Disputa pelo comando do Senado expõe estratégia do PL e coloca Alcolumbre diante de um teste de força em 2027
Bolsonaristas querem transformar o voto secreto em compromisso público para tentar impedir a reeleição de Davi Alcolumbre. Rogério Marinho surge como principal nome da oposição, enquanto o atual presidente amplia suas articulações com o Centrão, a esquerda e lideranças estratégicas.

A disputa pela presidência do Senado Federal em 2027 começou a ganhar contornos de uma batalha política que vai muito além da escolha do próximo presidente da Casa. De um lado, o PL pretende transformar o crescimento de sua bancada em força suficiente para assumir o comando do Senado. Do outro, Davi Alcolumbre (União-AP) trabalha para construir uma maioria que ultrapasse as divisões ideológicas e preserve sua permanência no cargo.
O principal movimento da oposição é a articulação em torno do senador Rogério Marinho (PL-RN), atual líder da oposição e ex-coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. A candidatura foi oficializada pelo PL nesta quarta-feira (4), em uma tentativa de unificar a direita e atrair parlamentares de outras legendas.
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O partido terá 29 senadores na próxima legislatura, tornando-se a maior bancada da Casa. Com os três representantes do Novo, a candidatura de Marinho parte de um núcleo potencial de 32 votos. Entretanto, para vencer a eleição, são necessários pelo menos 41 votos, considerando a composição de 81 senadores. É justamente nessa diferença que está o desafio político do PL.
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A estratégia de Marinho e a tentativa de pressionar os adversários
Uma das principais estratégias defendidas por Rogério Marinho é pressionar os senadores da direita a declararem publicamente em quem pretendem votar. A iniciativa tem um objetivo bastante claro: reduzir a margem de negociação individual de Davi Alcolumbre e impedir que parlamentares eleitos com apoio do eleitorado bolsonarista contribuam, de maneira reservada, para a reeleição do atual presidente.
Existe uma contradição importante nessa estratégia. A eleição para a presidência do Senado é realizada por voto secreto. Portanto, não há uma mudança institucional na regra de votação.
O que Marinho pretende é estimular uma espécie de compromisso político público, no qual os parlamentares assumam antecipadamente sua posição.
Na prática, o PL tenta transformar o sigilo previsto nas regras do Senado em um problema político para quem deseja apoiar Alcolumbre sem tornar essa decisão pública.
É uma tentativa de influenciar não apenas os votos, mas também o comportamento político dos próprios aliados. A dificuldade está em convencer parlamentares de partidos que possuem interesses próprios e não necessariamente pretendem entregar sua autonomia ao projeto bolsonarista.
Alcolumbre conhece o jogo e amplia sua articulação
Davi Alcolumbre já participou de diferentes disputas pelo comando do Senado. Conhece os mecanismos de negociação da Casa, possui experiência na construção de maiorias e entende que a eleição não será decidida exclusivamente pelo tamanho das bancadas.
Seu principal trunfo político é a capacidade de dialogar com diferentes campos partidários.
O atual presidente mantém interlocução com o governo Lula, possui trânsito entre partidos do Centrão e trabalha para conquistar apoio de parlamentares que não necessariamente compartilham de sua posição política ou ideológica.
A federação União Progressista já anunciou apoio à sua recondução, enquanto outros partidos e parlamentares também participam das conversas.
Alcolumbre sabe que o PL terá uma bancada expressiva, mas também sabe que possuir a maior bancada não significa, automaticamente, controlar a presidência do Senado.
É nesse contexto que sua aproximação com o presidente Lula ganha relevância.
A manutenção de Alcolumbre interessa a setores do governo federal, que encontram no atual presidente da Casa um interlocutor com capacidade de negociação e influência sobre a agenda legislativa.
Mas seria um erro interpretar essa aproximação apenas pela relação entre governo e oposição.
A presidência do Senado representa poder institucional, controle da pauta, influência sobre comissões e participação decisiva na organização política do Congresso.
Eduardo Braga entra no tabuleiro como peça estratégica
Um dos movimentos mais importantes dessa articulação foi a escolha do senador Eduardo Braga (MDB-AM) para assumir a relatoria-geral do Orçamento da União de 2027.
O anúncio foi feito em 3 de novembro, depois de uma reunião de líderes com Davi Alcolumbre.
A escolha tem peso político e institucional.
Braga é uma das principais lideranças do MDB no Senado, possui experiência em negociações nacionais e já ocupou posições centrais em debates de grande repercussão, como a reforma tributária, da qual foi relator.
Agora, terá a responsabilidade de conduzir a análise do projeto orçamentário que organiza receitas e despesas da União para o próximo ano.
Não se trata de uma função meramente técnica.
O relator-geral participa de uma das negociações mais importantes do Congresso, envolvendo prioridades governamentais, investimentos, emendas parlamentares e distribuição de recursos entre diferentes áreas.
Nesse cenário, a escolha de Braga também possui uma dimensão política.
Ao confiar uma função dessa importância ao senador amazonense, Alcolumbre valoriza uma liderança com trânsito entre diferentes partidos e reforça interlocuções que podem ser importantes na construção de sua candidatura à reeleição.
É preciso, entretanto, separar os fatos da interpretação política.
A escolha de Braga não representa, por si só, uma garantia de apoio ou um acordo formal de votos.
Mas é um movimento que evidencia a importância do diálogo com o MDB e com lideranças capazes de participar da formação de maiorias.
Para o Amazonas, a relatoria também representa a presença de um senador do estado em uma das posições mais relevantes da agenda legislativa nacional.
O peso de Flávio Bolsonaro e o problema da liderança à distância
Outro elemento que interfere nessa disputa é a situação política de Flávio Bolsonaro.
O senador, que disputou a Presidência da República pelo PL, está nos Estados Unidos depois do resultado eleitoral e anunciou que pretende participar da oposição ao governo Lula.
Sua ausência do país, entretanto, cria dificuldades para a articulação política que vinha sendo construída em torno de sua liderança.
Rogério Marinho foi um dos principais responsáveis pela coordenação da campanha de Flávio e esperava que ele assumisse protagonismo na organização da oposição no Senado.
Agora, o PL precisa demonstrar que possui força própria para conduzir a disputa institucional, independentemente da presença física de Flávio em Brasília.
A questão é saber até que ponto a liderança política exercida à distância será suficiente para manter a unidade de uma bancada numerosa, mas que reúne interesses e projetos individuais.
A política do Senado exige presença, negociação direta, construção de acordos e capacidade de administrar interesses divergentes.
A maior bancada não significa necessariamente a presidência
A eleição de fevereiro de 2027 será um teste importante para a direita brasileira e, principalmente, para o PL.
O partido conquistou uma posição expressiva na composição do próximo Senado, mas precisará converter esse resultado em apoio de outras legendas.
Nas articulações da oposição, há a expectativa de conquistar votos de parlamentares do Republicanos, PP, MDB, Podemos e PSD.
Entretanto, essas projeções dependem de negociações que ainda estão em andamento.
Além disso, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) também aparece como um nome possível na disputa, o que demonstra que a própria direita não está completamente unificada em torno de uma candidatura.
Marinho e Tereza Cristina mantêm conversas sobre a possibilidade de construir um entendimento para evitar a divisão de votos entre os dois.
O desafio de Marinho não é apenas enfrentar Alcolumbre. É convencer os demais partidos de que uma presidência do Senado sob comando do PL será capaz de respeitar os espaços políticos e os interesses das diferentes bancadas.
Alcolumbre, por sua vez, trabalha com uma lógica diferente.
Em vez de apostar exclusivamente em uma identidade ideológica, procura reunir votos a partir da capacidade de negociação e da distribuição de espaços institucionais.
O que está realmente em jogo
A disputa pelo Senado revela uma questão central da política brasileira: a diferença entre força eleitoral e força institucional.
O PL chega a 2027 com uma bancada numerosa e uma capacidade de pressão considerável. Mas Alcolumbre possui a vantagem de estar no exercício da presidência, conhecer os caminhos da Casa e manter interlocução com setores que vão do governo federal ao Centrão.
A escolha de Eduardo Braga para relatar o Orçamento de 2027 se encaixa nesse cenário.
O senador amazonense passa a ocupar uma posição estratégica em um momento no qual a construção de maiorias se torna decisiva.
O movimento de Marinho para pressionar parlamentares a revelar seus votos também demonstra que o PL reconhece a dificuldade de transformar sua força numérica em maioria efetiva.
No fim, a eleição não será decidida apenas por quem possui mais senadores, mas por quem consegue construir uma aliança capaz de reunir pelo menos 41 votos.
Alcolumbre já começou a movimentar suas peças. O PL também está fazendo sua parte. E Eduardo Braga, mais uma vez, aparece em uma posição de relevância nas articulações nacionais.
A disputa permanece aberta. Nos bastidores do Senado, a eleição marcada para 1º de fevereiro de 2027 já mobiliza partidos e lideranças muito antes da abertura das urnas.


