaveras amenas, a experiência cotidiana se aproxima de um verão tropical que se estende, mais longo e mais intenso.

O informe divulgado nesta quinta-feira, 28 de maio de 2026, pela agência climática da ONU, consolida em números o que milhões de pessoas sentem na pele. Segundo o levantamento, os onze anos mais quentes da história ocorrem a partir de 2015, numa sequência que transforma recorde em rotina estatística. A mensagem é direta: a janela entre 2026 e 2030 tende a consolidar novos picos de calor, em linha com o aquecimento provocado pela queima de carvão, petróleo e gás.

Na França, a primavera abandona qualquer aparência de meia-estação. Na segunda-feira, os termômetros chegam a 36 °C, e a terça se torna o dia de maio mais quente já registrado no país. A Météo-France calcula que as temperaturas ficam entre 10 °C e 15 °C acima da média para esta época do ano. Paris ultrapassa os 30 °C já no sábado, com 31,9 °C registrados na capital.

O calor cobra um preço imediato. No domingo, um homem morre durante uma prova de 10 quilômetros em Paris, caso que ainda passa por investigação para determinar se a temperatura extrema teve papel direto. Em Lyon, uma mulher sofre insolação fatal após corrida competitiva. No total, sete pessoas morrem em episódios associados ao calor. Para o meteorologista Adrien Warnan, da Météo-France, os números não deixam dúvidas: as temperaturas são “completamente sem precedentes e históricas” para maio.

A onda de calor avança sobre o continente e redesenha rotinas. Em regiões da Alemanha, autoridades pedem que moradores evitem regar jardins e encher piscinas, numa tentativa de poupar água diante da combinação de calor e solo seco. Na Itália, cidades proíbem trabalhos ao ar livre nas horas mais quentes do dia, para conter riscos de desmaios e doenças relacionadas ao calor em canteiros de obras e lavouras.

Recordes sucessivos expõem custo humano e econômico

Na Península Ibérica, a primavera já fala com sotaque de verão. Na Espanha, as noites deixam de refrescar e mantêm temperaturas típicas de julho e agosto. A previsão indica que o país deve registrar o pico da onda de calor no fim desta semana, com algumas regiões a caminho dos 40 °C, um mês antes do início oficial do verão. Em Portugal, o governo intensifica o monitoramento de incêndios e teme que focos isolados se transformem rapidamente em grandes frentes de fogo.

Na outra ponta do continente, o Reino Unido descobre que o sistema de infraestrutura não acompanha o novo clima. Londres registra 35,1 °C na terça-feira, muito acima do antigo recorde para maio, de 1944. Na Irlanda, a quebra de recordes vem com folga de mais de 2 °C, num salto estatístico raro em séries históricas de temperatura. Um relatório do Comitê de Mudanças Climáticas britânico, divulgado na semana passada, resume a situação: o país foi “construído para um clima que não existe mais”.

A ONU conecta esses eventos isolados a uma fotografia mais ampla. Entre 2015 e 2025, a frequência de dias com mais de 30 °C mais do que triplica em relação à média de 1961 a 1990 em partes da Europa. Esse aumento pressiona sistemas de saúde, redes elétricas e cadeias de abastecimento. Hospitais recebem mais pacientes com desidratação e exaustão térmica. Condomínios e escritórios recorrem com mais intensidade ao ar-condicionado, elevando o consumo de energia num ciclo que, se baseado em combustíveis fósseis, realimenta as emissões de gases de efeito estufa.

Para Simon Stiell, secretário-executivo da agência climática da ONU, a fotografia deste maio europeu funciona como aviso em tempo real. “Esta última onda de calor na Europa é um lembrete brutal dos impactos crescentes da crise climática, tanto humanos quanto econômicos”, afirma. Ele não poupa o diagnóstico sobre as causas: “O principal culpado é o vício mundial em queimar carvão, petróleo e gás, e destruir florestas”.

O alerta inclui a dimensão geopolítica. Stiell descreve a atual onda de calor como um “duplo risco”, ao coincidir com a escalada da guerra no Oriente Médio e o prolongado bloqueio no Estreito de Ormuz. A rota concentra boa parte das exportações de petróleo e gás. A interrupção eleva preços, alimenta inflação e expõe o custo da dependência de combustíveis fósseis em um mundo já pressionado pelo aquecimento global.

Mundo corre contra o tempo diante de década decisiva

O informe da ONU não detalha apenas o que já acontece. Ele projeta um futuro próximo em que novos recordes se tornam quase inevitáveis se as emissões seguirem no ritmo atual. Entre 2026 e 2030, a probabilidade de que pelo menos um ano quebre o recorde global de 2024 é considerada elevada pelos especialistas que assinam o documento. A década se consolida como divisor de águas entre um planeta ainda adaptável e um cenário de danos potencialmente irreversíveis.

Governos, empresas e organismos multilaterais leem o relatório como mais uma peça de pressão sobre metas de redução de emissões e transição energética. A expansão de fontes renováveis, como solar e eólica, entra no centro do debate não apenas como resposta climática, mas também como estratégia econômica diante da instabilidade em regiões produtoras de petróleo e gás. Para países dependentes de importações, cada alta de temperatura carrega, embutida, uma conta maior na fatura da energia.

Na esfera doméstica, cidades europeias começam a redesenhar planos urbanos, códigos de construção e protocolos de saúde pública. Escolas discutem novos calendários para atividades físicas ao ar livre. Empresas ajustam turnos de trabalho em setores expostos ao sol. O verão se alonga na prática, e o conceito de “onda de calor” se aproxima do cotidiano, deixando de ser exceção.

A ONU insiste que o espaço para ação ainda existe, mas encolhe a cada ano excepcional. A redução acelerada da queima de combustíveis fósseis, a proteção de florestas e a adaptação de cidades a eventos extremos aparecem como eixos centrais. A lista é conhecida, o que muda é a urgência impressa pelos números e pelas mortes que se acumulam a cada nova temporada de calor.

Enquanto maio de 2026 se encerra com um novo recorde na Europa, a pergunta deixada pelo relatório da ONU é menos sobre se virão ondas de calor mais intensas, e mais sobre como o mundo decide enfrentá-las. A resposta, admitem os próprios especialistas, não virá apenas de cúpulas internacionais, mas das escolhas diárias de governos, empresas e cidadãos diante de um clima que já deixou de ser previsível.

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