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Moraes manda prender núcleo 2 de trama golpista e mira uso da PRF

O ministro Alexandre de Moraes determina, nesta sexta (24), a prisão de integrantes do chamado “núcleo 2” da trama golpista. O grupo reúne ex-integrantes do governo Bolsonaro acusados de planejar golpe de Estado, assassinatos de autoridades e o uso da Polícia Rodoviária Federal para interferir no segundo turno das eleições de 2022.

Rede paralela no coração do Estado

A decisão atinge figuras que circulam no topo da máquina pública federal durante o governo Jair Bolsonaro (PL). Entre elas estão o ex-diretor-geral da PRF, Silvinei Vasques, o ex-assessor internacional Filipe Martins, o coronel da reserva Marcelo Costa Câmara, a ex-diretora de Inteligência do Ministério da Justiça Marília Ferreira e o general Mário Fernandes, ex-secretário-executivo da Secretaria-Geral da Presidência.

Moraes acolhe parte das conclusões da Procuradoria-Geral da República, que descreve uma espécie de “núcleo operacional” da trama golpista. Não são os formuladores originais do projeto de ruptura institucional, mas os responsáveis por transformar ideias em planos concretos: do texto do decreto de exceção ao uso direcionado de órgãos de Estado.

A PGR afirma que esse grupo ajuda a elaborar a chamada “minuta do golpe”, documento que prevê medidas de exceção para manter Bolsonaro no poder após a derrota nas urnas em 30 de outubro de 2022. Também atribui aos acusados o planejamento de assassinatos de autoridades e o uso da estrutura da PRF para atrapalhar o deslocamento de eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na reta final da disputa.

A ordem de prisão é tornada pública em 24 de abril de 2026, quase três anos e meio depois do segundo turno. Nesse intervalo, inquéritos se desdobram, delações são colhidas e depoimentos vão detalhando, peça a peça, a engrenagem que sustentou a tentativa de ruptura institucional.

Planejamento de assassinatos e desvio da PRF

O general Mário Fernandes, que ocupa o segundo cargo mais importante da Secretaria-Geral da Presidência, surge no centro da acusação de violência política. Em interrogatório, ele admite ter redigido o chamado Plano Punhal Verde e Amarelo, documento que prevê o assassinato de Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e do próprio Moraes. Segundo a PGR, Fernandes também atua como elo entre o Planalto e os grupos que mantêm acampamentos em frente a quartéis e pedem intervenção militar após a eleição.

Marília Ferreira, então diretora de Inteligência do Ministério da Justiça, é apontada como responsável por acionar um projeto de análise de dados para mapear, município a município, onde Lula vence no primeiro turno. De acordo com a acusação, essas informações servem para orientar operações da PRF no segundo turno, com foco em regiões consideradas hostis a Bolsonaro. Os bloqueios e abordagens em rodovias, no dia 30 de outubro de 2022, acabam concentrados em áreas de forte votação em Lula, sobretudo no Nordeste.

Silvinei Vasques, que já recebe pena de 24 anos e seis meses de prisão em outro processo, é descrito como o executor dessa estratégia dentro da PRF. Testemunhas relatam que ele afirma, em reuniões internas, que é “hora de a PRF tomar um lado”. A corporação monta operações amplas em dia de votação, em contraste com normas eleitorais que recomendam evitar ações que possam atrasar ou impedir o voto.

Filipe Martins, assessor de Assuntos Internacionais que se torna figura influente no entorno mais próximo de Bolsonaro, é acusado de levar ao então presidente a minuta do decreto de estado de defesa fora das regras da Constituição. A PGR sustenta que ele ajusta o texto a pedido de Bolsonaro, incluindo um dispositivo que pede a prisão de Moraes, e participa de reuniões com comandantes das Forças Armadas para tentar obter apoio ao golpe.

O coronel Marcelo Costa Câmara, ex-assessor da Presidência, aparece ligado ao núcleo mais agressivo da organização. A acusação o aponta como responsável por coordenar ações de monitoramento e supostos planos de assassinato de autoridades, com ênfase em Moraes. Caberia a ele levantar dados sensíveis sobre alvos e rotinas, para alimentar as etapas mais violentas do projeto golpista.

O conjunto das condutas, segundo Moraes, ultrapassa divergências políticas e entra no campo de uma conspiração estruturada. A decisão destaca que o uso dirigido de órgãos de Estado, como a PRF e unidades de inteligência, ameaça o próprio princípio de neutralidade da administração pública em eleições.

Defesa contesta, Judiciário endurece

As defesas dos investigados insistem que não há provas suficientes para uma condenação e pedem a rejeição da denúncia. Sustentam que seus clientes não têm poder formal para praticar muitos dos atos descritos pela PGR e apontam falhas na narrativa da acusação. Advogados afirmam, em petições, que a investigação mistura opiniões políticas, condutas administrativas contestáveis e especulações sobre intenções, sem demonstrar ligação direta com uma tentativa de golpe.

Moraes adota linha oposta. Para o ministro, a sucessão de atos, mensagens e encontros revelada nos inquéritos cria um quadro de “perigo atual à ordem democrática”. Ele escreve que a permanência desses investigados em liberdade facilita novos contatos, destruição de provas e pressão sobre testemunhas. O ministro cita, ainda, a gravidade do suposto planejamento de assassinatos de chefes de Poderes como fator que justifica a medida mais dura.

A decisão se insere em um momento de tensão no Supremo. Nos últimos meses, ministros divergem em público sobre os limites da investigação das chamadas “fake news” e dos atos antidemocráticos. Gilmar Mendes, por exemplo, diz em entrevista recente que não seria “razoável” encerrar agora o inquérito das notícias falsas, o que indica que a corte ainda enxerga risco real de novas ofensivas contra as instituições.

No plano político, a nova rodada de prisões pressiona aliados de Bolsonaro que seguem sob investigação, mas ainda sem denúncia formal. Cada avanço nos processos do “núcleo 2” amplia o cerco sobre o que investigadores chamam de “núcleo 1”, composto por formuladores do projeto golpista e por quem detinha comando formal do governo à época.

Democracia em teste e próximos passos

A prisão dos integrantes do núcleo operacional marca um ponto de inflexão na resposta institucional às tentativas de golpe de 2022. O recado, ao final, é duplo: o Estado busca punir o desvio de sua própria máquina e tenta reconstruir a confiança de que forças de segurança e órgãos de inteligência não podem ser instrumentalizados por governos de ocasião.

Na prática, o avanço do processo deve influenciar futuras reformas no sistema de segurança pública e na governança de dados do Estado. Projetos no Congresso discutem novas travas para o uso eleitoral de estruturas policiais e de inteligência, além de mecanismos para separar, de forma mais rígida, comandos políticos e técnicos. O Supremo ainda precisa julgar o mérito das acusações, definir se transforma as prisões em penas definitivas e estabelecer parâmetros para casos semelhantes que possam surgir. A pergunta que paira é se o sistema de Justiça conseguirá, ao mesmo tempo, punir os desvios de 2022 e evitar que a resposta institucional seja usada, no futuro, como arma em novas disputas de poder.

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