Nasa testa motor elétrico a lítio que mira viagens tripuladas a Marte
A Nasa testa em fevereiro de 2026, no Laboratório de Propulsão Elétrica do JPL, um novo propulsor eletromagnético movido a vapor de lítio metálico. O protótipo atinge potência recorde entre motores elétricos da agência e mira futuras missões tripuladas a Marte.
Do laboratório à ambição de levar humanos a Marte
Dentro de uma câmara de vácuo de 8 metros, refrigerada a água, um eletrodo de tungstênio brilha em branco intenso e passa de 2.800 graus Celsius. A cena marca a primeira ignição bem-sucedida, em anos, de um propulsor magnetoplasmadinâmico movido a vapor de lítio metálico nos Estados Unidos, em níveis de potência nunca antes alcançados no país.
A equipe do Laboratório de Propulsão Elétrica do JPL conduz cinco ignições seguidas e vê o bocal externo do motor incandescer enquanto uma pluma vermelha de plasma se estende na câmara. O experimento atinge até 120 quilowatts de potência, mais de 25 vezes o nível dos propulsores da missão Psyche, hoje os motores elétricos mais potentes em operação em uma espaçonave da Nasa.
O teste ocorre enquanto a agência concentra atenções na Artemis, programa que leva astronautas de volta à Lua e prepara o terreno para Marte. “Na Nasa, trabalhamos em muitas coisas ao mesmo tempo e não perdemos Marte de vista. O desempenho bem-sucedido do nosso propulsor neste teste demonstra um progresso real rumo ao envio de um astronauta americano para pisar no Planeta Vermelho”, afirma o administrador da Nasa, Jared Isaacman.
A tecnologia em avaliação não é nova no papel. Motores magnetoplasmadinâmicos, ou MPD, são estudados desde os anos 1960, mas nenhum voa em missão operacional. A diferença agora está no patamar de potência e no tipo de propelente. Em vez de gases nobres usados em motores iônicos tradicionais, o JPL aposta no lítio metálico vaporizado.
Nesse tipo de propulsor, correntes elétricas muito altas cruzam um campo magnético e empurram o plasma para fora do motor, como se fosse um estilingue eletromagnético. O empuxo é baixo se comparado a um foguete químico, mas atua de forma contínua. No vácuo do espaço, a pressão suave acumula velocidade por semanas e meses, até atingir números que nenhum foguete convencional sustenta.
Menos combustível, mais carga e viagens mais rápidas
O interesse da Nasa não é apenas bater recordes de laboratório. A propulsão elétrica já mostra resultados concretos na Psyche, sonda que em viagem interplanetária acelera com motores que consomem até 90% menos propelente que foguetes químicos de alta potência. Com empuxo permanente, a nave atinge cerca de 200 mil quilômetros por hora.
Os novos motores MPD alimentados por lítio prometem dar um salto além disso. Com potência na casa dos centenas de quilowatts por unidade, eles podem entregar mais empuxo e, ao mesmo tempo, usar o combustível de forma ainda mais eficiente. Na prática, isso significa naves mais leves na decolagem, com espaço para mais carga útil: equipamentos científicos, módulos habitáveis, proteção extra contra radiação.
O pesquisador sênior James Polk, do JPL, acompanha o teste de perto por um pequeno visor na parede da câmara de vácuo. “É um momento importantíssimo para nós, porque não só mostramos que o propulsor funciona, como também atingimos os níveis de potência que tínhamos como meta. E sabemos que temos uma boa plataforma de testes para começar a enfrentar os desafios da ampliação da produção”, diz.
Os desafios não são triviais. O hardware do motor precisa operar por milhares de horas em temperaturas extremas, sem derreter ou perder desempenho. Cálculos da equipe indicam que uma missão tripulada a Marte exigiria entre 2 e 4 megawatts de potência elétrica, com vários propulsores MPD funcionando por mais de 23 mil horas.
Esse cenário coloca pressão sobre a engenharia de materiais, o desenho dos eletrodos e a própria escolha da fonte de energia. Painéis solares, que funcionam bem para missões a distâncias moderadas do Sol, se tornam pesados e ineficientes quando a demanda chega à faixa de megawatts. O caminho mais provável passa pela combinação dos motores MPD com reatores nucleares espaciais compactos.
Corrida tecnológica e próximos passos rumo ao Planeta Vermelho
O avanço no laboratório do JPL ocorre em meio a uma nova corrida tecnológica global puxada pelo programa Artemis. Com astronautas já a caminho da Lua em voos de teste, a discussão interna na Nasa se volta para o passo seguinte: transformar Marte em destino possível, e não apenas em horizonte distante.
Caso os próximos ensaios confirmem a robustez dos componentes em potências entre 500 quilowatts e 1 megawatt por propulsor, o projeto entra em outra fase. A agência estuda como integrar vários motores em uma única nave, avaliar vibrações, interferências eletromagnéticas e requisitos de resfriamento. Cada gargalo técnico vencido reduz incertezas em torno do cronograma de uma missão tripulada.
O impacto transborda os planos da Nasa. Empresas privadas que miram logística em órbita, mineração de asteroides ou turismo de longa distância observam a evolução da propulsão elétrica de alta potência. Motores que consomem menos propelente e carregam mais carga podem reduzir custos, abrir novos modelos de negócio e alterar o equilíbrio de forças no setor espacial.
Outras agências espaciais também acompanham o movimento. Europa, China e Rússia investem em variantes de propulsão elétrica para missões científicas e militares. Um sistema MPD validado em voo, aliado a uma fonte de energia nuclear confiável, tende a se tornar padrão de referência para viagens de longa duração no Sistema Solar.
A equipe do JPL evita prometer datas, mas trabalha com a perspectiva de ampliar a potência dos testes ao longo dos próximos anos e demonstrar operação contínua em laboratório por milhares de horas. Entre a câmara de vácuo de 8 metros em Pasadena e a longa viagem a Marte existe uma cadeia de decisões políticas, orçamentárias e técnicas ainda em aberto. O brilho branco do tungstênio e a pluma vermelha de lítio, porém, indicam que o motor que pode levar humanos ao Planeta Vermelho já saiu da prancheta.
