Ciencia e Tecnologia

Mistura química da pele explica por que mosquitos preferem algumas pessoas

Uma mistura complexa de odores corporais, moldada por micro-organismos da pele, ajuda a explicar por que mosquitos picam algumas pessoas mais que outras, indicam pesquisadores do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), na França. Os resultados, divulgados nesta terça-feira (16), detalham compostos específicos que tornam certos corpos muito mais atraentes para espécies que transmitem dengue, zika e malária.

Cheiro, calor e álcool entram no alvo dos cientistas

O trabalho, conduzido em laboratório e em campo por equipes na França e em países africanos, parte de uma constatação simples para um problema global. Nem todo mundo sofre do mesmo jeito com as picadas, embora os mosquitos matem mais de 700 mil pessoas por ano no mundo, segundo estimativas da OMS, principalmente por malária e arboviroses como dengue e febre amarela.

Os pesquisadores mostram que, além do dióxido de carbono que exalamos ao respirar, a microbiota humana — o conjunto de bactérias que vive na pele — tem papel decisivo na atração. “Não é um mito: não somos todos iguais diante do apetite dos mosquitos. Mas também não somos ímãs o tempo todo”, afirma Frédéric Simard, diretor de estudos do IRD, no sudeste da França.

Os cientistas descrevem um roteiro sensorial preciso. A dezenas de metros de distância, os mosquitos detectam o CO₂ e passam a voar em direção à fonte. A cerca de dez metros, entram em cena os odores corporais, que se somam ao gás e refinam a escolha do alvo. “Sabemos há mais de cem anos que os mosquitos se sentem atraídos pelo dióxido de carbono que exalamos: é o primeiro sinal que desencadeia seu comportamento”, explica o entomologista Rickard Ignell, autor de um dos estudos citados.

Na pele humana, estudos recentes contabilizam entre 300 e 1.000 compostos odoríferos diferentes. A maior parte nasce da degradação de gorduras e secreções pela microbiota. Pequenas variações nessa química, provocadas por genética, alimentação, hormônios ou medicamentos, podem transformar uma pessoa em alvo preferencial.

As crenças populares, porém, não se confirmam. Diferenças entre grupos sanguíneos não se sustentam em amostras grandes, e não há evidência robusta de que cor da pele, dos olhos ou dos cabelos determine o número de picadas. “Um fator fundamental de atração é, sem dúvida, o cheiro, uma mistura de moléculas produzida por nossa microbiota e mais ou menos atrativa para os mosquitos”, diz Simard.

Compostos da pele, gravidez e cerveja na mira da ciência

Em um dos experimentos, a equipe de Ignell avaliou 42 mulheres em testes controlados com o mosquito Aedes aegypti, vetor de dengue, febre amarela, chikungunya e zika. Fluxos de ar carregando odores corporais foram oferecidos aos insetos em canais separados, o que permitiu comparar o “grau de atratividade” de cada voluntária sem que os animais as vissem.

Os pesquisadores identificam 27 compostos que o Aedes consegue detectar e mostram que a combinação dessas substâncias determina o quanto cada pessoa se torna sedutora para os insetos. As mulheres mais atraentes, sobretudo as que estão no segundo trimestre de gravidez, liberam um pouco mais de um derivado da degradação do sebo, o 1-octen-3-ol, também conhecido como álcool de fungo.

O aumento mensurável é discreto, mas suficiente para mudar o comportamento dos mosquitos. “O fato de que um aumento tão pequeno na dose de 1-octen-3-ol mude o comportamento desses insetos foi uma das surpresas”, afirma Ignell. Para ele, a sensibilidade extrema dos receptores olfativos mostra por que os mosquitos “são criaturas fascinantes”.

Os dados ajudam a explicar por que gestantes costumam relatar mais picadas. Na gravidez, o volume sanguíneo aumenta, a pele tende a ficar um pouco mais quente e o padrão de odores se altera. Esse conjunto de fatores, combinado ao pico de circulação de Aedes em meses quentes e úmidos, eleva o risco em uma população que já é classificada como grupo de atenção em surtos de dengue e zika.

O estilo de vida também entra na equação. Estudos citados pelos pesquisadores sugerem que o consumo de álcool torna o corpo mais convidativo. Beber cerveja aumenta a temperatura corporal, a quantidade de CO₂ exalado e modifica o cheiro da pele. Em Burkina Faso, um experimento simples com voluntários que ingerem uma cerveja local e, em outro dia, a mesma quantidade de água mostra que o Anopheles, vetor da malária, prefere os odores de quem consumiu álcool.

Os resultados têm peso especial em 2026. O mosquito-tigre, Aedes albopictus, que carrega vírus como dengue e chikungunya, avança para áreas antes livres do inseto, impulsionado por aquecimento global, urbanização acelerada e circulação internacional de mercadorias. “O risco afeta cada vez mais pessoas e também mais países onde há dinheiro para se proteger, o que gera financiamento e resultados de pesquisas”, avalia Simard.

Da química da pele a novos repelentes e políticas públicas

O mapa químico da atração de mosquitos abre uma frente direta na saúde pública. Ao entender quais moléculas funcionam como chamariz em níveis muito baixos, laboratórios podem desenhar repelentes mais específicos, que bloqueiem receptores sensíveis a compostos como o 1-octen-3-ol. Em vez de fórmulas genéricas, a expectativa é chegar a produtos adaptados a contextos de risco, como áreas endêmicas de malária ou bairros com circulação intensa de dengue.

Especialistas veem também uma oportunidade para estratégias personalizadas. Grupos mais vulneráveis, como grávidas, crianças pequenas e moradores de regiões com surtos recorrentes, podem receber orientações sob medida. Recomendações simples, como roupas compridas e folgadas, uso de mosquiteiros e aplicação correta de repelentes, ganham reforço com hábitos de vida menos óbvios: evitar refeições muito pesadas à noite em áreas infestadas e consumir álcool com moderação.

Governos e entidades de saúde acompanham esse movimento de perto. O avanço do mosquito-tigre na Europa e na América do Sul já força países a rever calendários de fumacê, programas de eliminação de criadouros e campanhas de comunicação. Ao mostrar que a atração começa a dezenas de metros, com CO₂, e se intensifica com a química única da pele de cada indivíduo, os estudos reforçam a necessidade de ações combinadas, que vão do saneamento à proteção individual.

Pesquisadores apostam que, nos próximos anos, parte desse conhecimento se transforme em testes rápidos de risco, baseados no perfil de odores da pele e na microbiota de cada pessoa. Outro caminho em estudo é ajustar a própria comunidade de micro-organismos cutâneos com cosméticos ou probióticos tópicos, de modo a tornar o corpo menos atraente para os insetos sem interferir diretamente no sistema imunológico.

Enquanto essas soluções não chegam, o conselho ainda é pragmático. Em noites quentes de verão, com Aedes e Anopheles circulando mais, vale combinar barreiras físicas, produtos repelentes e alguma disciplina nos hábitos, especialmente para quem vive em áreas de transmissão ativa. A mistura química que revela por que alguns viram alvo constante não se altera de um dia para o outro, mas a forma como cada um se expõe a ela pode reduzir, ou ampliar, o interesse dos mosquitos.

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