No 1º de Maio, ato em Brasília mira fim da jornada 6×1 e pressiona Congresso
Centenas de manifestantes fecham trecho do Eixão Sul, em Brasília, neste 1º de Maio, para exigir o fim da jornada 6×1 e mudanças na legislação trabalhista. O alvo principal dos protestos é o Congresso Nacional, em meio à escalada de tensão com o governo federal.
Ato sindical ocupa Eixão em dia de tensão política
O asfalto do Eixão Sul, na altura da 106 Sul, vira palco de bandeiras vermelhas, faixas espalhadas e alto-falantes improvisados desde pouco depois das 10h. A manifestação, convocada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) e pela Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), se estende até por volta das 14h e transforma o tradicional Dia do Trabalhador de Brasília em recado direto ao Legislativo.
Os organizadores miram um objetivo imediato: derrubar a escala 6×1, que permite seis dias seguidos de trabalho para apenas um de descanso, prática comum no comércio e em serviços. Em meio aos discursos, dirigentes sindicais repetem que a jornada exaustiva agrava adoecimentos, aumenta acidentes e rouba o convívio familiar, em um país em que mais de 99 milhões de pessoas estão ocupadas, segundo o IBGE.
Os manifestantes também cobram a regulamentação do trabalho por aplicativos, tema em discussão no Congresso há mais de um ano, e o direito de negociação para servidores públicos. Faixas com críticas diretas ao Congresso se misturam a cartazes contra a anistia de condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023 e a pedidos de combate mais duro ao feminicídio e à chamada “pejotização”, quando empresas substituem vínculos formais por contratos como pessoa jurídica.
No carro de som, o presidente nacional da CTB, Flausino Antunes, contesta o argumento de que reduzir a jornada compromete a economia. “Nunca direito foi uma questão que atrapalha o desenvolvimento econômico. Dá para conciliar o aumento do emprego e da produtividade com os direitos aos trabalhadores”, afirma. O dirigente insiste que a pauta ganha força nas ruas e precisa sair do papel ainda em 2026.
O presidente da CUT-DF, Rodrigo Rodrigues, aproveita o microfone para associar a mobilização ao ciclo eleitoral que se aproxima. “O que aconteceu esta semana no Congresso mostra que existem outras prioridades de um setor do Congresso, mas nós queremos que essa discussão da jornada de trabalho avance”, diz. “É primordial. E em ano eleitoral isso também é um recado muito importante para o povo”, completa.
Parlamentares da esquerda marcam presença no ato e ajudam a dar visibilidade institucional às pautas. A senadora Leila Barros (PDT-DF) e a deputada federal Erika Kokay (PT-DF) caminham entre as barracas de água e comida, posam para fotos e ouvem reivindicações de servidores, terceirizados e motoristas de aplicativos que acompanham os discursos.
Pressão sobre Congresso cresce após derrotas do Planalto
O tom dos protestos sobe na mesma semana em que o Senado rejeita a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal, e o Congresso derruba vetos ao projeto que endurece as penas para réus dos ataques golpistas de 8 de janeiro. As duas decisões expõem o atrito entre o Planalto e a base parlamentar e alimentam a percepção de conflito aberto entre o Executivo e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).
No Eixão, o alvo preferencial é o Congresso como instituição, não apenas o governo. Faixas pedem que deputados e senadores “ouçam as ruas” e incluam na pauta, ainda neste semestre, projetos que tratam da jornada 6×1, da proteção a trabalhadores de aplicativo e da negociação coletiva no serviço público. Os dirigentes lembram que parte dessas propostas tramita há mais de cinco anos, atravessa diferentes governos e empaca em comissões controladas pelo centrão.
A discussão sobre a jornada 6×1 não é nova. Desde a reforma trabalhista de 2017, sindicatos relatam dificuldade crescente em negociar escalas mais flexíveis, especialmente em setores como varejo, serviços de call center e hotelaria. Em muitos casos, funcionários cumprem mais de 44 horas semanais nominais, somando horas extras regulares, o que na prática empurra a jornada para além do limite constitucional.
As centrais sindicais calculam que uma revisão da escala 6×1 e a redução da jornada podem estimular a criação de vagas, ao distribuir o volume de trabalho entre mais trabalhadores. Empresários, por outro lado, argumentam que mudanças desse tipo elevam custos e podem reduzir a competitividade, sobretudo em pequenas e médias empresas. Esse embate volta ao centro do tabuleiro neste 1º de Maio, em um país que encerra 2025 com taxa de desocupação em torno de 7,6%.
A regulação do trabalho por aplicativos aparece como segundo eixo da mobilização. Com cerca de 1,5 milhão de motoristas e entregadores cadastrados nas principais plataformas, segundo dados de mercado, o Brasil discute há meses um modelo que garanta proteção mínima sem reproduzir o regime tradicional da CLT. As centrais defendem piso por hora, contribuição previdenciária e seguro contra acidentes, enquanto as empresas pedem flexibilidade e alertam para risco de queda nas corridas e entregas.
Disputa trabalhista entra no calendário eleitoral
Os organizadores enxergam no ato desta quinta-feira uma espécie de ensaio para o calendário eleitoral que se aproxima. Em 2026, o país vai às urnas para escolher presidente, governadores, senadores e deputados, e o mundo do trabalho volta a ser bandeira de campanha. Ao ocupar o Eixão e cidades como Belo Horizonte, Recife, Salvador e Rio de Janeiro, as centrais testam capacidade de mobilização e tentam pautar o debate antes que partidos definam programas e alianças.
No curto prazo, a expectativa recai sobre a reação do Congresso. Lideranças sindicais prometem intensificar a pressão por audiências públicas, relatorias favoráveis e votação de projetos parados. A aposta é que o custo eleitoral de ignorar as reivindicações aumente à medida que o ano avança e que trabalhadores cobrem posição de deputados e senadores em suas bases.
No governo federal, auxiliares admitem reservadamente que o espaço de manobra é limitado depois das últimas derrotas no Parlamento. Interlocutores do Planalto, porém, veem na mobilização do 1º de Maio uma oportunidade para reorganizar a narrativa em torno da agenda social, retomando o discurso de defesa de direitos trabalhistas que marcou campanhas anteriores.
Para quem cruza o Eixão a pé, entre barracas improvisadas e carros de som, o resultado concreto do ato ainda é incerto. O fim da jornada 6×1 depende de decisões que se concentram a poucos quilômetros dali, entre o Congresso e o Planalto. Nas próximas semanas, o avanço — ou a paralisia — desses projetos vai indicar se a pressão das ruas ganha espaço na agenda legislativa ou se a pauta trabalhista seguirá em segundo plano em meio ao xadrez político de 2026.
