Júri de Fernando Sastre entra no 2º dia após testemunhas confirmarem consumo de álcool
Amigo que sobreviveu ao acidente e ex-namorada dele relataram que o empresário bebeu antes de dirigir; Ministério Público pede condenação superior a 20 anos.

O julgamento do empresário Fernando Sastre de Andrade Filho, acusado de provocar o acidente com um Porsche que matou o motorista de aplicativo Ornaldo da Silva Viana, de 52 anos, entrou no segundo dia nesta quinta-feira (29), no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo. Durante a primeira sessão do júri popular, testemunhas afirmaram que o empresário havia consumido bebidas alcoólicas antes de assumir a direção do veículo, na madrugada de 31 de março de 2024.
Os relatos foram apresentados por Marcus Vinicius Machado Rocha, amigo de Fernando e passageiro do Porsche no momento da colisão, e por Juliana de Toledo Simões, que namorava Marcus na época. Ambos confirmaram o consumo de álcool antes do acidente. O Ministério Público de São Paulo (MPSP) sustenta que Sastre assumiu o risco de matar ao dirigir em alta velocidade e pede uma pena superior a 20 anos de prisão. A defesa contesta a acusação de homicídio doloso.
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Amigo de Fernando Sastre afirma que ele bebeu antes de dirigir
Marcus Vinicius Machado Rocha foi uma das primeiras testemunhas ouvidas no julgamento, iniciado na quarta-feira (28). Ele estava no banco do passageiro do Porsche quando o veículo atingiu a traseira do Renault Sandero conduzido por Ornaldo.
Durante o depoimento, Marcus afirmou que Fernando havia ingerido bebidas alcoólicas ao longo da noite e apresentava comportamento alterado antes de deixar uma casa de pôquer.
Segundo o sobrevivente, pessoas próximas tentaram convencer o empresário a não dirigir. A então namorada de Sastre também teria discutido com ele e se recusado a entrar no automóvel.
Marcus relatou que decidiu acompanhar o amigo no Porsche porque não queria deixá-lo sozinho. Ele contou que Fernando saiu lentamente da vaga, mas acelerou logo depois. O passageiro afirmou não se lembrar dos momentos seguintes à aceleração.
O sobrevivente sofreu ferimentos graves na colisão, incluindo fraturas em quatro costelas, e precisou passar por uma cirurgia para retirada do baço.
Ex-namorada de passageiro também confirma consumo de álcool
Juliana de Toledo Simões, ex-namorada de Marcus Vinicius, prestou depoimento por videoconferência e confirmou que Fernando havia consumido bebidas alcoólicas antes do acidente.
De acordo com o relato apresentado ao júri, o empresário demonstrava sinais de alteração e chegou a cambalear antes de assumir a direção do Porsche.
Juliana estava com o grupo durante parte da noite que antecedeu a colisão. Os amigos passaram por um restaurante e depois seguiram para uma casa de pôquer.
Os depoimentos são considerados importantes para a acusação porque ajudam a reconstruir as circunstâncias anteriores ao acidente. A existência de relatos de consumo de álcool, porém, não substitui uma conclusão pericial sobre a concentração de álcool no organismo do motorista.
Sobrevivente diz que foi pressionado a mudar sua versão
Marcus Vinicius também relatou aos jurados que enfrentou conflitos com pessoas próximas a Fernando depois do acidente.
Segundo ele, amigos em comum teriam pedido que amenizasse seu relato sobre os acontecimentos daquela madrugada. O sobrevivente afirmou que se recusou a alterar a versão e passou a ser chamado de traidor.
Durante o depoimento, Marcus contou que perdeu contato com antigos amigos e que as consequências do episódio ultrapassaram os ferimentos físicos provocados pela colisão.
As afirmações foram apresentadas pelo próprio sobrevivente durante o julgamento. A eventual existência de pressão sobre testemunhas depende da avaliação das autoridades competentes.
Defesa desiste de ouvir ex-namorada de Fernando Sastre
Giovanna Pinheiro Silva, que namorava Fernando Sastre na época do acidente, estava entre as testemunhas inicialmente previstas para o julgamento.
Após uma determinação judicial para que ela comparecesse, a defesa desistiu de ouvi-la. Giovanna chegou a acompanhar parte da sessão na plateia, mas foi retirada do plenário a pedido da acusação.
A decisão de dispensar o depoimento ocorreu durante o primeiro dia do júri. Assim, o relato de Giovanna não foi apresentado aos jurados naquela etapa do julgamento.
Filho de motorista morto relata dificuldades da família
Lucas Morais da Silva, filho de Ornaldo, também prestou depoimento e falou sobre os impactos da morte do pai na rotina familiar.
Ele relatou dificuldades financeiras e emocionais enfrentadas pelos familiares desde o acidente. Segundo seu depoimento, a família precisou de ajuda de parentes e de uma igreja para enfrentar parte das despesas.
O filho da vítima também afirmou que não consegue mais trabalhar com aplicativos da mesma forma depois da morte do pai.
Durante a sessão, ele pediu que o julgamento considere a gravidade das consequências da colisão e a perda sofrida pela família.
Perícia apontou velocidade superior ao limite da avenida
O acidente aconteceu na madrugada de 31 de março de 2024, na Avenida Salim Farah Maluf, no Tatuapé, zona leste de São Paulo.
O Porsche dirigido por Fernando Sastre atingiu a traseira de um Renault Sandero conduzido por Ornaldo, que trabalhava como motorista de aplicativo.
O limite de velocidade no trecho era de 50 km/h. Uma análise pericial apontou que o Porsche chegou a aproximadamente 156 km/h momentos antes da colisão. Outra referência pericial utilizada na cobertura do processo aponta cerca de 136 km/h no instante do impacto.
Ornaldo foi socorrido e encaminhado ao Hospital Municipal do Tatuapé, mas não resistiu aos ferimentos.
Fernando deixou o local após a ocorrência, acompanhado da mãe, e se apresentou posteriormente à polícia. Ele não realizou o teste do bafômetro no momento do acidente.
Mãe do empresário aponta possível falha mecânica
Durante o primeiro dia do julgamento, Daniela Cristina de Medeiros Andrade, mãe de Fernando, apresentou a versão de que uma falha mecânica no Porsche poderia ter contribuído para a colisão.
Segundo ela, uma análise contratada pela defesa teria identificado problemas no funcionamento do veículo.
A hipótese integra a argumentação defensiva e será analisada em conjunto com os demais elementos do processo. A existência de falha mecânica como causa determinante do acidente não foi estabelecida como fato pelo júri.
O que acontece no segundo dia do julgamento?
Nesta quinta-feira (29), a previsão é de continuidade da produção de provas, com a possibilidade de novos depoimentos e do interrogatório de Fernando Sastre.
Entre as pessoas que poderão ser ouvidas está uma policial militar que participou do atendimento à ocorrência e liberou o empresário do local sem a realização do teste do bafômetro.
Também são esperadas manifestações de profissionais técnicos ligados à análise das provas periciais.
Depois dessa etapa, acusação e defesa deverão apresentar seus argumentos aos sete jurados responsáveis por decidir sobre os crimes submetidos ao Tribunal do Júri.
O Ministério Público sustenta a acusação de homicídio com dolo eventual, modalidade em que uma pessoa assume o risco de provocar a morte, além da imputação relacionada às lesões sofridas pelo passageiro.
A defesa afirma que o acidente decorreu de imprudência e busca a desclassificação para homicídio culposo, quando não há intenção de matar nem assunção do risco.
Fernando Sastre pode ser condenado a mais de 20 anos?
O Ministério Público pede uma condenação superior a 20 anos de prisão. A pena, entretanto, dependerá das decisões dos jurados e da sentença a ser fixada pela Justiça.
Fernando Sastre está preso preventivamente desde maio de 2024. A prisão preventiva é uma medida cautelar e não representa condenação definitiva.
Até a conclusão do julgamento, o empresário continua na condição de réu, com direito à presunção de inocência e à apresentação de sua defesa.
A expectativa é que o júri seja concluído nesta quinta-feira, mas a duração dos depoimentos, do interrogatório e dos debates poderá alterar o horário da decisão.

