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Negociação por Neto expõe guerra pelo controle da SAF do Botafogo

A chegada do goleiro Neto ao Botafogo, fechada em meio à venda de 90% da SAF e após a transferência de John ao Nottingham Forest, escancara a disputa pelo comando do clube em 2026. O negócio, articulado por Kia Joorabchian com apoio de John Textor, ocorre enquanto o americano tenta retomar o controle na Justiça.

Um goleiro no olho do furacão societário

Neto, 36, desembarca no Rio em um Botafogo financeiramente pressionado, esportivamente ambicioso e politicamente fatiado. A negociação é costurada logo depois da venda de John ao Nottingham Forest, da Inglaterra, que abre espaço na folha salarial e na posição, mas também catalisa novos movimentos de poder na SAF alvinegra.

Kia Joorabchian, empresário anglo-iraniano com longa atuação no mercado europeu, aproveita a brecha. Usa a boa relação com John Textor, afastado do comando da SAF desde abril por decisão do Tribunal Arbitral da FGV, para construir uma operação dupla: colocar Neto debaixo das traves e, ao mesmo tempo, se credenciar como protagonista na compra das ações do clube-empresa.

O goleiro é agenciado pela Bertolucci Sports, mas a comissão do negócio fica registrada em nome da Sports Invest UK LTDA, empresa ligada a Kia. Na lista da recuperação judicial da SAF, essa companhia aparece como credora de mais de R$ 20 milhões, o que torna o agente não só negociador, mas também interessado direto na reorganização financeira do Botafogo.

Enquanto o torcedor enxerga um reforço para o gol, executivos e advogados veem um movimento tático em um tabuleiro bem mais caro. A negociação por Neto acontece paralelamente à corrida pela compra de 90% das ações da SAF, hoje em disputa entre grupos estrangeiros e fundos especializados em ativos estressados.

Oferta de US$ 50 milhões, dívida bilionária e concorrência pesada

O plano de Kia não se limita à intermediação de atletas. Junto do armador financeiro Evangelos Marinakis, ele apresenta uma proposta de US$ 50 milhões para assumir 90% da SAF, valor que viria acompanhado da assunção de dívidas e de um projeto de reestruturação. Nos bastidores, Textor sinaliza apoio, ainda que brigue para provar que essas ações pertencem à sua pessoa física, não ao veículo Eagle Bidco/Ares.

O americano não esconde a intenção de voltar ao comando. Indica que vai à Justiça para recuperar o controle, afastado por decisões arbitrais e pelo processo de recuperação judicial que reorganiza uma dívida de R$ 1,28 bilhão. Entre investidores, a leitura é de que Textor tenta manter influência, mesmo diante de uma saída considerada iminente.

A proposta de Kia e Marinakis, porém, não é a única à mesa. MasterCom Capital, fundo dos Estados Unidos, manifesta interesse. Quem surge como favorita, segundo interlocutores próximos ao processo, é a GDA Luma, empresa especializada em recuperação de ativos. A oferta desse grupo chega a US$ 105 milhões, mais o pagamento integral da dívida organizada na recuperação judicial.

O pacote da GDA Luma embute ainda um empréstimo feito no início do ano, quando Textor ainda controla a operação. São US$ 25 milhões já aportados, que, somados ao novo capital, colocam o investimento total na casa de R$ 400 milhões, além do compromisso com o passivo bilionário na Justiça. É um volume que muda a escala da negociação e ressalta o tamanho do Botafogo como ativo esportivo e financeiro.

Dentro do clube, diretores tentam conciliar esse cenário com a rotina do elenco. As saídas de jogadores, como a iminente transferência de Danilo, e renovações pontuais com jovens formados em General Severiano convivem com a incerteza sobre quem pagará a conta nos próximos anos.

Neto perde espaço enquanto o Botafogo vira ativo global

O curioso é que o personagem que ajuda a explicar essa guerra de bastidores vive o pior momento de prestígio no campo. Neto, recém-chegado, acumula falhas e episódios polêmicos, como a expulsão por xingar o árbitro em partida recente. A diretoria já consulta o mercado em busca de um novo goleiro para o segundo semestre.

A possibilidade de substituição tão rápida expõe a distância entre os movimentos milionários fora de campo e a fragilidade de carreiras individuais. O goleiro que simboliza a aposta de um investidor e de um agente influente pode virar peça descartável em poucos meses, caso um novo comando queira reposicionar o elenco.

Para o torcedor, o impacto é direto. A instabilidade societária compromete o planejamento esportivo, dificulta a manutenção de peças importantes e deixa o elenco em estado permanente de avaliação. Jogadores lidam com conversas de saída, como Danilo, que apesar da transferência encaminhada dedica a convocação para a Copa ao Botafogo, enquanto jovens renovam contrato sem saber sob qual projeto estarão em 2027.

No mercado, a disputa por 90% da SAF mostra que o clube vira ativo global, capaz de atrair fundos, gestores de crise e bilionários do futebol. Essa visibilidade aumenta o potencial de investimento, mas também eleva o risco de decisões tomadas longe do gramado, guiadas mais por balanços do que por tabelas de classificação.

Próximo dono, novo modelo e futuro de Neto em aberto

Os próximos meses são decisivos. A Justiça precisa validar o plano de recuperação, arbitrar o conflito sobre a titularidade das ações e definir se Textor volta ao comando ou se um novo grupo assume a SAF. Só então o clube terá um orçamento estável e um projeto esportivo claro para os próximos anos.

Dentro de campo, a diretoria trabalha com cenários paralelos. Se uma nova gestão entrar com capital pesado, a tendência é por mudanças profundas no elenco e na comissão técnica. Se Textor conseguir reverter a perda de poder, o Botafogo pode retomar a estratégia interrompida em abril, com maior protagonismo de sua rede internacional.

Neto fica preso a esse limbo. Pode ser o goleiro de transição de uma era marcada por dívidas, disputas jurídicas e negócios cruzados, ou virar símbolo de um projeto que ainda nem se sabe quem vai comandar. Enquanto isso, cada defesa, cada falha e cada cartão pesa um pouco mais do que o normal, porque ajuda a definir quanto vale o Botafogo dentro de campo em meio a uma batalha de centenas de milhões fora dele.

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