Manifestantes atacam Tesla e agência da ONU em protesto contra G7
Manifestantes atacam neste domingo (14) um carro da Tesla e uma agência da ONU em Genebra, na Suíça, durante marcha contra a cúpula do G7. O protesto, que reúne cerca de 20 mil pessoas, começa pacífico, mas termina em cenas de depredação, fogo e confronto com a polícia.
Marcha contra “símbolos do poder” termina em confronto
O ato ocupa as ruas centrais de Genebra em plena tarde de sol, a poucas horas de carro de Evian-les-Bains, na França, onde líderes do G7 se reúnem entre 15 e 17 de junho. Na cidade suíça, sede europeia da ONU e símbolo do multilateralismo, a marcha se organiza em blocos de movimentos sociais, ambientalistas e coletivos feministas que convergem em um mesmo alvo: o poder concentrado nas principais economias do mundo.
Os organizadores descrevem o encontro de chefes de Estado como um clube restrito que decide o rumo da economia global sem ouvir quem sente os impactos da desigualdade. Ao longo do trajeto, faixas denunciam o G7 como responsável por ampliar a crise climática e aprofundar a distância entre países ricos e pobres. Cartazes também associam o bloco a grandes empresas de tecnologia, petróleo e finanças.
A tensão cresce quando um Tesla estacionado vira ponto de aglomeração. Manifestantes o cercam, quebram vidros e colocam fogo no veículo, visto como símbolo de um capitalismo verde que não altera, na avaliação deles, a lógica de concentração de riqueza. Janelas de um escritório das Nações Unidas, instalado em um prédio próximo, também são destruídas a pedradas.
A polícia de Genebra reage com gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar os grupos mais agressivos. Tijolos são arrancados do chão e lançados contra agentes. Crianças que acompanhavam a marcha choram com o efeito do gás, enquanto comerciantes fecham às pressas portas e vitrines já protegidas por tapumes de madeira desde o início do fim de semana.
Entre os manifestantes, a crítica ao G7 ganha rosto e voz. “Para mim, é uma reunião dos ricos que mostra mais uma vez como os ricos podem ficar ainda mais ricos, enquanto os pobres são deixados para trás”, diz a suíça Pippa Saugy, 28, que participa de protestos internacionais desde a adolescência. Ela carrega um cartaz que questiona: “Quem decidiu que sete países podem falar pelo mundo?”.
Desigualdade, clima e poder econômico no alvo
Os protestos em Genebra se somam a um histórico de mobilizações que marcam cúpulas do G7 desde os anos 1990, quando o bloco se converte em palco de disputa simbólica sobre os rumos da globalização. Desta vez, o cenário é ainda mais carregado: guerras no Oriente Médio e na Ucrânia pressionam orçamentos públicos, alimentam crises humanitárias e ampliam a sensação de que decisões são tomadas longe do escrutínio público.
Na fronteira franco-suíça, chefes de Estado de França, Reino Unido, Canadá, Alemanha, Itália, Japão e Estados Unidos, além de representantes da União Europeia, discutem segurança, energia e economia em um encontro de três dias. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva participa como convidado, em meio à tentativa de países emergentes de ampliar voz em negociações sobre paz, clima e comércio.
Nas ruas, porém, a narrativa é outra. Grupos ambientalistas denunciam o que chamam de “hipocrisia climática” do G7, que promete reduzir emissões de carbono, mas mantém subsídios bilionários a combustíveis fósseis. Coletivos feministas criticam a ausência de mulheres em posições centrais de comando e veem a cúpula como expressão de estruturas “completamente misóginas”. “Os valores representados pelo G7 são completamente misóginos e contribuem para a desigualdade”, afirma a manifestante Clélia Colin, 34.
Figuras individuais também entram no foco. Menos de uma semana antes da marcha, Elon Musk, dono da Tesla e ex-assessor do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é declarado o primeiro trilionário do mundo por estimativas de mercado. Para faixas exibidas na manifestação, o patrimônio do empresário é prova da distância entre o discurso de inovação tecnológica e a realidade de salários estagnados e serviços públicos sob pressão.
Na avaliação de analistas ouvidos por agências internacionais, o ataque a um carro da Tesla em Genebra tem forte carga simbólica. A empresa se projeta globalmente como alternativa limpa ao transporte movido a combustíveis fósseis, mas enfrenta críticas por condições de trabalho, baixa presença sindical e ganhos concentrados no topo. Na Suíça, onde a renda média anual supera US$ 80 mil, a cena de um veículo elétrico de luxo em chamas expõe, de forma plástica, a tensão entre consumo sustentável e justiça social.
A presença ostensiva de centenas de policiais nas ruas irrita parte dos manifestantes e aumenta o clima de hostilidade. “Esta é uma tentativa de assustar os manifestantes, de assustar as pessoas e desencorajá-las de sair para protestar”, afirma Mattia Piccard, 22, estudante universitária. Autoridades locais defendem o aparato como necessário para proteger prédios diplomáticos e evitar que o protesto se espalhe para áreas residenciais.
Pressão sobre o G7 e incertezas sobre o diálogo
O episódio em Genebra ocorre às vésperas de uma cúpula em que o G7 busca se apresentar como mediador em múltiplas crises. Guerra na Ucrânia, conflito no Oriente Médio e negociações delicadas com o Irã dominam a agenda. Líderes tentam evitar desgaste com Donald Trump, que trabalha para fechar um acordo de paz com Teerã e segue figura central para a política externa americana.
A cena de um escritório da ONU com janelas estilhaçadas, em plena capital diplomática da Europa, obriga governos a rever protocolos de segurança em reuniões multilaterais. Agências internacionais e serviços de inteligência monitoram a capacidade de grupos de protesto de coordenar ações simultâneas em diferentes países, usando redes sociais para driblar bloqueios e vigilância.
Para movimentos sociais, a visibilidade conquistada na véspera da cúpula é vitória parcial. A expectativa é que imagens de vitrines destruídas, carros incendiados e famílias desorientadas com o gás lacrimogêneo circulem em telejornais e redes, forçando líderes a responder, ainda que de forma limitada, às críticas sobre desigualdade e clima. “Se eles não nos escutam nas urnas ou nos fóruns oficiais, vão ter de nos ver nas ruas”, resume uma faixa erguida na praça central de Genebra.
A resposta concreta do G7, porém, ainda é incerta. Compromissos anunciados em declarações finais costumam vir em linguagem genérica, com metas de longo prazo e pouca clareza sobre financiamento. A pressão agora recai sobre como traduzir promessas de combate às mudanças climáticas e à pobreza em medidas mensuráveis, com prazos e fiscalização.
Nos próximos dias, governos europeus e suíços avaliam danos materiais, revisam a atuação policial e tentam medir o desgaste de imagem provocado pela repressão. Organizações de direitos humanos já cobram investigação independente sobre o uso de força e o impacto do gás lacrimogêneo em manifestantes pacíficos. Ao fim da cúpula, restará a dúvida sobre se cenas como as de Genebra funcionam como chamado eficaz para mudanças estruturais ou se apenas alimentam um ciclo de frustração, radicalização e novas ondas de protestos.
