Lewandowski vê alta do Custo Brasil após EUA rotularem PCC e CV
O ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski afirma nesta terça-feira (2.jun.2026) que a decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas tende a elevar o Custo Brasil. Para ele, o novo enquadramento pressiona bancos, exportadores e investidores a adotar filtros mais rígidos de risco envolvendo o país.
Pressão externa sobre o ambiente de negócios
A medida do governo americano, anunciada em Washington e comunicada às autoridades brasileiras nos últimos dias, altera de forma imediata o nível de escrutínio sobre qualquer operação financeira ligada ao Brasil. A inclusão do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho em listas de terrorismo sujeita empresas e pessoas físicas a controles adicionais sempre que houver fluxo de recursos que passe por bancos dos Estados Unidos.
Lewandowski avalia que o efeito direto recai sobre o custo de conformidade, a estrutura de controle interno que cada instituição precisa manter. “Quando grupos passam a ser classificados como terroristas, o sistema financeiro internacional reage com mais exigências e burocracia. Isso significa operações mais lentas, mais caras e, muitas vezes, desnecessariamente travadas”, afirma. O ex-ministro compara a decisão a outras sanções adotadas por Washington nas últimas décadas, que costumam repercutir de forma desproporcional em economias emergentes.
Mais barreiras, mais custo e perda de competitividade
A nova classificação obriga bancos brasileiros com exposição em dólar a reforçar sistemas de rastreamento de clientes, contratos e cadeias de fornecimento. Cada remessa, investimento ou carta de crédito que leve a assinatura de uma empresa nacional tende a passar por checagens adicionais para afastar qualquer suspeita de vínculo, ainda que indireto, com organizações apontadas como terroristas. “Isso é o que chamamos de aumento do Custo Brasil: mais etapas, mais exigências, mais gastos para garantir o mesmo resultado”, diz Lewandowski.
Especialistas ouvidos reservadamente por agentes do mercado estimam que o gasto com compliance pode crescer entre 10% e 20% em grandes instituições financeiras nos próximos 12 meses, em linha com o observado em outros episódios de sanções americanas. Em setores intensivos em exportação, como agronegócio e mineração, cada dia adicional de análise documental encarece a operação e reduz margens de lucro. Um atraso médio de três dias em liberações de pagamento, em contratos acima de US$ 10 milhões, pode significar custo financeiro extra de centenas de milhares de reais por mês para grandes grupos.
Risco de retração em crédito e investimentos
Os reflexos tendem a ultrapassar o setor bancário. Fundos estrangeiros mais avessos a risco, sobretudo aqueles que administram grandes volumes de poupança de longo prazo, costumam reagir com cautela a qualquer sinal de aumento de risco regulatório. A percepção de proximidade entre o Brasil e organizações rotuladas como terroristas, ainda que o país não seja alvo direto de sanções, pode adiar decisões de investimento e redirecionar recursos para mercados vistos como mais previsíveis.
Lewandowski aponta que o temor central é de contágio reputacional. “As empresas brasileiras ficam sob suspeita geral, mesmo quando cumprem a lei e adotam padrões rígidos de governança. O reflexo aparece em taxas de juros mais altas, seguros mais caros e exigência de garantias adicionais”, avalia. Em contratos de exportação de commodities, acréscimos de apenas 0,25 ponto percentual em prêmios de risco podem, em um ano, consumir dezenas de milhões de dólares em receitas do setor.
Resposta do governo e necessidade de adaptação
No Brasil, a decisão dos Estados Unidos reabre o debate sobre a legislação interna de combate ao terrorismo e ao crime organizado. Integrantes do governo estudam formas de reforçar mecanismos de cooperação internacional sem dar margem a interpretações que associem o país a conivência com facções criminosas. A avaliação de técnicos da equipe econômica é que a ausência de uma estratégia clara tende a multiplicar incertezas e a encorajar bancos estrangeiros a adotar posturas mais conservadoras em relação a clientes brasileiros.
Para Lewandowski, a reação precisa ser rápida e coordenada. “O Brasil deve mostrar, com dados e ações concretas, que combate o crime organizado e que não tolera qualquer interface entre facções e o sistema financeiro. Só assim será possível reduzir a percepção de risco e evitar que o Custo Brasil dispare”, afirma. O desafio, agora, é transformar a pressão externa em incentivo para aprimorar regulações e práticas de supervisão, sem sufocar a atividade econômica que o país precisa para crescer.
