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NOAA confirma El Niño forte e vê risco de Super El Niño em 2026

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) confirma nesta quinta-feira (11) a presença do El Niño no Pacífico tropical e alerta para um possível Super El Niño nos próximos meses. O centro de previsão dos Estados Unidos calcula em 63% a chance de o fenômeno atingir a categoria de evento “muito forte”, uma das mais intensas já observadas desde 1950.

Calor recorde em um planeta já aquecido

O anúncio consolida um cenário de alerta para o clima global. O El Niño aquece as águas centrais e orientais do Pacífico tropical e reorganiza ventos que influenciam sistemas de chuva e de temperatura em vários continentes. A NOAA atribui 100% de probabilidade de o fenômeno continuar pelo menos até o outono do Hemisfério Norte de 2026 e fala em chances “extremamente altas” de persistência durante o inverno, entre dezembro e fevereiro.

Em termos práticos, isso significa meses de influência contínua sobre ondas de calor, secas e inundações. Para ser classificado como Super El Niño, a temperatura da superfície do mar na faixa equatorial do Pacífico precisa ficar mais de 2 ºC acima da média histórica. Modelos climáticos considerados confiáveis pela agência indicam que esse limite pode ser superado com folga, o que colocaria o evento entre os mais fortes já registrados, ao lado de 2015-2016, 1997-1998 e 1982-1983.

O fenômeno não chega a ser uma surpresa. Desde o fim de 2025, boias oceânicas, satélites e navios de pesquisa detectam grandes bolsões de água excepcionalmente quente se deslocando do Pacífico ocidental, perto da Indonésia, para o leste. Essa massa de água, entre 180 e 300 metros de profundidade, começou a aflorar perto da América do Sul nos últimos meses, repetindo a dinâmica observada nos grandes El Niños do passado.

O Centro de Previsão Climática da NOAA mede o fenômeno pelo Índice Oceânico Niño, que calcula uma média móvel de três meses das anomalias de temperatura na chamada região Niño do Pacífico. Desde 1950, apenas quatro eventos atingiram a faixa de “muito forte”, o que realça a excepcionalidade do quadro atual. “Estamos diante de um dos maiores eventos El Niño registrados historicamente”, afirmam especialistas do centro em nota técnica.

Impactos do Pacífico ao interior do Brasil

Um El Niño robusto tende a reorganizar a geografia dos extremos climáticos. Nos Estados Unidos, os reflexos aparecem com maior clareza no inverno: temperaturas acima da média do norte do país ao Alasca, e um sul mais úmido e frio, sob a influência de uma corrente de jato mais ativa. A temporada de furacões também muda de rosto. O aquecimento no Pacífico central e oriental favorece mais tempestades nessa bacia, enquanto o Atlântico costuma registrar menor número de furacões. Quando o evento é mais forte, como o atual, a probabilidade de que esse padrão se confirme aumenta.

As consequências se espalham para muito além da América do Norte. Austrália e Indonésia enfrentam maior risco de secas intensas e ondas de calor, que costumam alimentar incêndios florestais e pressionar reservatórios de água. No sudeste da África, a seca tende a se agravar entre dezembro e fevereiro, período de verão no Hemisfério Sul. Próximo ao Chifre da África, por outro lado, a expectativa é de chuvas acima da média entre outubro e janeiro, com risco de enchentes e deslizamentos.

Na América do Sul, o mapa de impactos é complexo. O sudeste do continente, incluindo partes da Argentina, Uruguai e Paraguai, tende a registrar chuvas mais volumosas em anos de El Niño. No Brasil, o padrão histórico indica temperaturas acima da média no Sudeste e risco maior de chuva forte em áreas do Sul e do Centro-Oeste, sobretudo na primavera e no verão. Uma faixa do norte da América do Sul, que se estende até porções da América Central, fica mais suscetível à seca de julho a dezembro, o que afeta diretamente lavouras e geração de energia hidrelétrica.

O noroeste do continente, com destaque para o Peru, costuma ser atingido por temporais entre janeiro e maio, estimulados pelo contato direto com águas excepcionalmente quentes na costa. A combinação de mar aquecido, ar mais úmido e relevo íngreme aumenta o risco de enxurradas, deslizamentos e prejuízos à infraestrutura costeira. “O El Niño aumenta a probabilidade de extremos, não dita cada evento específico”, resume um meteorologista da NOAA. Mesmo assim, governos e empresas tratam as projeções como sinal claro para reforçar planos de emergência.

O impacto econômico atravessa a agricultura, a gestão de água e o planejamento de desastres. Produtores rurais na América do Sul já revisam calendários de plantio diante da perspectiva de estiagens mais severas em alguns polos e excesso de chuva em outros. Seguradoras ajustam modelos de risco para 2026 e 2027, enquanto operadores de energia discutem cenários de reservatórios mais baixos em regiões sob influência de seca e risco de cheias em bacias mais chuvosas.

Um Super El Niño em um mundo sem precedentes

A principal incógnita não está apenas na força do El Niño, mas no pano de fundo em que ele atua. O planeta hoje está significativamente mais quente do que a média do século 20 por causa da queima de combustíveis fósseis. Essa base aquecida potencializa o efeito do fenômeno ao transferir ainda mais calor do oceano para a atmosfera. Especialistas ouvidos por centros de pesquisa internacionais avaliam que a combinação praticamente garante que 2027 supere 2024 como o ano mais quente já registrado.

O El Niño é, essencialmente, um grande rearranjo de energia. Quando as águas do Pacífico tropical aquecem, essa energia extra se libera para o ar, elevando as temperaturas médias globais da superfície. Em anos neutros, essa oscilação costuma representar um desvio temporário em relação à média. Em um contexto de aquecimento global acelerado, o mesmo desvio empurra os termômetros para patamares inexplorados. “Nunca houve um El Niño, muito menos um Super El Niño, com um clima de fundo tão quente quanto agora”, alerta um relatório recente do centro de previsão da NOAA.

Para governos e prefeituras, o recado é imediato. Sistemas de saúde precisam se preparar para possíveis ondas de calor prolongadas, com aumento de internações por desidratação e doenças respiratórias. Órgãos de defesa civil revisam protocolos para enchentes e deslizamentos em áreas de risco, enquanto agências de recursos hídricos discutem planos de racionamento preventivo, caso as previsões de seca se confirmem em regiões-chave.

A ciência corre em paralelo ao esforço de adaptação. Modelos climáticos avançados são atualizados mês a mês com novas medições de temperatura da superfície do mar e da atmosfera. O monitoramento constante permite ajustar previsões sazonais e emitir alertas mais precisos para diferentes regiões. Nesse cenário, decisões tomadas com algumas semanas de antecedência podem significar menos perdas de safra, menos danos a cidades e, em situações extremas, mais vidas salvas.

Os próximos meses serão decisivos para saber se o El Niño atual de fato cruzará a linha dos 2 ºC acima da média e se firmará como um Super El Niño. A NOAA promete atualizar suas projeções regularmente, à medida que novas medições confirmem ou não o cenário mais extremo. Enquanto isso, países como o Brasil acompanham de perto cada boletim, sabendo que as escolhas feitas agora, do campo às grandes cidades, vão definir o peso real deste fenômeno climático sobre a economia e o cotidiano das pessoas.

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