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Lula mobiliza Conselhão contra tarifa de 25% dos EUA sobre o Brasil

Lula lidera na manhã desta quarta-feira (10), no Palácio do Itamaraty, uma reunião do Conselhão para reagir ao tarifaço de 25% imposto pelos Estados Unidos. O governo tenta mobilizar empresários brasileiros e estrangeiros para contestar as acusações da gestão Donald Trump e conter o impacto sobre a economia nacional.

Lula aciona Conselhão e iniciativa privada

No salão nobre do Itamaraty, em Brasília, Lula chega cercado por ministros, empresários e sindicalistas com um alvo definido: a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros anunciada por Washington. A ofensiva norte-americana atinge em cheio exportadores nacionais e ameaça contratos assinados ao longo da última década, em setores que vão do aço ao agronegócio.

O presidente abre a reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o Conselhão, com um apelo direto à elite empresarial. Ele quer que executivos e representantes do setor produtivo levem, porta a porta, a versão brasileira aos interlocutores nos Estados Unidos. A estratégia é pressionar a Casa Branca e o Congresso americano por dentro, usando a influência de clientes, fornecedores e parceiros de negócios para desmontar o discurso de Donald Trump.

O governo norte-americano alega “práticas desleais” na relação comercial entre os dois países e aponta o Brasil como beneficiário de subsídios e vantagens que distorcem a concorrência. Trump também busca aplicar uma tarifa de 12,5% a países que, segundo sua gestão, não combatem o trabalho forçado. No Itamaraty, a avaliação é oposta: auxiliares de Lula afirmam que as acusações não se sustentam em dados e servem mais a uma agenda eleitoral interna do que a uma revisão técnica das regras.

Nas conversas reservadas que antecedem a reunião, integrantes do Planalto descrevem a medida como “tarifaço político” que tenta transformar o Brasil em bode expiatório em meio à disputa eleitoral americana. A equipe econômica calcula que, mantida a alíquota de 25%, setores exportadores podem perder bilhões de dólares em receitas ao longo de 2026 e 2027, com efeito direto sobre emprego e investimento em estados industriais e produtores de commodities.

Disputa comercial vira pauta de campanha

O encontro desta quarta, marcado para as 9h, tem um caráter duplo. De um lado, Lula promete fazer um balanço dos três anos de funcionamento do Conselhão, responsável por aconselhar o presidente na formulação de políticas públicas e diretrizes de governo. De outro, transforma a reunião na principal vitrine de reação ao movimento de Trump, às vésperas da abertura oficial do calendário eleitoral brasileiro.

Na mesa principal, além de Lula, estão o vice-presidente Geraldo Alckmin, o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, e a primeira-dama Janja da Silva. O formato mistura balanço administrativo, discussão sobre a agenda internacional e sinalização política para empresários, sindicalistas e lideranças da sociedade civil. A mensagem, repetida por auxiliares, é que o governo não aceitará “humilhação econômica” nem tentativas de ditar regras sobre política interna brasileira.

O Planalto prepara um discurso em que Lula volta a defender a soberania nacional na condução da política comercial e trabalhista. O presidente deve reafirmar que o Brasil combate o trabalho escravo e tem avançado na fiscalização de cadeias produtivas, em especial no campo. Ao mesmo tempo, tende a endurecer o tom contra críticas externas que, na visão do governo, ignoram o histórico recente do país em direitos trabalhistas e ambientais.

O ambiente eleitoral aparece de forma direta quando Lula retoma ataques ao senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio, pré-candidato à Presidência. O presidente pretende vinculá-lo politicamente a Trump e apresentar a tarifa como resultado de uma visão de mundo que, segundo ele, despreza a soberania de parceiros e busca impor interesses pela força econômica. A mensagem, dirigida à plateia e ao eleitorado, é que o embate comercial não se separa da disputa de projetos para o país.

No auditório, lideranças empresariais ouvem que, caso Lula conquiste um quarto mandato, o governo conta com o setor privado como parceiro em reformas estruturantes e investimentos em infraestrutura. A promessa envolve destravar obras em logística, energia e transição verde, em troca de previsibilidade regulatória e estabilidade de regras. A crise com os Estados Unidos entra nesse pacote como alerta sobre a necessidade de diversificar mercados e reforçar cadeias produtivas regionais.

Impacto econômico e desenho da reação

O tarifaço de 25% altera a conta de exportadores brasileiros de imediato. Em contratos de grande volume, uma alíquota adicional desse tamanho corrói margens de lucro, reduz competitividade e pode levar empresas a recuar de investimentos planejados. A área econômica considera que setores intensivos em exportação para os Estados Unidos, como mineração, siderurgia, celulose e parte do agronegócio, sentem primeiro o baque.

Em cadeias com alta geração de emprego, qualquer queda de encomendas se traduz em cortes de turno, férias coletivas e, em última instância, demissões. Governadores de estados exportadores acompanham a crise de perto e pressionam por uma solução negociada em Washington. Interlocutores do Itamaraty falam em “perdas potenciais bilionárias” se a tarifa vigorar por mais de um ano e em risco de contágio para outros parceiros que decidam seguir o movimento americano.

A resposta não se limita à via diplomática tradicional. Ao pedir que empresários brasileiros conversem diretamente com investidores e compradores nos Estados Unidos, Lula aposta na capacidade da iniciativa privada de influenciar o debate interno americano. Nessa estratégia, associações setoriais e multinacionais com operações nos dois países tornam-se peças-chave para demonstrar que a medida pode encarecer produtos, prejudicar consumidores e afetar empregos também nos EUA.

O Itamaraty participa da articulação com notas técnicas e relatórios sobre a evolução do comércio bilateral, mostrando a expansão dos fluxos a partir de acordos firmados desde o início dos anos 2000. O governo sustenta que, em vez de práticas desleais, há complementaridade entre cadeias produtivas, com empresas americanas integradas à produção brasileira de insumos, componentes e serviços.

Última reunião antes da eleição e próximos passos

A reunião do Conselhão tem peso simbólico adicional por ser a última antes do processo eleitoral. Lula pretende usar o encontro para agradecer publicamente as parcerias entre setor público e privado ao longo dos últimos três anos. Ao destacar projetos de infraestrutura e programas sociais apoiados pelo conselho, o presidente tenta reforçar a imagem de governo que ouve a sociedade civil em decisões estratégicas.

Além da discussão sobre o tarifaço, a programação inclui um painel voltado à agenda internacional de desenvolvimento econômico, social e sustentável. Técnicos e conselheiros discutem como ampliar o acesso a mercados, atrair investimento estrangeiro e, ao mesmo tempo, cumprir metas ambientais e trabalhistas. A tensão com os Estados Unidos serve de pano de fundo para um debate mais amplo sobre a posição do Brasil em um cenário mundial fragmentado.

Nos bastidores, assessores falam em três frentes para os próximos meses: intensificar a pressão diplomática em organismos internacionais, negociar diretamente com autoridades em Washington e manter o engajamento da iniciativa privada em conversas com o empresariado americano. A depender da evolução do impasse, o Brasil pode buscar mecanismos de contestação em fóruns multilaterais de comércio.

A crise abre espaço para uma pergunta que deve atravessar a campanha: até que ponto o país está preparado para enfrentar choques externos e decisões unilaterais de grandes parceiros comerciais? A resposta, avaliam aliados de Lula e oposicionistas, passa tanto pela diplomacia quanto pela capacidade interna de diversificar a economia, qualificar a mão de obra e reduzir a dependência de qualquer mercado específico.

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