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Lutador é preso após espancar enteado de 13 anos em Belo Horizonte

O lutador Alexandre Henrique Moreira Hollerbach, de 30 anos, espanca o enteado de 13 anos na sexta-feira (1º/5), em Belo Horizonte, e acaba preso preventivamente. O menino sofre fratura na mandíbula e perde parte da visão de um olho após a sequência de chutes, socos e golpes contra o chão, registrada por câmera de segurança.

Violência extrema em quintal de casa

A cena acontece no quintal de uma casa simples no bairro Copacabana, na região de Venda Nova. Hollerbach, lutador de muay thai e taekwondo, manda o enteado limpar fezes de cachorro. O serviço desagrada e o que seria uma tarefa doméstica comum se transforma em uma sessão de espancamento.

As imagens mostram o adolescente sendo derrubado, atacado com socos e chutes e tendo o rosto esfregado contra o chão. O vídeo, borrado para preservar o menor, circula nas redes sociais e acende um alerta sobre o grau de violência dentro de casa. O relógio marca a tarde de 1º de maio de 2026, feriado do Dia do Trabalhador, enquanto o menino tenta se proteger do padrasto atleta.

Segundo a Polícia Militar de Minas Gerais, o corpo do adolescente exibe marcas por todos os lados. O laudo inicial aponta fratura na mandíbula e lesão no olho esquerdo, com perda parcial da visão. Ele é levado primeiro para a UPA Venda Nova, mas, diante da gravidade, segue em transferência urgente para o Hospital Odilon Behrens, onde passa por tomografia e avaliação detalhada.

Ameaças, histórico de agressões e reação da Justiça

A mãe do garoto, que se recupera de uma cirurgia no abdômen feita no dia anterior, tenta interromper as agressões. Hollerbach a impede com ameaças de morte, segundo o boletim de ocorrência. Mesmo sob risco, ela chama a polícia. A decisão de pegar o telefone rompe um silêncio de anos, sustentado pelo medo do padrasto.

Os policiais encontram o lutador alterado dentro da casa. O relato oficial aponta que ele ameaça a equipe, diz ser praticante de artes marciais e passa a quebrar objetos do imóvel. A prisão em flagrante ocorre por tentativa de homicídio, maus-tratos, violência doméstica e crime contra criança e adolescente.

Na delegacia, o caso ganha contornos ainda mais graves. Em depoimento, o adolescente afirma que não é a primeira vez que apanha. Conta que o padrasto já usa vassoura e rodo para bater. A mãe, em relacionamento com o agressor há cerca de oito anos, confirma agressões anteriores contra ela e o filho. Os dois dizem ter medo de denunciar por receio de represálias.

No domingo (3/5), em audiência de custódia, a Justiça converte a prisão em flagrante em preventiva. A juíza Fabiana Cardoso Gomes Ferreira registra na decisão que, além das agressões físicas, o lutador ameaça matar o enteado e a esposa. Em juízo, ele afirma que, em uma próxima ocasião, “faria direito” e poderia “até matar”, além de dizer que voltaria a agredir porque acreditava que ficaria pouco tempo preso.

O trecho mais duro da decisão resume o entendimento do Judiciário sobre o risco representado por Hollerbach. “Deste modo, entendo que a integridade física das vítimas e a própria ordem pública somente restarão resguardadas com a medida excepcional da prisão preventiva”, escreve a magistrada ao justificar a manutenção do lutador atrás das grades.

Retrato da violência doméstica contra crianças

O caso em Belo Horizonte expõe de forma brutal um tipo de violência que costuma ficar entre paredes e portões fechados. Crianças e adolescentes são alvo frequente de agressões praticadas por familiares ou cuidadores, muitas vezes por motivos banais, como o desempenho em tarefas domésticas ou comportamento considerado inadequado.

No quintal de Copacabana, a faísca é a limpeza de fezes de cachorro. O que assusta a polícia, a Justiça e profissionais de saúde não é apenas o ataque desproporcional, mas o uso da força de um lutador treinado contra um garoto de 13 anos. A combinação de superioridade física, experiência em artes marciais e ameaça constante cria um ambiente de terror doméstico.

As consequências ultrapassam os ossos quebrados e a lesão no olho. Especialistas em direitos da infância apontam que episódios assim deixam marcas duradouras na saúde mental. Medo, culpa, dificuldade de confiar em adultos e problemas na escola costumam acompanhar vítimas por anos. No caso de Belo Horizonte, o menino assiste à prisão do padrasto ao mesmo tempo em que vê a mãe, recém-operada, tentar reassumir o papel de protetora.

A decisão judicial de decretar a prisão preventiva sinaliza uma mudança gradual de postura no enfrentamento desse tipo de crime. Em vez de liberar o agressor com medidas brandas, a juíza aponta o risco concreto de novas agressões, com possibilidade de morte, e opta por afastá-lo imediatamente do convívio familiar. A medida, vista por defensores de direitos humanos como essencial, tenta interromper um ciclo de oito anos de medo.

Próximos passos e pressão por proteção efetiva

O inquérito agora avança sob a responsabilidade da Polícia Civil, que deve detalhar o histórico de agressões e anexar exames e laudos médicos. A investigação precisa confirmar se houve outros episódios que não chegaram ao conhecimento das autoridades. O Ministério Público terá a missão de denunciar o lutador e definir se manterá a acusação de tentativa de homicídio, além dos crimes de maus-tratos e violência doméstica.

No campo da proteção, o caso coloca pressão sobre a rede de atendimento à infância em Belo Horizonte. Conselhos tutelares, unidades de saúde e escolas devem acompanhar de perto a situação do menino e da mãe, que convivem com traumas e medo de retaliação. A família precisa de acolhimento psicológico, suporte social e garantia de que o agressor não voltará para casa enquanto representar risco.

Episódios como o de Copacabana costumam incentivar outras denúncias. Quando um agressor conhecido, com profissão e endereço certos, aparece algemado na TV ou no celular, vizinhos e familiares de outras vítimas se veem autorizados a sair do silêncio. A reação do sistema de Justiça, com prisão preventiva rápida e clara, pode se tornar um recado para quem ainda acredita que violência doméstica contra menores termina em impunidade.

O adolescente de 13 anos segue em recuperação, entre cirurgias, exames e noites mal dormidas. A pergunta que fica para o poder público é se o caso será tratado apenas como mais um processo criminal ou como um ponto de inflexão na proteção de crianças e adolescentes dentro de casa. A resposta vai além das paredes do hospital e do fórum e passa, inevitavelmente, pela forma como a sociedade encara gritos e ruídos vindos do quintal ao lado.

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