Motta resiste a votar projeto de dívidas rurais de R$ 140 bi
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), indica resistência a votar, em junho de 2026, o projeto de renegociação de dívidas rurais aprovado pelo Senado. A proposta prevê alívio bilionário para produtores, mas é tratada como “pauta-bomba” pelo impacto de R$ 140 bilhões em dez anos.
Ligação reservada expõe atrito entre cúpulas de Câmara e Senado
A tensão começa em uma ligação discreta, feita antes mesmo da votação no Senado. Davi Alcolumbre (União-AP), presidente da Casa, procura Motta para medir o terreno na Câmara. Queria saber se, uma vez aprovada pelos senadores, a proposta teria caminho livre no outro lado da Praça dos Três Poderes.
Do outro lado da linha, o deputado paraibano evita compromisso. Segundo relatos, Motta afirma que não conhece “direito” o texto e, portanto, não crava a inclusão em pauta. O recado soa claro em Brasília: a Câmara não tem pressa para abraçar um projeto com impacto estimado em R$ 140 bilhões em dez anos, num momento em que o governo enfrenta pressões para segurar o déficit público.
O gesto contrasta com o apetite do Senado em ampliar benefícios a produtores rurais, um dos segmentos mais organizados do país, com forte influência nas bancadas regionais. A votação ocorres no dia 10 de junho e é apresentada por seus defensores como resposta às dificuldades de crédito e endividamento acumulado no campo.
O histórico recente pesa na cautela de Motta. Em 2025, a Câmara só aprova um projeto semelhante porque o foco está em agricultores atingidos pelas enchentes no Rio Grande do Sul. Na ocasião, a renegociação mira produtores diretamente afetados pela tragédia climática, em um contexto de comoção nacional e cobrança por resposta rápida do Congresso e do Executivo.
Naquele debate, o deputado Domingos Neto (PSD-CE) tenta ampliar o alcance da ajuda para o Nordeste, também marcado por perdas recorrentes, mas provocadas sobretudo por seca prolongada. A emenda, porém, não prospera. O próprio Motta atua para barrar a ampliação, argumentando nos bastidores que a proposta abriria espaço para um rombo maior nas contas públicas.
Impacto fiscal bilionário trava alívio a produtores rurais
O novo projeto aprovado no Senado é mais amplo e menos focalizado do que o pacote emergencial de 2025. Em vez de mirar regiões ou catástrofes específicas, a proposta abre uma janela de renegociação generosa para um universo maior de dívidas rurais, acumuladas em diferentes programas de crédito. A estimativa de custo chega a R$ 140 bilhões em dez anos, valor que pressiona qualquer tentativa de ajuste fiscal.
Na prática, esse tipo de medida funciona como um perdão parcial ou reescalonamento de dívidas, com prazos alongados e descontos relevantes em juros e multas. Cada contrato renegociado representa receita que o Tesouro deixa de receber. Em larga escala, essa renúncia limita a capacidade do governo de investir em outras áreas, como saúde, educação e infraestrutura.
Integrantes da área econômica classificam proposições desse tipo como “pauta-bomba” porque, apesar de populares entre beneficiários diretos, elas estouram o planejamento orçamentário de médio e longo prazos. A resistência de Motta ecoa esse diagnóstico. Em conversas reservadas, aliados repetem o argumento de que não há “espaço” para um programa desse tamanho sem cortes em outras frentes ou aumento de impostos.
Produtores endividados, especialmente médios e grandes, veem na proposta uma chance de reorganizar balanços e manter operações em um cenário de juros elevados e clima instável. O agronegócio segue como motor relevante do PIB brasileiro, mas a combinação de custos mais altos, oscilações de preços internacionais e eventos climáticos extremos aperta margens e dificulta o pagamento de financiamentos contratados em anos de safra melhor.
Para pequenos agricultores, eventuais benefícios podem significar sobrevivência, sobretudo em regiões sujeitas a seca, enchentes ou perda de safras. A indefinição na Câmara, porém, prolonga a insegurança. Cooperativas e entidades de classe calculam cenários e pressionam parlamentares, enquanto a equipe econômica tenta evitar novos compromissos fiscais que ameacem a credibilidade das metas orçamentárias.
Calendário político, pressão do agro e futuro do projeto
A decisão de Motta de não dar garantias a Alcolumbre abre um impasse entre as cúpulas de Câmara e Senado. O projeto chega à Casa com o carimbo de prioridade de parte dos senadores, mas esbarra num calendário apertado, repleto de outras votações com impacto imediato sobre o caixa do governo e a agenda eleitoral.
Nos bastidores, líderes partidários avaliam cenários. Uma possibilidade é fatiar a proposta, restringindo a renegociação a segmentos mais vulneráveis ou a regiões atingidas por desastres recentes, como enchentes e estiagens severas. Outra saída seria condicionar a votação a uma compensação clara, seja por corte de gastos em outras áreas, seja por aumento de receitas, o que enfrenta forte resistência no Congresso.
O Planalto acompanha a movimentação com cautela. O governo Luiz Inácio Lula da Silva busca preservar a relação com o agronegócio sem abrir mão do discurso de responsabilidade fiscal, depois de um 2025 marcado por disputas em torno do novo arcabouço e de metas de resultado primário. Qualquer sinal de descontrole nas contas públicas tende a afetar a percepção de investidores e o custo de financiamento da dívida brasileira.
Davi Alcolumbre, por sua vez, tenta evitar o desgaste de ver uma pauta patrocinada pelo Senado estacionar na Câmara. A ligação a Motta, antes da votação, revela a preocupação em não aprovar uma proposta que morra na gaveta. Ao insistir na tramitação, ele testa até onde vai a disposição de a Câmara absorver mais um pacote de renúncia fiscal num ambiente já tensionado por demandas de diferentes setores.
O destino do projeto depende da forma como a Câmara costurará um acordo que equilibre a pressão do campo e a matemática do orçamento. Se avançar sem mudanças, tende a acentuar a disputa em torno da responsabilidade fiscal e abrir espaço para novos vetos presidenciais. Se for desidratado, poderá frustrar parte do eleitorado rural, que acompanha de perto cada sinal vindo de Brasília em busca de um alívio que, por enquanto, continua incerto.
