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Morre Angelita Habr-Gama, pioneira no tratamento do câncer colorretal

Morre neste sábado, 30, aos 92 anos, a cirurgiã e pesquisadora Angelita Habr-Gama, referência mundial em câncer colorretal. Ela está internada desde 6 de maio no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. A causa da morte não é divulgada pela família e pelo hospital.

Da Ilha de Marajó ao topo da cirurgia mundial

Nascida em 1933 na Ilha de Marajó, no Pará, filha dos imigrantes libaneses Nagibi e Kalil, Angelita atravessa o País para chegar à medicina paulista. A família se muda para São Paulo em 1939, depois da morte do irmão mais velho, Nader, por uma apendicite supurada aos 14 anos. A tragédia marca a infância da menina e empurra o clã para a capital em busca de assistência médica melhor.

Adolescente, Angelita enfrenta a resistência do pai ao anunciar que quer cursar medicina. Ele a vê como futura professora, não como cirurgiã. Ela insiste. Em 1952, é aprovada na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), uma das turmas mais concorridas do País. Forma-se com destaque acadêmico e decide seguir o caminho menos provável para uma mulher nos anos 1950: a cirurgia.

Ao tentar ingressar na residência em cirurgia no Hospital das Clínicas da USP, ouve que não vale a pena ocupar uma das oito vagas, porque “vai casar, ter filhos e esquecer a cirurgia”. Em entrevista anos depois, ela relembra a resposta: “Eu não aceitei. Disse que eu entrei na faculdade de medicina em oitavo lugar, fui a primeira colocada nos rodízios de internato e que eu tinha o direito de optar pela cirurgia também”. Com apoio da direção da faculdade, presta o concurso em 1957 e passa em primeiro lugar, tornando-se a primeira mulher residente em cirurgia do HC.

Ao fim da residência geral, decide se aprofundar nas doenças do intestino. Mira o Hospital St. Mark’s, em Londres, então o único do mundo dedicado exclusivamente a essa área. Bate com força na porta. À época, a instituição aceita apenas homens. Ela envia cartas, aciona professores brasileiros, insiste. Em uma das últimas tentativas, escreve: “Não se preocupem, pois vocês irão gostar de mim. Sou um tipo diferente do que vocês estão acostumados”. Em 1962, é admitida como a primeira mulher da história do St. Mark’s e arruma a mala rumo ao berço da coloproctologia moderna.

De volta ao Brasil, retoma o trabalho no Hospital das Clínicas da FMUSP e escala posições até se tornar a primeira mulher a chefiar o Departamento de Cirurgia. Atua também nos bastidores de Brasília para que o Ministério da Educação reconheça oficialmente a coloproctologia como especialidade, antes subsumida à cirurgia do aparelho digestivo. A área ganha nome, espaço e autonomia acadêmica.

Já consagrada como cirurgiã, integra em 1985 a equipe que cuida do presidente eleito Tancredo Neves. É a única mulher no grupo médico. Cabe a ela, segundo relatou mais tarde, comunicar a dona Risoleta Neves que não há mais esperança. O episódio a projeta para além dos círculos técnicos e a expõe ao País em um dos momentos mais traumáticos da redemocratização.

Revolução silenciosa no tratamento do câncer de reto

Nos anos 1990, Angelita lidera a pesquisa que mudaria o tratamento do câncer de reto no mundo. Até então, o padrão é operar praticamente todos os pacientes com tumor avançado na região, muitas vezes com remoção do reto e do esfíncter anal. O procedimento, em não poucos casos, condena o doente ao uso permanente de bolsa de colostomia, com impacto profundo na imagem corporal, na vida sexual e no trabalho.

Ela passa a testar, com sua equipe, um caminho diferente. Primeiro, quimioterapia e radioterapia combinadas. Depois, em vez de levar todos imediatamente à mesa cirúrgica, submete cada paciente a uma avaliação rigorosa. Se o tumor persiste, a cirurgia é indicada. Se a lesão desaparece, o paciente entra em acompanhamento clínico muito próximo, com exames seriados. A estratégia, batizada de Watch and Wait (vigiar e esperar), reduz o número de cirurgias radicais sem comprometer o controle da doença.

O grupo mostra que, em um número expressivo de casos, o câncer não volta a aparecer e o paciente preserva o reto, o esfíncter e a capacidade de evacuar normalmente. A proposta desafia dogmas cirúrgicos, provoca resistência inicial, mas ganha respaldo em dados de longo prazo. A inovação rende dezenas de prêmios nacionais e internacionais, coloca o Brasil no centro do debate sobre câncer colorretal e inspira mudanças em diretrizes médicas.

Em 2024, quase três décadas após os primeiros protocolos, o Watch and Wait entra nas diretrizes da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco) para o tratamento de câncer de reto avançado. É a primeira vez que o documento oficial da entidade incorpora de forma tão direta um protocolo liderado por um grupo latino-americano. O reconhecimento consolida a USP e os hospitais paulistas como polos de referência mundial na área.

Ao longo da carreira, Angelita se torna professora emérita da FMUSP, integra sociedades médicas no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos e acumula uma coleção de prêmios pouco comum para uma pesquisadora latino-americana. Em 2022, é listada pela Universidade de Stanford entre as médicas que mais contribuem para o avanço da ciência no mundo. “Esse reconhecimento é um estímulo para os médicos e cientistas brasileiros, é um estímulo para progressão na carreira de outras pesquisadoras”, afirma, à época, em entrevista ao Estadão.

Em 2023, conquista outro marco simbólico: vira a primeira mulher do planeta a receber a medalha Bigelow, criada pela Sociedade de Cirurgia de Boston para homenagear cirurgiões que transformam a prática e o ensino da área. Questionada sobre o efeito de tantas condecorações, responde de forma seca: “Eu sempre trabalhei por gosto e prazer. O sucesso foi uma consequência do gosto e da dedicação ao trabalho. Então, as medalhas vêm, mas não mudam a minha maneira de ser”.

Legado, luto e os desafios que permanecem

O Hospital Alemão Oswaldo Cruz, onde Angelita integra o corpo clínico desde 1980, divulga nota em que se diz “profundamente consternado” com a morte da cirurgiã. A instituição afirma que perde “uma grande profissional e uma colega de quem sempre iremos nos lembrar com respeito, gratidão, carinho e admiração” e se solidariza com a família. Entidades médicas nacionais e internacionais preparam homenagens e discutem a criação de prêmios e cátedras em seu nome.

O luto vem poucos anos depois de uma batalha pessoal que quase interrompe a trajetória da médica. Em 2020, aos 87 anos, Angelita contrai covid-19 e passa 50 dias internada em UTI no mesmo Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Ao receber alta, diz à coluna de Sonia Racy que pretende voltar logo ao consultório: “Acredito que na semana que vem já terei condições”. Retoma o trabalho e segue atendendo pacientes e orientando residentes até a saúde cobrar um novo preço em 2026.

Entre oncologistas e cirurgiões, a morte de Angelita é tratada como marca de fim de ciclo em uma área que ainda luta para expandir o acesso a tratamentos modernos. O câncer colorretal segue entre os mais incidentes no Brasil, com milhares de novos casos a cada ano, e ainda concentra disparidades regionais severas. A metodologia Watch and Wait, já consagrada em centros de excelência, enfrenta dificuldades para chegar a hospitais menores, sobretudo fora do eixo Sul-Sudeste.

Mulheres cirurgiãs também apontam o vácuo simbólico deixado pela primeira residente de cirurgia do HC. Em um ambiente que ainda registra desigualdades salariais e barreiras de ascensão, a presença de Angelita em cargos de chefia e em premiações internacionais funciona como senha silenciosa de que o caminho é possível. As homenagens que se articulam na USP, em sociedades de coloproctologia e em grupos de pesquisa buscam preservar essa referência para novas gerações.

O legado científico de Angelita Habr-Gama se mede em artigos, diretrizes e prêmios. O impacto humano aparece nas histórias de pacientes que atravessam o câncer de reto sem cirurgia mutilante, com mais autonomia e qualidade de vida. Entre a menina que deixa a Ilha de Marajó após a morte do irmão e a professora emérita que muda protocolos globais, há quase nove décadas de confronto diário com o que parecia dado na medicina.

A morte da cirurgiã não encerra essa disputa. As próximas decisões sobre financiamento de pesquisa, formação de especialistas e expansão de tratamentos menos invasivos dirão até onde o País está disposto a levar a herança que ela deixa. A pergunta que fica, nos corredores de hospitais e universidades, é se a inovação que nasce do inconformismo de uma pesquisadora amazônida continuará a encontrar espaço em um sistema de saúde pressionado, desigual e em transformação.

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