Monique nega participação na morte de Henry em depoimento de 6 horas
Monique Medeiros passa seis horas diante do Tribunal do Júri, no Rio de Janeiro, na tarde desta quarta-feira (3), para negar participação na morte do filho, Henry Borel. Acusada de homicídio triplamente qualificado, ela afirma que é inocente e tenta se descolar da imagem de mãe omissa construída desde 2021.
Depoimento longo em caso que choca o país
A sessão começa pouco depois das 10h, no centro do Rio, e se estende até o fim da tarde. Durante todo o depoimento, Monique mantém o foco em um ponto: “Eu não matei o meu filho, eu nunca faria mal ao Henry”, repete em diferentes momentos, em resposta às perguntas de defesa, acusação e jurados.
O julgamento ocorre mais de cinco anos após a morte de Henry, em março de 2021, e carrega o peso de um caso que mobiliza o país desde o primeiro boletim de ocorrência. A figura da mãe sentada no banco dos réus, ao lado de advogados, sob o olhar fixo de sete jurados, sintetiza a dimensão simbólica do processo. A cada nova pergunta sobre a madrugada em que o menino de 4 anos morre, o plenário volta ao apartamento da Barra da Tijuca, zona oeste da cidade, cenário da tragédia.
Monique procura reconstruir aquela noite em detalhes. Fala da rotina de Henry, das idas e vindas entre o quarto do casal e o quarto da criança, do que diz perceber tarde demais como sinais de um problema maior. “Eu não entendi o que estava acontecendo. Se eu soubesse, eu teria agido antes”, afirma, em tom que alterna choro e pausa calculada.
O Ministério Público insiste na tese de que Monique sabe das agressões e escolhe silenciar. A acusação sustenta que a mãe tem papel decisivo, seja por ação, seja por omissão, na sequência de episódios que culminam na morte do menino, em 8 de março de 2021. Promotores lembram que laudos apontam múltiplas lesões no corpo de Henry, incompatíveis com uma simples queda, e que o histórico do casal é marcado por relatos de violência doméstica.
No plenário, a estratégia da defesa é rebater esse roteiro ponto a ponto. Advogados destacam contradições de testemunhas, questionam a interpretação dos laudos e tentam isolar Monique da figura do ex-companheiro, também acusado. A linha central é apresentar a ré como vítima de um ciclo de violência psicológica, com medo de reagir e de enfrentar o parceiro. “Eu estava acuada, com medo, sem saber em quem confiar”, diz ela, buscando explicar por que não rompe a relação antes e por que, nas primeiras horas após a morte, adota um discurso alinhado ao dele.
Violência doméstica, proteção infantil e pressão social
O julgamento de Monique não é apenas um processo criminal. A cada nova sessão, a morte de Henry reacende discussões sobre violência doméstica, proteção infantil e responsabilidade familiar. Organizações de defesa dos direitos da criança acompanham o caso desde 2021 e apontam falhas na rede de proteção. Em diferentes manifestações, ativistas denunciam o que veem como demora do Estado em detectar sinais de risco e intervir.
A comoção em torno da história de Henry ultrapassa os limites do tribunal. Nas redes sociais, grupos se organizam desde os primeiros dias do inquérito, em 2021, divididos entre pedidos de punição exemplar e manifestações que pedem cautela diante da exposição da mãe. A cada decisão judicial, o debate volta a dominar programas de TV, rádios e sites de notícia, alimentando um ciclo de repercussão que pressiona os atores do processo.
Monique chega ao tribunal sob escolta, mas também sob vigilância pública. Desde que se torna ré, sua imagem é disputada por narrativas antagônicas. Para parte da opinião pública, ela simboliza o fracasso extremo do dever de cuidado. Para outra parcela, é retratada como mais uma mulher em situação de violência, julgada com base em expectativas morais sobre maternidade ideal. Esse embate de visões atravessa o plenário e se reflete nas perguntas dirigidas à ré.
O caso expõe brechas do sistema de proteção infantil no Brasil. Dados do Ministério dos Direitos Humanos indicam mais de 180 mil denúncias de violência contra crianças e adolescentes por ano nos últimos ciclos, com subnotificação reconhecida por especialistas. No tribunal, a história de um menino morto em um apartamento de classe média expõe o quanto o país ainda falha em identificar sinais de abuso mesmo em contextos com acesso a serviços de saúde, escola particular e convivência em condomínios vigiados.
Juristas acompanham com atenção a forma como o júri lida com a figura da mãe acusada. A decisão dos sete jurados tende a produzir reflexos que vão além deste caso. Uma condenação dura reforça a ideia de responsabilização máxima de cuidadores em ambiente doméstico. Uma absolvição, total ou parcial, pode ser lida como reconhecimento da complexidade das relações atravessadas por violência de gênero e poder econômico. Em ambos os cenários, especialistas preveem impacto na interpretação de futuros processos envolvendo morte de crianças dentro de casa.
Julgamento entra em fase decisiva
Com o fim do depoimento de Monique, o julgamento entra em fase decisiva. Nas próximas sessões, o Tribunal do Júri ouve as últimas testemunhas, passa aos debates entre acusação e defesa e, por fim, à votação dos jurados. A expectativa é de que o veredito saia ainda neste mês, mas a duração exata depende do ritmo de oitivas e das intervenções das partes.
O impacto do caso já se faz sentir fora do fórum. Entidades de proteção à infância pressionam por protocolos mais rígidos de atendimento em hospitais e escolas, com exigência de notificação imediata a conselhos tutelares diante de qualquer suspeita de agressão. No Legislativo, parlamentares retomam propostas de endurecimento de penas para crimes contra crianças e de ampliação de equipes de assistência social.
Monique deixa o plenário depois das 18h, visivelmente abatida, mas reafirmando a mesma frase que guia sua defesa desde o início do julgamento: “Eu quero justiça para o meu filho e para mim”. A reação dos jurados permanece desconhecida, protegida pelo sigilo das votações. O país acompanha à distância, em tempo real, um caso que testa a capacidade do sistema de justiça de responder à dor coletiva sem perder de vista garantias individuais. O veredito, quando vier, não encerra a tragédia, mas definirá, para o tribunal e para a sociedade, de quem é a responsabilidade pela morte de Henry Borel.
