Drone atinge prédio ao lado de reator em Zaporizhzhia, diz AIEA
Um drone atinge, em 31 de maio de 2026, um prédio adjacente aos reatores da usina nuclear de Zaporizhzhia, no sul da Ucrânia ocupada pela Rússia. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) confirma danos a cerca de dez metros de uma sala de reator, mas afirma que os níveis de radiação permanecem normais.
Ataque à maior usina nuclear da Europa expõe risco extremo
A confirmação chega no fim de semana, depois que a equipe da AIEA inspeciona o complexo e encontra danos na parte externa do edifício de turbinas. Técnicos relatam marcas compatíveis com o impacto de um drone, em uma área colada a vários blocos de reatores que, desde 2022, se tornam símbolo da vulnerabilidade nuclear em plena guerra.
O ataque ocorre em uma usina que fornece, em tempos de paz, cerca de um quinto da eletricidade da Ucrânia e abriga seis reatores de grande porte. O episódio reacende, em poucos segundos, o temor de um novo acidente em escala continental, mais de quatro décadas após Chernobyl e a pouco mais de 1.000 quilômetros de capitais como Varsóvia e Berlim.
Inspetores da AIEA que permanecem na usina relatam ter ouvido o sobrevoo de drones e disparos no sábado e precisaram se abrigar em instalações internas. Após a saída do abrigo, fotografam o telhado danificado no edifício de turbinas, um anexo ligado às unidades nucleares por um emaranhado de cabos, tubulações e equipamentos vitais de geração de energia.
O diretor-geral da agência, o argentino Rafael Grossi, reage em público quase no mesmo ritmo em que as imagens circulam. Em postagem na rede X, ele adverte que “atacar instalações nucleares é como brincar com fogo” e insiste que “não deve haver nenhum tipo de ataque a partir da usina nem contra ela”. A mensagem mira, ao mesmo tempo, Moscou e Kiev.
Rússia e Ucrânia travam guerra de versões sobre autoria
O Ministério da Defesa da Rússia afirma que o impacto ocorre “a dez metros da sala do reator”, sublinhando a proximidade do dano em relação ao coração da unidade nuclear. O diretor-geral da estatal russa de energia atômica, a Rosatom, Alexey Likhachev, fala em “mais um passo rumo a um incidente que, com grande probabilidade, afetará até mesmo aqueles que vivem muito longe das fronteiras da Rússia e da Ucrânia”.
Relatos da Rosatom indicam que o drone é controlado por um cabo de fibra óptica, tecnologia que reduz o risco de interferência eletrônica e, segundo a estatal, afasta qualquer hipótese de acidente. Na prática, Moscou tenta reforçar a ideia de um ataque deliberado, preparado com antecedência e com objetivo militar ou político claro.
Kiev reage imediatamente. Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia classifica as acusações russas de “desprovidas de lógica” e nega qualquer envolvimento de suas forças. “Não está claro por que a Ucrânia atacaria sua própria usina nuclear situada em seu próprio território, que ela mesma busca recuperar sob seu controle soberano”, afirma a chancelaria, lembrando que Zaporizhzhia é ocupada por tropas russas desde os primeiros dias da invasão, em 2022.
Autoridades ucranianas já vinham acusando Moscou de usar a usina como escudo, estacionando equipamentos militares próximo aos reatores e lançando ataques a partir do complexo. O Kremlin, por sua vez, acusa Kiev de bombardear a planta repetidas vezes, numa disputa de narrativas que transforma cada novo ataque em munição política para consumo interno e disputas diplomáticas.
Em paralelo ao incidente no edifício de turbinas, a administração instalada pelos russos na usina informa outro ataque, atribuído à Ucrânia, contra a oficina de transporte do complexo. O local, que já é alvo em diferentes ocasiões nos últimos meses, concentra veículos e equipamentos de apoio logístico da operação russa.
Risco nuclear se torna peça de pressão no tabuleiro da guerra
O impacto do drone não altera, segundo a AIEA, os indicadores de radiação dentro e fora do complexo. Sensores espalhados pela área registram níveis considerados normais, o que afasta, por ora, qualquer necessidade de evacuação em massa ou restrição de consumo de água e alimentos na região.
Especialistas ouvidos pela agência têm repetido que o desenho dos reatores mais modernos, com estruturas de contenção de concreto armado e múltiplos sistemas de segurança, reduz a chance de um desastre instantâneo como o de Chernobyl em 1986. A preocupação, agora, está na soma de danos sucessivos em áreas de apoio, cabines elétricas, sistemas de refrigeração e linhas de transmissão, que mantêm a usina estável.
Cada explosão próxima aos prédios nucleares pressiona uma infraestrutura que já opera em situação de emergência há mais de quatro anos de guerra. Funcionários ucranianos seguem trabalhando sob comando russo, com rotinas alteradas, acessos restritos e poucas garantias de descanso adequado. Qualquer falha humana em um ambiente assim pode ter efeitos em cadeia.
Os governos europeus acompanham o caso com atenção redobrada. Zaporizhzhia é a maior usina nuclear do continente e, em caso de vazamento relevante, partículas radioativas poderiam viajar milhares de quilômetros em poucos dias, dependendo dos ventos. Um incidente grave afetaria agricultura, abastecimento de água e cadeias de exportação em vários países, com prejuízos calculados em bilhões de euros.
Para Moscou, a narrativa de que a Ucrânia ataca uma usina em seu próprio território serve para minar o apoio militar ocidental a Kiev e alimentar o discurso de irresponsabilidade do governo ucraniano. Para Kiev, a insistência em negar qualquer ataque direto aos reatores é vital para manter a confiança de aliados europeus e da opinião pública interna, que teme um novo trauma nuclear.
Pressão internacional aumenta por zona desmilitarizada
O novo ataque reacende pedidos da AIEA e de diplomatas europeus por uma zona de segurança e proteção em torno de Zaporizhzhia, ideia defendida por Grossi desde 2022. O plano prevê a retirada de armamentos pesados, a proibição de ataques a uma área definida em torno da usina e regras claras de inspeção internacional contínua, algo que até hoje esbarra em desconfianças mútuas entre Moscou e Kiev.
Negociações informais ocorrem em paralelo às conversas mais amplas sobre o futuro da guerra, mas não avançam para um acordo formal de desmilitarização do entorno da usina. Sem um entendimento, cada novo episódio como o de 31 de maio reforça o caráter de refém que Zaporizhzhia assume no conflito: a segurança nuclear se torna um trunfo nas mesas de negociação.
Diplomatas veem na escalada recente com drones um sinal de que o combate ao redor da usina tende a se tornar mais tecnológico e menos previsível. A adoção de sistemas guiados por fibra óptica, menos sujeitos a interferências, indica uma corrida silenciosa por armas capazes de driblar defesas eletrônicas, o que complica ainda mais o cálculo de risco.
Grossi promete manter a equipe da AIEA no local e ampliar relatórios públicos sobre a segurança da usina nas próximas semanas. A agência prepara novas inspeções detalhadas, com ênfase nas áreas danificadas, e atualiza planos de contingência para cenários de perda de energia, ataque prolongado ou danos a sistemas de refrigeração.
Na ausência de um cessar-fogo ou de um pacto específico para instalações nucleares, a pergunta que permanece em aberto é por quanto tempo Zaporizhzhia seguirá sendo testada na linha de frente de uma guerra que ainda não mostra sinais claros de fim.
