Israel toma Castelo de Beaufort e aprofunda ofensiva no sul do Líbano
O Exército de Israel toma o histórico Castelo de Beaufort, no sul do Líbano, no fim de maio de 2026, e amplia a ofensiva terrestre contra o Hezbollah. A captura do ponto estratégico marca uma escalada do conflito na fronteira e provoca reação imediata do governo libanês e de potências estrangeiras.
Castelo simbólico volta ao centro da guerra
Localizado sobre o vale do rio Litani, a cerca de 14,5 km da fronteira israelense, o Castelo de Beaufort volta a ser peça central de uma guerra que não é nova. Construído há cerca de 900 anos, ainda nas Cruzadas, o forte domina a cordilheira e permite vigiar, de um único ponto, vilarejos, estradas e rotas usadas há décadas por grupos armados no sul do Líbano.
As forças israelenses já haviam ocupado o castelo em 1982, na Primeira Guerra do Líbano, e só deixaram a posição em 2000, ao se retirar da zona de segurança que mantinham no país vizinho. Quarenta e quatro anos depois da primeira captura, a bandeira israelense volta a ser hasteada sobre o forte. O ministro da Defesa, Israel Katz, faz questão de lembrar que a mesma Brigada Golani que tomou o local na época retorna agora ao ponto alto da montanha.
Benjamin Netanyahu usa o momento para dar um sentido político ao avanço militar. Em declaração no domingo após a conquista, o primeiro-ministro afirma que a operação representa “um estágio decisivo e uma mudança decisiva em nossa política”. Ele diz que Israel “quebra a barreira do medo” e passa a “operar em todas as frentes — na Síria, em Gaza, no Líbano”. O objetivo, segundo ele, é “aprofundar e expandir nosso controle sobre os lugares que estavam sob o controle do Hezbollah”.
A tomada de Beaufort ocorre enquanto unidades terrestres israelenses cruzam, de forma cada vez mais nítida, os limites informais traçados ao longo do rio Litani após conflitos anteriores. Militares admitem que “um número significativo de soldados terrestres” participa da ofensiva e que a operação “se expande para áreas adicionais” no interior libanês.
Escalada militar atinge civis e acende alerta externo
O combate em torno de Beaufort se insere em uma campanha mais ampla contra o Hezbollah, apoiado pelo Irã. Israel afirma responder a uma sequência de ataques com drones explosivos, foguetes e mísseis lançados a partir do Líbano, que miram tanto tropas israelenses dentro do território libanês quanto comunidades civis do outro lado da fronteira. No sábado anterior à captura, o Hezbollah dispara cerca de 25 projéteis contra o norte de Israel, levando à suspensão de aulas em escolas próximas à linha de separação.
As Forças de Defesa de Israel ampliam, em paralelo, a zona de evacuação recomendada no sul do Líbano. Em poucos dias, emitem dois alertas sucessivos para que moradores deixem toda a região situada ao sul do rio Zahrani. Um porta-voz militar avisa que “qualquer pessoa presente perto de elementos, instalações ou meios de combate do Hezbollah põe em risco sua vida”. Na prática, centenas de milhares de libaneses encaram a perspectiva de novo deslocamento em uma área historicamente marcada por êxodos em massa.
O impacto não fica restrito às ordens de retirada. No domingo, o Ministério da Saúde do Líbano informa que 13 funcionários do hospital Hiram, na cidade costeira de Tiro, ficam feridos após um ataque aéreo nas proximidades do complexo. A explosão causa danos significativos à estrutura. Do lado israelense, as autoridades confirmam mais uma morte entre seus soldados, elevando para 25 o número de militares mortos desde o início da campanha terrestre no Líbano.
As autoridades libanesas reagem com dureza. Em pronunciamento pela TV, o primeiro-ministro Nawaf Salam acusa Israel de adotar “uma política de terra arrasada e punição coletiva” no sul do país. Ele afirma que o Líbano assiste, mais uma vez, a uma guerra travada por outros em seu território, entre Israel e Estados Unidos de um lado e o Irã do outro. Para Salam, apenas as conversas mediadas em Washington oferecem uma saída, ainda que o Hezbollah não participe formalmente das delegações.
A pressão internacional cresce. A França, que mantém laços históricos e tropas de paz no Líbano, pede uma reunião emergencial do Conselho de Segurança da ONU para discutir a ofensiva israelense. O presidente Emmanuel Macron escreve na rede X que “é urgente que as armas se silenciem — todas elas, e para sempre”. Ele afirma que “nada justifica a grande escalada atualmente em andamento no sul do Líbano”. O chanceler francês, Jean-Noël Barrot, classifica a estratégia de Israel como “um grande erro”. O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, fala em “motivo de séria preocupação” e alerta que qualquer nova escalada “provocará novas ondas de deslocamento no Líbano”.
Os números reforçam o custo humano da guerra. Desde 2 de março, quando o Hezbollah lança foguetes contra Israel em resposta a um ataque que mata o líder supremo iraniano, Ali Khamenei, o Líbano contabiliza mais de 3,3 mil mortos, segundo autoridades locais. Do lado israelense, além dos 25 militares mortos, comunidades inteiras vivem sob sirenes constantes, abrigos lotados e incerteza sobre um eventual retorno à rotina.
Cessar-fogo em frangalhos e disputa por controle
A captura de Beaufort consolida, no terreno, o que diplomatas descrevem como o colapso de um cessar-fogo já frágil. O acordo, mediado pelo governo americano, entra em vigor no mês anterior e é prorrogado duas vezes. Israel acusa o Hezbollah de violar os termos com ataques quase diários, enquanto autoridades libanesas apontam os bombardeios israelenses como o principal desrespeito. Na prática, o cessar-fogo existe apenas no papel, mas uma quarta rodada de negociações continua prevista para esta semana em Washington.
O movimento militar israelense além do Litani reabre antigas feridas no Líbano. Para muitos libaneses, ver outra vez tropas e bandeiras israelenses em Beaufort é reviver o período da ocupação, entre 1982 e 2000, quando o sul do país se torna uma zona tampão sob controle direto de Israel e de milícias aliadas. Agora, a cidade de Nabatieh, mais ao norte, entra na linha de fogo, alvo frequente de ataques aéreos, enquanto vilarejos menores perdem hospitais, escolas e estradas em questão de dias.
Em Israel, o governo apresenta a ofensiva como resposta necessária aos ataques do Hezbollah e como condição para que famílias possam voltar às comunidades evacuadas na fronteira norte. Israel Katz afirma que assumir o controle do castelo e da cordilheira vizinha é “um passo importante na proteção das comunidades israelenses do outro lado da fronteira”. A oposição, contudo, cobra garantias de que a escalada não arraste o país para mais uma ocupação prolongada do território libanês, com custos financeiros e humanos difíceis de sustentar.
No campo regional, a tomada de Beaufort é interpretada como recado direto ao Hezbollah e a Teerã. Ao mostrar capacidade de avançar com tropas terrestres além da linha do Litani, Israel sinaliza que está disposto a assumir o risco de uma guerra mais longa para tentar empurrar o grupo xiita para mais longe da fronteira. Analistas alertam que, se o Hezbollah responder com foguetes de maior alcance ou ataques mais profundos em território israelense, o confronto pode rapidamente ultrapassar a escala atual e envolver outros atores, inclusive milícias aliadas no Iraque e na Síria.
Diplomatas em Beirute e Jerusalém descrevem um cenário paradoxal. As partes se acusam de violar o cessar-fogo, mas nenhuma quer ser responsabilizada pelo rompimento definitivo de um canal de negociação que ainda pode limitar danos. Salam insiste que as conversas em Washington são “a única rota do Líbano para sair do conflito”, embora admita que o governo e o Exército libaneses continuam, em grande medida, espectadores da disputa entre Israel e Hezbollah.
A captura do Castelo de Beaufort cristaliza, em uma única imagem, as várias camadas desta guerra: memória de antigos conflitos, disputa por território e símbolos, pressão interna sobre lideranças políticas e cálculo de potências regionais e globais. Nas próximas semanas, as atenções se concentram em três frentes: a velocidade do avanço terrestre israelense além do Litani, a intensidade da resposta do Hezbollah e a capacidade de Estados Unidos, França e outros aliados de transformar apelos públicos por trégua em compromissos concretos. Enquanto isso não acontece, o castelo que domina o vale do Litani volta a ser, mais uma vez, mirante de uma região em suspensão.
