Irã segura Bélgica, segue invicto e deixa recado político em LA
Copa do Mundo
Irã mantém invencibilidade ao empatar com Bélgica e destaca tensões políticas antes do confronto com Egito.
A seleção iraniana de futebol empata em 0 a 0 com a Bélgica neste domingo (21), em Los Angeles, mantém a invencibilidade na Copa de 2026 e deixa o estádio falando em superação, política e logística. O resultado preserva o sonho inédito de classificação ao mata-mata, mas escancara o desgaste fora de campo.
Retranca, VAR e expulsão em noite tensa no SoFi
O SoFi Stadium recebe um jogo que parece treino de ataque contra defesa. A seleção belga de futebol ocupa o campo iraniano desde o início, mas tromba em duas linhas quase intransponíveis. Amir Ghalenoei arma o Irã em esquemas 6-3-1 e 5-4-1, com nove jogadores atrás da linha da bola por longos trechos.
Com De Bruyne, Trossard e Lukaku centralizando as jogadas, a Bélgica tenta furar o bloqueio sobretudo pelo lado esquerdo. Falta precisão no último passe, sobra paciência iraniana. Quando a marcação falha, aparece Alireza Beiranvand. O goleiro faz ao menos duas defesas decisivas, uma delas à queima-roupa, em chute de De Cuyper dentro da área.
O Irã não se limita a assistir. Aos 24 minutos do primeiro tempo, Taremi completa jogada ensaiada em cobrança de falta e abre o placar. A comemoração dura pouco. O VAR traça as linhas e aponta impedimento milimétrico. O gol é anulado, e o SoFi fica dividido entre vaias e aplausos.
Na etapa final, o roteiro se repete: Bélgica toda à frente, Irã comprimido atrás. Aos 20 minutos, o zagueiro Ngoy erra o tempo de bola, agarra Taremi no meio-campo e é expulso ao impedir o contra-ataque. Com um jogador a mais, o Irã se solta um pouco mais, assusta Courtois em chute de Ezatolahi e passa a administrar o empate.
Beiranvand ainda salva o time aos 40 minutos, novamente diante de De Cuyper, e consolida a imagem de paredão da Copa. O 0 a 0 final mantém iranianos e belgas com dois pontos em duas rodadas. A Bélgica soma agora empates com Egito (1 a 1) e Irã. Os asiáticos vêm de 2 a 2 contra a Nova Zelândia e seguem sem derrota.
Logística caótica e críticas à organização da Copa
O placar magro não conta toda a história da noite em Los Angeles. O Irã desembarca na cidade com menos de 16 horas de antecedência em relação ao jogo, após uma semana de mudanças forçadas de centro de treinamento e voos extras pelo continente.
Na entrevista coletiva, Amir Ghalenoei não mede palavras. “Nós chegamos ao local da partida com menos de 16 horas de antecedência. Não conseguimos fazer adequadamente o nosso processo de adaptação, nem nos preparar para a competição. Mudaram nosso centro de treinamento duas vezes. Sem nos informar”, afirma o técnico da seleção iraniana de futebol.
Ele detalha o vaivém às pressas, que inclui deslocamento até Tijuana. “Escolhemos dois centros de treinamento. Na primeira vez, disseram que não poderíamos ficar naquele local. Escolhemos outro centro de treinamento. Faltavam dias para a competição, disseram que também não poderíamos ficar lá e que deveríamos ir para Tijuana. Agradeço aos mexicanos. Mas esses voos e deslocamentos certamente têm impacto nos aspectos técnicos da equipe”, completa.
Ghalenoei associa a atuação de resistência em campo ao contexto fora dele. “A situação está sendo realmente muito, muito difícil para nós. Nossos jogadores estão realmente se sacrificando, estão se esforçando e jogando com o coração, e a história e as gerações futuras se lembrarão da grandeza desses jogadores”, diz, ao justificar a retranca diante de uma seleção belga de futebol mais qualificada tecnicamente.
O jogo transcorre sob segurança reforçada e protestos da comunidade iraniana em Los Angeles. As tensões políticas entre Teerã, Estados Unidos e Israel, já presentes desde a abertura da Copa, invadem o ambiente esportivo e ampliam a pressão sobre atletas e comissão técnica.
Mensagem no vestiário une futebol, luto e política
Depois de 180 minutos em Los Angeles, somando as partidas contra Nova Zelândia e Bélgica, a seleção iraniana de futebol decide se despedir da cidade pelo vestiário. Em um cartaz colado na parede, o time deixa um texto em inglês, divulgado nas redes sociais oficiais, inclusive no Instagram da seleção.
“Da antiga Pérsia de milênios atrás ao Irã civilizado de hoje. O espírito do Irã permanece vivo e inabalável. Viemos a Los Angeles com orgulho, competimos com honra e partimos com dignidade. Obrigado, Los Angeles, pela sua hospitalidade. E obrigado a cada iraniano que dedicou seu coração, sua voz e sua alma ao Irã ao longo destes 180 minutos. Que a paz, o respeito e a amizade prevaleçam entre todas as nações”, diz a mensagem.
O texto traz duas hashtags: #168 e #Minab. É uma referência ao bombardeio de fevereiro de 2026 a uma escola na cidade de Minab, no sul do Irã, que deixa 168 mortos, episódio atribuído pelo governo iraniano a EUA e Israel. O número ganha o gramado mundial ao lado do escudo da federação.
Em meio às restrições de entrada no país-sede e aos protestos nas arquibancadas, a mensagem transforma o 0 a 0 em símbolo de resistência. A equipe tenta se apresentar como porta-voz de um país sob tensão, sem abandonar o discurso de gratidão à torcida que lota o SoFi com bandeiras e faixas.
Chances no Grupo G e pressão sobre Egito e Bélgica
O empate mantém o Grupo G aberto. O Egito lidera com quatro pontos e encara o Irã em Seattle, na madrugada de sexta para sábado, às 0h de 26 de junho, pelo horário de Brasília. Os iranianos chegam à rodada final com dois pontos e uma conta simples: precisam vencer para seguir com chances reais de classificação inédita à fase mata-mata.
A Bélgica, também com dois pontos, enfrenta a Nova Zelândia no mesmo horário, em Vancouver. No outro extremo do grupo, seleção tajique de futebol e seleção uzbeque de futebol ainda aguardam estreia na Copa, em uma chave que mistura pesos médios e emergentes do futebol asiático.
A atuação deste domingo consolida a imagem do Irã como adversário incômodo. A seleção iraniana de futebol acumula jogos de sobrevivência recente contra rivais de diferentes perfis, de partidas contra seleção gambiana de futebol em amistosos às estatísticas de seleção iraniana de futebol x seleção costarriquenha de futebol em ciclos anteriores. Em Los Angeles, mostra que pode travar também uma potência europeia.
O estilo, porém, cobra preço. Com linhas tão recuadas, o time praticamente abdica da criação ofensiva por longos períodos. Contra um Egito mais confiante, o dilema tático deve se acentuar. Uma nova retranca pode não bastar se o grupo chegar à última rodada precisando de vitória.
A promessa da comissão técnica é mudar pelo menos o planejamento fora de campo. Ghalenoei garante que a seleção iraniana de futebol vai desembarcar em Seattle com dois dias de antecedência, para treinar e se adaptar com calma. A pressão agora recai sobre a organização da Copa, cobrada a evitar novos desencontros logísticos.
Se a invencibilidade sobreviver à viagem ao noroeste dos Estados Unidos, o Irã levará para a partida decisiva não apenas dois pontos, mas também um discurso de dignidade que ultrapassa o gramado. A próxima rodada dirá se o recado deixado no vestiário de Los Angeles será lembrado como epílogo de resistência ou prólogo de uma classificação histórica.
O que o Irã precisa para se classificar no Grupo G?
O Irã chega à última rodada com dois pontos. Uma vitória sobre o Egito, líder com quatro, deixa a seleção muito perto da vaga e aumenta a pressão sobre Bélgica e Nova Zelândia em Vancouver.
Por que o empate com a Bélgica é considerado positivo para o Irã?
O resultado mantém a seleção iraniana de futebol invicta contra uma potência europeia, reforça a confiança do sistema defensivo e preserva chances de classificação antes de enfrentar o Egito.
Qual o peso da mensagem deixada no vestiário em Los Angeles?
O texto conecta desempenho em campo, luto por Minab e apelo por paz. Dá à campanha iraniana um sentido político e emocional que vai além dos 0 a 0 da tabela.
