Microsoft revela chip quântico Majorana 2 e antecipa meta para 2029
A Microsoft apresenta nesta terça-feira (2), na conferência Build em São Francisco, o chip de computação quântica Majorana 2. O novo componente, com 12 qubits topológicos e uso intensivo de inteligência artificial, permite que a empresa antecipe em cinco anos a meta de lançar um computador quântico comercialmente viável. O alvo agora é 2029.
Salto de estabilidade e corrida pela utilidade
O Majorana 2 marca a segunda tentativa pública da Microsoft de mostrar que sua aposta em qubits topológicos não é apenas uma curiosidade de laboratório. A empresa afirma que o novo chip mantém seus qubits estáveis por mais de 20 segundos, um salto em relação aos menos de 12 milissegundos do modelo anterior, lançado há um ano sob forte ceticismo da comunidade científica.
Esse aumento de estabilidade é decisivo para aproximar a tecnologia do uso prático. Qubits são as unidades básicas de informação em computadores quânticos e, ao contrário dos bits tradicionais, podem existir em mais de um estado ao mesmo tempo. Na prática, isso permite que uma máquina quântica explore muitas possibilidades de cálculo de forma simultânea, o que abre caminho para resolver problemas que hoje são inalcançáveis mesmo para supercomputadores.
O ganho, porém, só faz sentido se os qubits se mantêm estáveis tempo suficiente para completar as operações sem se desintegrar em ruído. É nesse ponto que a Microsoft concentra sua narrativa de avanço. O Majorana 2 traz 12 qubits topológicos, contra 8 da geração anterior, mas o número, por si só, não impressiona em um cenário em que rivais como Google e IBM exibem processadores com dezenas ou centenas de qubits convencionais.
O diferencial, segundo a companhia, está na arquitetura. Os qubits topológicos se baseiam em quasipartículas inspiradas nos trabalhos do físico italiano Ettore Majorana e prometem ser inerentemente mais resistentes a erros. Para aumentar essa resiliência, o novo chip abandona conectores de alumínio e adota um supercondutor de chumbo, material que ajuda a preservar o delicado estado quântico por mais tempo.
“Com base nesse rápido progresso, estamos acelerando nosso roteiro”, afirma Chetan Nayak, executivo da Microsoft responsável por hardware quântico. “Reduzimos nosso cronograma pela metade e agora pretendemos atingir essa meta até 2029.” A empresa evita divulgar detalhes completos do desenho do chip, mas insiste que os resultados internos indicam um ponto de inflexão no projeto.
IA no laboratório e supervisão da DARPA
O Majorana 2 nasce em um momento em que a própria forma de fazer pesquisa muda. A Microsoft integra ao desenvolvimento do chip um conjunto de agentes de inteligência artificial, sistemas capazes de analisar dados experimentais, sugerir ajustes e coordenar a colaboração entre equipes. Segundo a empresa, essa automação inteligente encurta ciclos de teste que antes levavam semanas para poucos dias ou horas.
“A inteligência artificial agenciada permeou quase tudo o que fazemos — tornou-se uma parte muito natural do nosso fluxo de trabalho”, diz Nayak. A aposta é que esse apoio algorítmico ajude a superar gargalos clássicos da computação quântica, como a correção de erros, a escalabilidade de hardware e a integração com sistemas clássicos.
A empresa tenta também blindar o projeto de críticas que marcaram a estreia da primeira geração do Majorana. Em 2025, pesquisadores contestam as evidências apresentadas pela Microsoft e estudos quânticos apoiados pela companhia acabam retratados em revistas científicas. O episódio alimenta dúvidas sobre a solidez dos resultados e pressiona a equipe por mais transparência.
Para responder a esse histórico, a Microsoft abre os bastidores para um interlocutor específico. Em vez de publicar todos os dados na literatura aberta, a empresa compartilha integralmente as informações técnicas do Majorana 2 com a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA), do Pentágono. O órgão analisa o avanço semanalmente.
“Expusemos todos os nossos dados a eles, tudo”, afirma o pesquisador Zulfi Alam, em teleconferência com jornalistas. Ele admite que não faria sentido comercial entregar esse nível de detalhe a concorrentes ou laboratórios independentes, mas sustenta que a chancela da DARPA funciona como um selo de confiança para governos e grandes clientes corporativos.
A parceria com a agência militar sinaliza que o interesse em computação quântica vai muito além da academia e das big techs. Segurança nacional, criptografia defensiva e ofensiva e simulações de sistemas complexos, como redes elétricas ou cadeias de suprimentos, estão no centro das disputas em torno da tecnologia.
Impacto potencial e disputa de caminhos
Uma máquina quântica útil, capaz de executar tarefas específicas com vantagem clara sobre computadores clássicos, pode mexer com setores inteiros. Bancos e fundos de investimento veem na tecnologia uma ferramenta para otimizar carteiras e avaliar risco em tempo real. Empresas farmacêuticas apostam em simulações moleculares para reduzir em anos o desenvolvimento de novos medicamentos. Indústrias de energia buscam modelos mais precisos para previsão de demanda e planejamento de redes.
A criptografia aparece como o campo mais sensível. Algoritmos de segurança amplamente usados hoje, como RSA, se tornam vulneráveis diante de computadores quânticos grandes e confiáveis. Governos e empresas correm para adotar padrões de criptografia pós-quântica, desenhados para resistir a esse tipo de ataque, ao mesmo tempo em que monitoram de perto anúncios como o da Microsoft.
Concorrentes seguem caminhos diferentes. O Google investe em processadores com muitos qubits físicos e estratégias agressivas de correção de erro. A IBM aposta em uma rota de aumento gradual de escala, com roadmaps públicos até o fim da década. A Microsoft insiste na via dos qubits topológicos, mais difíceis de construir, mas potencialmente mais estáveis, o que reduziria a necessidade de redundância e correção intensa de erros.
Nesse cenário, o salto de menos de 12 milissegundos para mais de 20 segundos de estabilidade no Majorana 2 se torna um argumento de peso. Se os resultados se confirmam fora dos laboratórios da empresa, a abordagem topológica ganha tração e pode redefinir a hierarquia da corrida quântica. Caso as promessas se mostrem exageradas, a Microsoft volta a enfrentar o fantasma do hype.
Os efeitos econômicos também são assimétricos. Empresas que dominam algoritmos quânticos úteis antes das rivais tendem a concentrar ganhos de eficiência e informação. Cadeias industriais inteiras podem se reorganizar em torno de quem tem acesso a essa capacidade de cálculo, criando novas dependências tecnológicas e geopolíticas.
Próximos passos e dúvidas em aberto
O anúncio em São Francisco inaugura uma nova fase do roteiro público da Microsoft para a computação quântica. A meta declarada é chegar até 2029 com um computador quântico “comercialmente viável”, capaz de resolver problemas de alto impacto em setores como finanças, energia e saúde e disponível para clientes por meio da nuvem.
Até lá, a empresa precisa mostrar que consegue escalar de 12 qubits topológicos estáveis para centenas ou milhares, sem perder a robustez que hoje apresenta como trunfo. Precisa ainda convencer uma comunidade científica desconfiada de que aprendeu com os tropeços recentes e que os dados avaliados pela DARPA resistem ao escrutínio mais amplo quando forem divulgados.
A próxima etapa envolve integrar o Majorana 2 à infraestrutura de nuvem da Microsoft e desenvolver ferramentas de software que permitam a programadores comuns explorar os recursos quânticos sem se tornar especialistas em física. Em paralelo, a empresa trabalha com parceiros industriais para identificar os primeiros casos de uso que justifiquem o investimento pesado em uma tecnologia ainda experimental.
O avanço anunciado hoje acelera a corrida e pressiona rivais a responder. A pergunta que permanece é se os 20 segundos de estabilidade do Majorana 2 vão se traduzir em vantagem concreta fora do ambiente controlado da Microsoft ou se o setor ainda enfrenta uma longa travessia até o primeiro computador quântico realmente útil.
