Ciencia e Tecnologia

Nasa escolhe duas empresas para construir novos jipes lunares

A Nasa seleciona duas empresas para desenvolver novos veículos para a superfície da Lua a partir de 2028. Os jipes lunares vão levar astronautas, equipamentos e suprimentos em futuras missões, ampliando o alcance das operações da agência.

Novo capítulo na exploração da Lua

A decisão marca uma etapa decisiva na estratégia de retorno e permanência prolongada na Lua, quase seis décadas depois das primeiras caminhadas do programa Apollo. Diferentes dos veículos abertos usados nos anos 1970, os novos rovers combinam direção tripulada e operação autônoma, com sistemas de navegação capazes de percorrer quilômetros de terreno irregular sem intervenção constante de controle em terra.

A Nasa quer que os veículos estejam prontos para operar na região do polo sul lunar, área rica em gelo de água em crateras permanentemente sombreadas. Esse gelo pode ser convertido em água potável, oxigênio e combustível, peça-chave para transformar a Lua em base logística para viagens mais longas no espaço profundo. Os jipes passam a ser a ligação física entre os locais de pouso, módulos habitáveis e zonas de exploração científica.

Como os novos jipes mudam o jogo

Os veículos devem transportar, em uma única saída, tripulações de até dois astronautas com trajes completos, além de ferramentas científicas, painéis, antenas e cargas de mais de 500 quilos, segundo especificações preliminares divulgadas pela agência em chamadas públicas anteriores. A autonomia planejada é de dezenas de quilômetros por dia lunar, que dura cerca de 14 dias terrestres, com capacidade de operar também quando não houver astronautas na superfície.

Engenheiros envolvidos no projeto afirmam que os rovers funcionam como “picapes inteligentes” em ambiente extremo, com temperaturas que variam de cerca de 120 graus Celsius sob o sol a menos de 170 graus negativos nas sombras profundas. Em documentos oficiais, a Nasa descreve o veículo como um “multiplicador de força”, porque um mesmo par de astronautas poderá acessar áreas até hoje inalcançáveis a pé. “Sem mobilidade, a ciência fica presa ao ponto de pouso. Com esses veículos, o raio de ação da missão aumenta em ordem de grandeza”, afirma, em nota, um gerente do programa Artemis.

Tecnologia, dinheiro e influência

Os contratos, estimados em valores bilionários ao longo da década, alimentam uma cadeia industrial que reúne grandes fabricantes de sistemas espaciais, startups de robótica e empresas de software avançado. A Nasa paga pelo desenvolvimento, pela qualificação e por horas de uso em missão, seguindo o modelo de contratação que já impulsiona o mercado de lançadores comerciais e de cápsulas de carga e tripulação em órbita baixa.

O impacto vai além das empresas diretamente escolhidas. Universidades e centros de pesquisa entram nos projetos de sensores, inteligência artificial e materiais, atraindo bolsas, estudantes e laboratórios. Países parceiros do programa Artemis, como Japão, Canadá e membros da União Europeia, veem nos novos rovers uma plataforma para embarcar instrumentos científicos e testar tecnologias próprias. “Quem dominar a logística na Lua vai definir os padrões da próxima fase da corrida espacial”, avalia um pesquisador brasileiro de política espacial ouvido pela reportagem.

Da Lua para Marte e de volta à Terra

A agência americana já indica que a tecnologia dos jipes lunares servirá de base para veículos que, em um segundo momento, possam rodar em Marte. O ambiente marciano é diferente, com atmosfera rarefeita e gravidade maior que a lunar, mas os desafios de autonomia, resistência a poeira e segurança são similares. Cada componente validado na Lua economiza tempo e dinheiro em projetos futuros no planeta vizinho.

Os próximos três a quatro anos serão dedicados ao detalhamento dos projetos, à construção de protótipos e a testes em ambientes análogos na Terra, como desertos, regiões polares e câmaras de vácuo. A partir de 2028, a expectativa é ver os primeiros modelos funcionando na superfície lunar, integrados às missões Artemis. A pergunta que permanece, no entanto, é até que ponto essa nova frota vai abrir espaço para uma presença humana contínua na Lua ou se seguirá limitada a janelas curtas de exploração controlada, ditadas por orçamento, política e disputa geopolítica.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *