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Lula reage a Trump, defende soberania e urnas em coletiva em Genebra

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva repudiou, nesta quinta-feira (18/6), declarações de Donald Trump sobre o Brasil e a família Bolsonaro, feitas após a cúpula do G7. Em Genebra, Lula acusa o líder americano de interferir no processo eleitoral brasileiro e de desrespeitar a soberania nacional.

Lula traça linha vermelha para interferência externa

A reação ocorre um dia depois de Trump afirmar que o Brasil se torna “um país um pouco complicado” e “perigoso politicamente” e sugerir perseguição a um filho de Jair Bolsonaro. No encerramento do G7, em Évian-les-Bains, na França, o presidente americano diz ter ouvido que “prenderam o Bolsonaro Jr.”, que estaria “indo bem nas pesquisas” e alvo de punição por uma fala no Texas. Ele confunde Eduardo Bolsonaro, condenado na véspera pela Primeira Turma do STF, com o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato ao Planalto.

Lula escolhe responder de forma pública, em entrevista coletiva na residência oficial do embaixador do Brasil nas Nações Unidas, em Genebra. O presidente não contesta o direito de Trump se aproximar politicamente do bolsonarismo, mas rejeita qualquer gesto que possa ser lido como tutela externa sobre a disputa de 2026. “Para mim, ele pode continuar gostando do Bolsonaro, do pai, do filho, do neto, não tem nenhum problema”, afirma. “Agora, não se meta nas eleições do Brasil, porque as eleições do Brasil são um problema do Brasil”, completa.

Ao tocar no tema da soberania, Lula mira não apenas o embate pessoal com Trump, mas também a percepção internacional sobre a estabilidade democrática brasileira. Nos últimos seis anos, desde as eleições contestadas de 2018 e os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, o país tenta reconstruir a imagem de segurança institucional. Qualquer sinal vindo da Casa Branca de que o Brasil é “politicamente perigoso” acende alerta em mercados e governos que observam de perto a transição de poder prevista para 2026.

Soberania, urnas eletrônicas e disputa comercial

Lula aproveita a mesma resposta para defender com ênfase o sistema de votação eletrônico, alvo recorrente de ataques do bolsonarismo e de simpatizantes de Trump, que ainda questionam o resultado da eleição americana de 2020. “Os Estados Unidos poderiam aprender com o Brasil de eleições mais tranquilas, mais leves e menos conturbadas”, diz. O presidente anuncia até um gesto simbólico para a próxima oportunidade de encontro com o americano. “Na próxima vez eu vou levar a urna eletrônica para mostrar para ele como é que ela funciona.”

O comentário revela o tom da disputa narrativa. Enquanto Trump pinta o Brasil como terreno político arriscado, Lula tenta apresentar o país como exemplo de tecnologia eleitoral e de alternância pacífica de poder desde 1994. A fala ecoa diretamente nos embates internos entre governo e oposição, que já começam a testar discursos para a corrida presidencial marcada para outubro de 2026, daqui a pouco mais de dois anos e quatro meses.

A tensão entre os dois presidentes não se limita ao campo retórico. Esta é a primeira vez que eles dividem o mesmo fórum internacional desde que Washington passou a ameaçar tarifas extras de até 25% sobre parte das exportações brasileiras. A taxação, se aplicada, atinge cadeias inteiras de aço, alumínio e produtos industrializados e pode mexer com bilhões de dólares em comércio bilateral anual. Lula classifica a ameaça como “uma coisa desaforada” e afirma que Trump “ainda continua agindo como imperador”.

Na residência do embaixador, o presidente recebe o secretário-geral da Interpol, o brasileiro Valdecy Urquiza, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O encontro tem como pano de fundo outra frente de atrito: a decisão recente dos Estados Unidos de designar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A medida abre caminho para sanções, bloqueio de ativos e ações coordenadas contra integrantes das facções em território americano e de aliados em outros países.

Lula afirma ter sido surpreendido pela iniciativa e diz que entregou a Trump um documento detalhando o que o governo brasileiro faz no combate ao crime organizado. “Eu entreguei por escrito, porque quando eu converso com uma pessoa que fala mais do que ouve, eu faço questão de entregar por escrito para as pessoas não esquecerem”, dispara. Ele reconhece que as facções atuam como terroristas para moradores de comunidades brasileiras, mas rejeita o enquadramento sob a mesma lógica de grupos que buscam derrubar o Estado. “Eles não querem brigar e derrotar o Estado, eles querem dinheiro”, afirma.

Impacto na relação bilateral e na política interna

A troca de recados em público expõe uma relação bilateral que combina interdependência econômica, cooperação em segurança e choques ideológicos constantes. Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, com fluxo anual que supera US$ 100 bilhões, e também o principal investidor estrangeiro no país. Cada sinal de endurecimento tarifário ou de divergência em segurança pública é lido por empresas e governos estaduais como risco concreto a empregos, exportações e investimentos futuros.

Lula tenta usar o incômodo com a designação do PCC e do CV como organizações terroristas para cobrar contrapartidas. O presidente afirma que, se a intenção americana é ajudar no combate ao crime organizado, o ponto de partida deveria ser a prisão de brasileiros condenados por tentativa de golpe que vivem hoje em território americano. Ele cita nominalmente o ex-deputado Alexandre Ramagem, condenado a 16 anos de prisão, que deixou o país após os eventos de 2022. A cutucada cria uma ponte direta entre a pauta de segurança e a defesa da democracia.

No plano doméstico, a fala de Lula tem efeito duplo. O presidente reforça a confiança nas urnas eletrônicas em um momento em que parte do eleitorado ainda se mostra suscetível a teorias de fraude e manipulação. Ao mesmo tempo, devolve ao bolsonarismo o custo político da associação com Trump, personagem central das disputas internas nos Estados Unidos, recém-saído de uma eleição marcada por contestação judicial e violência nas ruas em 6 de janeiro de 2021. Ao dizer que Trump “conhece pouco o Brasil” e que, se se informa pela família Bolsonaro, “desconhece o Brasil de verdade”, Lula busca isolar o adversário e reposicionar o país no debate internacional.

A escolha de uma coletiva em Genebra, cidade-sede de organismos multilaterais, também carrega mensagem. O presidente tenta se apresentar como defensor da ordem internacional baseada em regras, inclusive o “código de ética entre nações” a que se refere ao falar de soberania. A crítica à interferência externa ganha eco em países que, como o Brasil, se ressentem de decisões unilaterais de Washington em comércio, clima e segurança.

Próximos passos em um cenário de tensão controlada

Lula deixa claro que, apesar do tom duro, não pretende romper pontes. O governo brasileiro não solicita reunião bilateral formal com Trump durante o G7, alegando que as equipes técnicas ainda negociam as tarifas propostas e buscam entender o alcance da designação das facções como terroristas. A estratégia passa por manter o canal econômico aberto, enquanto a retórica política se desloca para o campo público, onde cada frase é calculada também para o consumo interno.

As próximas semanas devem mostrar se a ameaça de tarifa extra de 25% se converte em medida concreta ou se fica como instrumento de pressão em mesa de negociação. A resposta americana a críticas sobre a soberania brasileira e sobre o tratamento de condenados por tentativa de golpe também será observada em Brasília. Até lá, a cena de um presidente brasileiro prometendo levar uma urna eletrônica para explicar a Donald Trump como funciona o sistema de votação serve como síntese de um embate que mistura diplomacia, disputa eleitoral antecipada e narrativa sobre quem, afinal, tem autoridade para falar em nome da democracia.

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