Merz critica estratégia de Trump em negociações de paz com o Irã
O chanceler alemão, Friedrich Merz, critica abertamente, nesta segunda-feira (27.abr.2026), a condução das negociações de paz entre Estados Unidos e Irã. Em declarações públicas, ele questiona a estratégia do ex-presidente Donald Trump para encerrar a guerra e afirma que Washington comete erros que custam caro à sua posição no Oriente Médio.
Críticas de um aliado em meio à guerra
Merz não fala a partir da margem do debate internacional. À frente do governo da maior economia da Europa, ele expõe falhas na abordagem americana em um momento de tensão crescente no Golfo Pérsico. O chanceler afirma que a Casa Branca se apoia em pressão máxima e gestos de improviso, enquanto Teerã explora cada brecha com cálculo milimétrico.
Segundo ele, a condução do processo desde o início do conflito abre espaço para avanços iranianos na frente diplomática e militar. O chanceler aponta que, ao romper acordos anteriores e alternar ameaças com ofertas pouco claras, Washington entrega ao Irã a narrativa de que cumpre a lei internacional, enquanto o Ocidente muda de posição a cada poucos meses.
Tensões acumuladas e oportunidade perdida
Merz lembra que, desde o agravamento das hostilidades, em meados da década, as negociações se concentram em cessar-fogo pontuais, sem um roteiro sólido para um acordo amplo. Ele diz que os EUA insistem em metas máximas, como desarmamento imediato e restrições rígidas ao programa de mísseis iraniano, mas aceitam concessões graduais quando a pressão interna aumenta.
“Essa oscilação constante enfraquece a credibilidade americana e fortalece a posição de barganha do Irã”, afirma o chanceler, em referência direta às rodadas de diálogo conduzidas sob influência de Donald Trump. Para Merz, a estratégia de ameaçar sanções totais e, em seguida, recuar sem contrapartidas claras cria o que ele chama de “vantagem assimétrica” para Teerã.
Nas últimas semanas, diplomatas europeus calculam ao menos três recuos públicos de Washington em relação a prazos para um cessar-fogo abrangente. Em janeiro de 2026, negociadores americanos falam em acordo em 30 dias. Em março, admitem que o cronograma passa de 90 dias, sem que o Irã entregue garantias adicionais. O chanceler usa esses números para ilustrar como, na prática, o tempo corre a favor de Teerã.
Merz critica também a forma como Trump tenta centralizar a negociação em torno de sua figura política, buscando um anúncio de paz com forte impacto eleitoral. “A guerra não se resolve em função do calendário doméstico de um país. Quando isso acontece, todos os demais atores percebem e passam a esperar o momento de maior fragilidade”, diz.
Europa dividida e desgaste transatlântico
As declarações do chanceler repercutem em Berlim, Bruxelas e Washington. A Alemanha é parceiro estratégico dos Estados Unidos na Otan há mais de 70 anos e participa diretamente de missões de vigilância no Golfo. Ao expor divergências com a linha adotada por Trump, Merz torna pública uma insatisfação que, até aqui, circula principalmente em salas de reuniões fechadas.
Diplomatas europeus avaliam que a crítica sinaliza uma mudança de tom em relação à tradição de alinhamento automático a Washington em crises com o Irã. Desde o acordo nuclear de 2015, abandonado unilateralmente pelos EUA três anos depois, capitais europeias tentam manter canais com Teerã para evitar uma escalada irreversível. Merz resgata esse histórico e argumenta que soluções duradouras exigem compromissos verificáveis, não apenas demonstrações de força.
Na prática, a fala do chanceler encoraja outros governos europeus a cobrar mais previsibilidade da Casa Branca. Assessores em Berlim admitem reservadamente que o discurso mira não só Trump, mas também futuros negociadores americanos, republicanos ou democratas. O recado é que, sem coordenação com aliados, qualquer iniciativa de paz tende a produzir acordos frágeis ou instáveis.
O impacto não se restringe à diplomacia de cúpula. Empresas europeias dos setores de energia e transporte acompanham de perto cada gesto de Washington e Teerã. O fechamento parcial de rotas no Golfo, ainda que por poucos dias, eleva o custo do frete e pressiona o preço do petróleo, que já oscila perto de US$ 100 o barril desde o início de 2025. Merz cita esse dado para ilustrar que erros de cálculo em Washington repercutem em contas de luz e combustíveis na Europa em questão de semanas.
Pressão por revisão de estratégia
As críticas de Merz não vêm acompanhadas de um plano detalhado alternativo, mas apontam direções. O chanceler defende uma negociação em etapas, com prazos claros, fiscalização rígida e participação coordenada da União Europeia. Ele sugere que as potências ocidentais ofereçam incentivos econômicos graduais, vinculados a verificações técnicas sobre o programa nuclear e o alcance dos mísseis iranianos.
Especialistas em segurança ouvidos em Berlim estimam que, sem uma mudança de rota, a janela para um acordo abrangente se estreita nos próximos 12 a 18 meses. Passado esse período, o risco é que o conflito se consolide em uma guerra de baixa intensidade, com ataques recorrentes, interrupções no fluxo de petróleo e uso do dossiê nuclear como instrumento permanente de pressão mútua.
Em Washington, aliados de Trump reagem e afirmam, em conversas reservadas, que o ex-presidente não cede a “chantagens de Teerã”. Mas evitam responder publicamente ponto a ponto às críticas do chanceler alemão. A cautela revela o peso político de uma divergência aberta com Berlim em um momento em que os EUA dependem de apoio europeu em outros tabuleiros, como Ucrânia e mar do Sul da China.
No horizonte imediato, a expectativa é que as declarações de Merz reforcem a pressão por uma revisão da estratégia americana e acelerem consultas entre chancelerias europeias. A questão central permanece sem resposta: os Estados Unidos estão dispostos a dividir protagonismo e custos de um acordo de paz com o Irã, ou seguirão apostando em uma solução moldada quase exclusivamente pelos interesses de Washington? A forma como Trump e seus sucessores responderem a essa pergunta vai definir não só o fim da guerra, mas o equilíbrio das relações transatlânticas na próxima década.
