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Lula acusa Flávio de traição e diz que filhos de Bolsonaro travam acordo com EUA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma, nesta terça-feira (2.jun.2026), que há um entendimento com os Estados Unidos para avançar em negociações comerciais entre os dois países. Ao explicar as dificuldades nas conversas, ele acusa o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de traição e diz que os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro atuam como “vendilhões” que atrapalham os acordos.

Lula expõe tensão política em meio a agenda com Washington

Lula relata que Brasil e Estados Unidos acertam a retomada de um canal formal entre os ministros responsáveis por comércio e indústria. Segundo ele, essa via direta busca destravar pautas emperradas desde ao menos 2020, quando o governo Bolsonaro tenta, sem sucesso, converter a proximidade política com Donald Trump em resultados concretos para o setor produtivo. O presidente afirma que, agora, a prioridade é dar previsibilidade a investimentos bilionários em energia, tecnologia e agronegócio.

Ao falar sobre os obstáculos, Lula mira o principal herdeiro político de Bolsonaro no Senado. “O Flávio é um traidor do interesse nacional”, diz, ao acusá-lo de trabalhar contra entendimentos já em discussão com Washington. Na mesma fala, o petista amplia o ataque e inclui os demais filhos do ex-presidente. “Esses meninos vivem negociando influência, são vendilhões, não pensam no país, pensam na própria sobrevivência”, afirma, em referência ao grupo que reúne Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro.

As declarações se somam a um ambiente já marcado por desconfiança entre Palácio do Planalto e a oposição bolsonarista. Desde o início do ano, aliados de Lula relatam, nos bastidores, a percepção de que parlamentares alinhados ao ex-presidente estimulam resistências internas a acordos com os Estados Unidos, especialmente em temas sensíveis como tarifas agrícolas, compras governamentais e regras ambientais.

A fala pública de Lula escancara esse diagnóstico. O presidente diz que as críticas não são ideológicas, mas ligadas a interesses específicos. Ele afirma ver, entre oposicionistas, disposição para usar a pauta externa como arma doméstica. “Quando é para fazer política miúda, eles travam tudo, mesmo que o Brasil perca mercado, emprego e credibilidade lá fora”, afirma, em referência indireta a votações no Congresso que podem ser necessárias para ratificar novos entendimentos bilaterais.

Negociações em jogo e impacto para comércio bilateral

O esforço atual mira um mercado que, em 2025, movimenta mais de US$ 100 bilhões em trocas entre Brasil e Estados Unidos, somando exportações e importações. O governo vê espaço para ampliar a presença de produtos brasileiros, em especial do agronegócio, da indústria química e de bens manufaturados de maior valor agregado, se houver redução de barreiras e maior segurança regulatória. Empresários cobram, há meses, um cronograma claro de reuniões entre os dois governos.

Lula afirma que já há acordo político para que os ministros responsáveis pelo comércio dos dois países iniciem conversas estruturadas. Na prática, isso significa retomar mesas técnicas sobre tarifas, certificações sanitárias, propriedade intelectual e compras públicas. O Planalto avalia que parte dessas medidas pode começar a ser implementada por meio de decretos e resoluções, mas reconhece que mudanças mais profundas dependerão do Congresso, onde a bancada ligada a Bolsonaro mantém força relevante.

As acusações direcionadas a Flávio Bolsonaro elevam a temperatura desse debate. O senador é peça-chave em comissões estratégicas e se apresenta como defensor de uma linha dura contra o governo Lula. Em discursos recentes, ele critica o que chama de “submissão” do Brasil a agendas ambientais e defende reaproximação com setores trumpistas nos Estados Unidos. A resposta do Planalto, agora, deixa explícito o cálculo político do governo: responsabilizar publicamente o bolsonarismo por eventuais atrasos em acordos comerciais com Washington.

A disputa tem efeitos concretos. Negociações sobre abertura maior para produtos brasileiros, como etanol, carne bovina e aves, dependem de ambiente político estável e previsível. Investimentos em cadeias de semicondutores, energia limpa e infraestrutura logística — estimados por integrantes da equipe econômica em dezenas de bilhões de dólares ao longo desta década — exigem sinais claros de que decisões tomadas no Executivo não serão desautorizadas pelo Legislativo a cada crise.

Risco de impasse e os próximos capítulos da relação Brasil-EUA

No curto prazo, assessores presidenciais projetam uma agenda de encontros técnicos entre representantes dos dois países ainda no segundo semestre de 2026. A intenção é apresentar, até o fim do ano, um roteiro com prazos, metas e áreas prioritárias para destravar o comércio. Em paralelo, o Itamaraty tenta blindar a relação com Washington das turbulências domésticas, reforçando que há consenso, entre partidos de centro e centro-esquerda, sobre a importância da parceria.

O embate entre Lula e os filhos de Bolsonaro, porém, tende a se intensificar. A oposição deve explorar as declarações do presidente como sinal de radicalização e tentativa de deslocar a responsabilidade por eventuais fracassos. Governistas, por sua vez, vão repetir que a “guerra interna” compromete empregos, exportações e a imagem do Brasil em um momento em que o país busca atrair investimentos e se consolidar como fornecedor estratégico de energia e alimentos para os Estados Unidos.

As próximas semanas dirão se o acordo político anunciado por Lula para conversas entre ministros se transforma em resultados tangíveis ou se fica preso ao jogo doméstico. O desfecho vai indicar se o Brasil consegue separar a disputa entre governo e bolsonarismo de sua política externa ou se a relação com Washington continuará refém da mesma polarização que domina a cena interna desde 2018.

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