Não precisamos de uma nova Constituição
A proposta de uma nova Constituinte ignora os riscos de reabrir a ordem democrática e desconsidera que os problemas do país estão menos na Constituição de 1988 do que na dificuldade de cumprir o que ela determina.

Há 34 anos, em outubro de 1992, morria Ulysses Guimarães, o homem que ergueu a Constituição de 1988. Boa data para lembrar por que não precisamos de outra.
É que no calor do atual debate político ressurgiu a promessa: convocar uma Constituinte e começar de novo.
Seduz porque parece um recomeço limpo. Mas a história ensina o contrário. O Brasil já teve sete Constituições. Nossa instabilidade não se explica apenas pelos textos, mas pelas rupturas políticas que impediram a consolidação de uma tradição democrática. A de 1988 é a primeira, desde a República, a atravessar quase quatro décadas de democracia contínua. Isso é inédito.
Leia também: Sem novos atos, vingança de Adriana em ‘Quem Ama Cuida’ é contra o público
É verdade que ela nasceu de uma Constituinte. Mas havia ali uma ruptura real: a saída de um regime autoritário. Hoje não há ordem a superar, e sim uma ordem a cumprir.
Madison advertia que revisões frequentes roubam da Carta a reverência que só o tempo confere. Mesmo muito emendada, a nossa preservou seu núcleo. Se algo sobra, enxuga-se pelos meios que ela oferece. Ninguém demole a casa para trocar o encanamento.
Há ainda um risco pouco mencionado. Se a proposta é instaurar um novo poder constituinte originário, as cláusulas pétreas que protegem o voto, a separação dos Poderes e os direitos individuais deixam de funcionar como limites jurídicos à nova ordem. Não basta prometer uma Constituinte “só para a reforma política”.
A Venezuela mostra o risco: a Constituinte de 1999 desmontou os freios e contrapesos. O Chile mostra o custo: dois processos, um de esquerda e outro de direita, rejeitados nas urnas após anos de debate.
Nossos problemas não se explicam principalmente pela falta de normas, mas pela dificuldade de transformar direitos e deveres constitucionais em realidade. Falta concretizar a Constituição que temos, não inventar outra.
Na Odisseia, Ulisses pede para ser amarrado ao mastro, sabendo que ao ouvir as sereias vai desejar o que o destrói. Uma Constituição é essa amarra que um povo, em momento de lucidez, impõe a si mesmo. Desfazer o nó porque o canto ficou alto é confundir a crise com a cura. Um Ulisses se amarrou ao mastro; o outro nos deixou a amarra.
Leia também
Mais em Opinião →
Maioridade penal fica para depois e Câmara decide o ritmo; entenda o recuo de Alcolumbre e o desafio de Lula

Coperni encerra atividades após revolucionar a moda com tecnologia e desfiles icônicos
