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NOAA vê El Niño acelerar e prevê risco de super evento em 2026

O Oceano Pacífico equatorial aquece em ritmo incomum em junho de 2026 e coloca o mundo em alerta para um possível Super El Niño no segundo semestre. A NOAA, agência climática dos Estados Unidos, ainda não oficializa o fenômeno, mas já registra anomalias típicas de um El Niño em formação e admite que o episódio “deve se instalar brevemente”. A brasileira MetSul Meteorologia considera que o evento de 2026-2027 já começou.

Pacífico esquenta rápido e derruba a dúvida sobre o início do fenômeno

Os mapas de anomalia de temperatura do mar mostram uma faixa contínua de águas muito quentes cortando a linha do Equador no Pacífico, do centro em direção à costa de Peru e Equador. É a assinatura clássica de um El Niño em desenvolvimento, agora reforçada por números que não deixam margem para interpretação confortável.

No boletim desta semana, a NOAA aponta que, pelo novo índice de monitoramento RONI, a Região Niño 3.4, referência oficial para classificar El Niño e La Niña, está 0,7 ºC acima da média. O valor se enquadra no intervalo de El Niño fraco, entre 0,5 ºC e 0,9 ºC, e se mantém nesse patamar há quatro semanas. Mais a leste, junto ao litoral de Peru e Equador, a região Niño 1+2 registra anomalia ainda mais expressiva, de 1,7 ºC.

Pelo critério tradicional, o ONI, usado por décadas nos diagnósticos globais, o aquecimento aparece ainda mais forte. A NOAA mede 1,3 ºC acima da média na Niño 3.4 e 2,1 ºC na Niño 1+2, configurando um El Niño moderado pelo padrão antigo, que vai de 1,0 ºC a 1,9 ºC. É a oitava semana seguida em que o Pacífico Equatorial Centro-Leste se mantém em território típico de El Niño nesse método.

Os valores chamam atenção também pela comparação histórica recente. A anomalia de 1,3 ºC na Niño 3.4 é a mais alta desde a segunda quinzena de março de 2024, no fim do El Niño 2023-2024. Na Niño 1+2, os 2,1 ºC positivos não eram vistos desde novembro de 2023. O Pacífico, que vinha em fase neutra após o episódio anterior, volta a aquecer em velocidade que surpreende parte da comunidade científica.

A MetSul, que acompanha diariamente os dados internacionais, considera que o episódio de 2026-2027 já está em curso. “O nosso entendimento é que o El Niño começou, pelos indicadores oceânicos e atmosféricos disponíveis”, afirma o meteorologista Luiz Fernando Nachtigall, autor do MetSul.com. Para ele, o anúncio da NOAA é questão de dias diante da linguagem usada pela agência norte-americana e da escalada recente da temperatura do mar.

Novo índice climático leva em conta aquecimento global e amplia alerta

A mudança de critério na NOAA ajuda a explicar a diferença entre os números do RONI e do velho ONI, mas também revela como o aquecimento global já altera a base de comparação. O ONI utilizava uma média fixa de 30 anos para definir o que é “normal” no Pacífico tropical. O RONI, adotado neste ano, ajusta esse referencial à realidade atual de mares mais quentes, tentando isolar o sinal específico do El Niño em um oceano já aquecido.

Na prática, o novo índice torna mais difícil classificar um evento como forte apenas porque todo o planeta está mais quente. Ainda assim, mesmo com essa régua mais exigente, o Pacífico equatorial já cruza o limiar de El Niño fraco na Região Niño 3.4. O contraste entre os dois métodos mostra que o oceano está aquecendo acima tanto da média histórica quanto da média recente influenciada pela crise climática.

As projeções dos modelos numéricos reforçam o desconforto. Simulações atualizadas agora no início de junho apontam, com notável consistência, para um El Niño de forte a muito forte no auge do episódio, entre o fim de 2026 e o começo de 2027. Alguns cenários colocam o aquecimento em patamar extremo, comparável ou até superior aos eventos de 1982-1983 e 1997-1998, dois marcos de Super El Niño na série moderna.

Meteorologistas lembram que, entre março e junho, a chamada barreira de previsibilidade do outono costuma reduzir a confiança das projeções. Mesmo com essa ressalva, a convergência dos modelos em direção a um quadro de alta intensidade preocupa. A MetSul fala em “muito alta probabilidade” de um episódio muito forte, com chance concreta de um novo Super El Niño no segundo semestre.

O motor por trás desse cenário está no casamento entre o aquecimento natural do fenômeno e o pano de fundo do aquecimento global. Mares mais quentes no planeta todo facilitam desvios ainda maiores na faixa equatorial do Pacífico. Quando esse corredor de água supera a média por mais de meio grau, a atmosfera responde: as chuvas mudam de lugar, ondas de calor se intensificam e extremos climáticos ganham fôlego.

Brasil entra na rota dos impactos e precisa acelerar a preparação

O Brasil, que sente os efeitos de cada El Niño de forma diferente, volta ao foco nesta nova rodada de aquecimento do Pacífico. Episódios fortes no passado trouxeram secas severas ao Norte e Nordeste, excesso de chuva no Sul e alterações marcantes no regime de temperaturas no Centro-Oeste e Sudeste. A combinação entre calor acima da média e chuva fora de hora mexe com safras agrícolas, reservatórios de água, geração de energia e infraestrutura urbana.

Se o episódio atual confirmar o rótulo de Super El Niño, o segundo semestre de 2026 tende a registrar maior frequência de extremos. O risco inclui estiagens prolongadas em algumas áreas, enchentes em outras e ondas de calor que podem pressionar sistemas de saúde e consumo de energia. Especialistas alertam que cidades vulneráveis a enchentes precisam rever planos de drenagem, enquanto regiões dependentes de chuva regular para abastecimento hídrico devem antecipar campanhas de economia de água.

No campo, a perspectiva de um El Niño muito forte já repercute no planejamento da próxima safra. Produtores de grãos e proteínas animais avaliam mudanças de calendário, escolha de cultivares mais resistentes ao estresse hídrico e contratação antecipada de seguro rural. No mercado internacional, a possibilidade de quebras de safra em grandes produtores da América do Sul e de outras regiões tropicais começa a entrar nas contas de traders de grãos, açúcar, café e energia.

Órgãos de defesa civil e governos estaduais aguardam o anúncio oficial da NOAA para calibrar planos de contingência. O carimbo formal costuma destravar protocolos de emergência, liberar recursos e dar base técnica para campanhas de comunicação. Mesmo antes da confirmação, a linguagem usada nos últimos boletins e a escalada das anomalias sugerem que esperar pode custar caro em um país que ainda responde de forma desigual a desastres relacionados ao clima.

NOAA deve oficializar El Niño em dias e prolongar tensão até 2027

A NOAA indica em seus comunicados que o El Niño “deve se instalar brevemente”, sinal de que o anúncio formal está próximo. A MetSul aposta que a confirmação virá ainda nesta ou, no máximo, na próxima semana, acompanhando a velocidade com que o Pacífico esquenta. Quando isso ocorrer, a discussão deixa o campo das projeções e entra definitivamente no terreno das decisões práticas.

Governos, empresas e agricultores terão então poucos meses para ajustar planos antes do pico esperado do fenômeno, previsto para o fim de 2026. A experiência recente com o El Niño 2023-2024 e com os grandes episódios dos anos 1980 e 1990 mostra que antecipar respostas reduz perdas humanas e econômicas. A diferença, agora, é que o novo El Niño chega a um planeta mais quente e mais populoso, em meio a crises sobrepostas de água, energia e alimentos.

A fase de aquecimento do Pacífico deve atravessar 2027, mesmo que atinja o auge no segundo semestre deste ano. O Brasil entra nesse período com memória fresca de desastres climáticos e um sistema de alerta mais estruturado, mas ainda desigual entre regiões. A pergunta que se impõe, à espera do comunicado oficial da NOAA, é se o país vai tratar o possível Super El Niño como um aviso antecipado ou como mais uma surpresa anunciada.

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