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Irã reage a exigências de Trump e acusa EUA de minarem acordo

O governo iraniano reage neste sábado (30) às novas exigências de Donald Trump sobre programa nuclear e Estreito de Ormuz. Teerã acusa Washington de sabotar as negociações, mas afirma que o diálogo continua.

Irã vê traição à diplomacia em meio a negociações em curso

O confronto retórico ganha força depois que Trump usa as redes sociais para impor novas condições a um memorando de entendimento ainda em elaboração. Ele afirma que o Irã “deve concordar que nunca terá uma arma nuclear ou bomba”, exige que o Estreito de Ormuz seja “imediatamente aberto” sem qualquer tipo de pedágio ou restrição ao tráfego e cobra a remoção das minas colocadas por Teerã na hidrovia.

A resposta vem de Mohsen Rezaie, assessor do líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, figura influente na elite de segurança do país. “Como previsto, o presidente dos Estados Unidos está traindo a diplomacia pela terceira vez”, escreve Rezaie na rede X. Ele acusa Washington de ter atacado o Irã duas vezes enquanto as conversas avançam e afirma que as novas exigências mostram que Trump “não está inclinado à negociação e que está buscando outros objetivos”.

Estreito de Ormuz no centro da disputa

O Estreito de Ormuz volta ao centro da cena como um gargalo estratégico que liga o Golfo Pérsico ao restante do planeta. Cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo passa por ali todos os dias, em superpetroleiros que cruzam uma faixa de mar com pouco mais de 50 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito. Qualquer sinal de bloqueio ou aumento de risco na travessia costuma pressionar preços globais de combustíveis em poucas horas.

Trump vincula a abertura total da rota à flexibilização do bloqueio americano sobre portos iranianos, imposto em meio à disputa nuclear. Ele sinaliza que as restrições poderiam ser suspensas como parte do entendimento em discussão, mediado por interlocutores de terceiros países. Em Teerã, a leitura é de que a Casa Branca tenta transformar uma negociação sobre limites ao programa nuclear em um pacote mais amplo, que reconfigura o equilíbrio militar no Golfo.

Negociações avançam, mas com “pequenas divergências”

Apesar do tom duro nas redes sociais, integrantes da delegação iraniana insistem que o canal diplomático segue aberto. “As negociações com os EUA estão em andamento e ainda existem pequenas divergências”, afirma Saeed Ajorloo, membro da equipe de negociação, em entrevista à televisão estatal. O principal negociador, Mohammad Bagheri Ghalibaf, republica a fala em seus próprios perfis, em um gesto calculado para mostrar coesão interna.

Ajorloo detalha um calendário que prevê um diálogo de 60 dias sobre os anexos e a implementação caso o texto principal seja aprovado. O cronograma reforça que, mesmo em meio à guerra de narrativas, ambos os lados enxergam espaço para um acordo gradual. A disputa pública se desloca, assim, para o desenho das garantias e das contrapartidas econômicas que acompanharão o compromisso de não proliferação.

Memória do acordo nuclear e impacto regional

A nova rodada de pressões revive fantasmas do acordo nuclear de 2015, assinado entre o Irã e seis potências e abandonado por Washington três anos depois. Na época, a saída unilateral dos EUA provocou a volta de sanções e empurrou Teerã a retomar parte das atividades de enriquecimento de urânio. Desde então, a região vive ciclos de tensão que envolvem ataques a navios, drones abatidos e ameaças de fechamento do Estreito de Ormuz.

Hoje, qualquer escalada entre Washington e Teerã repercute além das fronteiras do Golfo. A segurança energética da Europa, dependente de rotas alternativas de petróleo e gás, e o custo do frete marítimo global entram na equação. Países do Golfo que são aliados dos EUA, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, observam com cautela, já que um erro de cálculo pode transformar disputas diplomáticas em incidentes militares em minutos.

Quem ganha e quem perde com o impasse

O embate direto entre Trump e a cúpula iraniana aumenta a incerteza para governos e empresas. Armadores que cruzam o estreito calculam o risco de novas minas ou inspeções mais duras, o que encarece o seguro marítimo e pode adicionar dólares extras por barril ao custo do petróleo exportado. Companhias aéreas e de logística, que dependem de previsibilidade em rotas e prazos, acompanham cada sinal de distensão ou endurecimento com atenção diária.

Dentro do Irã, o impasse alimenta o discurso de setores que rejeitam qualquer entendimento com Washington e defendem a manutenção de um arsenal nuclear latente como garantia de sobrevivência do regime. Nos EUA, a retórica firme de Trump agrada parte de sua base política, mas amplia receios entre aliados europeus, que preferem uma solução negociada e previsível. Organismos internacionais, como a Agência Internacional de Energia Atômica, observam à distância, cientes de que qualquer acordo precisa ser verificável para ter credibilidade.

Próximos capítulos sob pressão do relógio

Os próximos 60 dias se desenham como um período de teste para a disposição real de compromisso de cada lado. Se os negociadores conseguirem transformar o rascunho atual em um texto final, a disputa em torno do Estreito de Ormuz e das sanções pode dar lugar a um processo mais técnico, acompanhado por inspetores e mediadores. Se o texto naufragar, a tendência é de nova rodada de sanções e de reforço militar no Golfo, com impacto direto sobre mercados e sobre a política interna dos dois países.

Entre recados públicos e conversas reservadas, Irã e Estados Unidos tentam mostrar firmeza sem fechar de vez a porta da diplomacia. A dúvida que permanece é se as exigências exibidas nas redes sociais refletem a posição final de cada lado ou se ainda fazem parte de um jogo de pressão calculado, cujo custo recai, em última instância, sobre a economia mundial.

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