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Irã reage a ameaça de Trump e promete apoio total a Omã

O governo do Irã condena, nesta quarta-feira (27), as ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o controle do Estreito de Ormuz. Teerã manifesta apoio explícito a Omã e responde com retaliação militar a ataques americanos na região.

Disputa aberta pela rota estratégica do petróleo

O embate gira em torno de uma faixa de água de pouco mais de 50 quilômetros de largura, por onde circulam diariamente cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo. O Estreito de Ormuz, entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, volta ao centro da crise depois que Trump declara que a hidrovia “estará aberta a todos” e que os EUA “a vigiarão”.

Em tom de ameaça direta, o presidente americano avisa que Omã “se comportará como todos os outros ou teremos que explodi-los”. A fala atinge um dos poucos países do Golfo que mantêm canais de diálogo com Washington e Teerã e tradicionalmente atuam como mediadores. O recado rompe a cautela que costuma marcar a diplomacia na região e acende o alerta entre governos árabes e chancelerias europeias.

Horas depois, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baqaei, reage em comunicado oficial. Ele condena o que chama de “retórica ameaçadora de autoridades americanas contra o Irã e alguns outros países da região” e manifesta “solidariedade ao país amigo e irmão de Omã”. O texto ressalta que a gestão do estreito “não tem relação com os Estados Unidos” e será coordenada “em entendimento direto com Omã”.

A resposta diplomática vem em meio a uma escalada militar. A aviação americana atinge alvos na cidade portuária de Bandar Abbas, no sul do Irã, ponto-chave de saída de navios-tanque pelo Estreito de Ormuz. Baqaei classifica os bombardeios como “ações agressivas contra a integridade territorial e a soberania nacional do Irã” e promete reação “no tempo e na forma adequados”.

Bombardeios, retaliação e risco de erro de cálculo

Washington apresenta a operação de forma oposta. Um oficial americano, sob condição de anonimato, afirma que os ataques são “ponderados, puramente defensivos e destinados a manter o cessar-fogo”. A versão reforça a narrativa da Casa Branca de que os EUA apenas respondem a ameaças contra embarcações e bases militares na região do Golfo.

Teerã rejeita a justificativa. Em retaliação direta, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) lança mísseis contra uma base americana não identificada na região, segundo fontes militares iranianas. As autoridades de Teerã não divulgam o número de projéteis disparados nem os danos causados, mas descrevem a ação como uma “mensagem clara” de que o país está disposto a responder a qualquer ataque perto de Ormuz.

A escalada ocorre num cenário de sanções econômicas já pesadas. O órgão iraniano responsável pela regulação do tráfego no Estreito de Ormuz entra recentemente na lista de alvos financeiros de Washington. As medidas travam negócios com empresas de logística e seguros marítimos e aumentam o custo de operação de petroleiros, que já cruzam a área sob constante vigilância militar.

Navios-tanque deixam o estreito carregando cerca de 6 milhões de barris de petróleo por dia, segundo estimativas de consultorias de energia. A menor alteração no fluxo, mesmo de algumas centenas de milhares de barris, costuma provocar alta imediata nas cotações do Brent e do WTI, referências globais do setor. Investidores acompanham cada declaração de Trump e de autoridades iranianas em busca de sinais sobre o risco de interrupção de rotas.

O próprio histórico da região funciona como alerta. Em 2019, ataques a petroleiros e instalações na Arábia Saudita levam o barril a subir quase 15% em um único dia, a maior alta em décadas. A lembrança alimenta o temor de que um novo ciclo de confrontos, agora com ameaças explícitas entre EUA, Irã e Omã, possa repetir o choque de preços em um mercado já pressionado por conflitos em outras frentes energéticas.

Impacto global e isolamento crescente dos EUA no Golfo

O apoio público de Teerã a Omã tem peso político que vai além dos 250 quilômetros de extensão do estreito. A mensagem é dirigida também a monarquias do Golfo que, embora dependam da proteção militar americana, veem com desconforto o ataque verbal de Trump a um vizinho tradicionalmente moderado. Diplomatas da região avaliam, em privado, que o tom adotado pela Casa Branca pode empurrar ainda mais países árabes a buscar equilíbrio entre Washington e Teerã.

Para o Irã, a crise oferece oportunidade de se apresentar como defensor da soberania regional contra “interferências externas”. A retórica ecoa discursos usados desde a Revolução Islâmica de 1979, mas agora ganha novo impulso com a insatisfação de produtores de petróleo diante da volatilidade dos preços. Governos que dependem de receitas do barril veem com preocupação qualquer gesto que ameace o trânsito de navios em Ormuz, inclusive por parte dos EUA.

No curto prazo, companhias de transporte marítimo e seguradoras já recalculam riscos. Prêmios de seguro de guerra, cobrados para navios que cruzam zonas de conflito, tendem a subir caso se intensifiquem relatos de ataques de drones, mísseis ou sabotagens na rota. Grandes petrolíferas estudam rotas alternativas, mais longas e caras, passando pelo Mar Vermelho ou aumentando estoques estratégicos em portos fora do Golfo.

A declaração de Trump de que “nenhum país vai controlar” o estreito contrasta com a prática de décadas na região. O tráfego em Ormuz sempre dependeu de arranjos tácitos entre Irã, Omã e potências navais, incluindo força-tarefa multinacional liderada pelos EUA e pelo Reino Unido. Ao descartar qualquer tipo de coordenação política, Washington amplia o risco de incidentes envolvendo navios militares e civis em uma das faixas de mar mais congestionadas do planeta.

Próximo capítulo da crise no Golfo

Chancelarias europeias e asiáticas defendem, nos bastidores, um canal urgente de diálogo entre Teerã, Washington e capitais do Golfo. A avaliação é que um erro de cálculo, mesmo limitado a poucos mísseis ou a um confronto naval de curta duração, seria suficiente para interromper o fluxo de milhões de barris e mexer com a inflação global. A tensão em Ormuz se soma a conflitos em outras rotas energéticas, como o Mar Vermelho e o Mar Negro, e compõe um cenário de vulnerabilidade inédita para o comércio mundial.

Teerã indica que não pretende recuar do discurso de firmeza. Ao reiterar que a gestão do estreito “será coordenada com Omã”, o governo iraniano tenta transformar a ameaça de Trump em oportunidade para estreitar laços com o vizinho e se colocar como pilar de estabilidade regional. Washington, por sua vez, aposta na presença militar para sustentar a promessa de que manterá Ormuz “aberto a todos”. Entre os dois, petroleiros seguem cruzando a passagem sob a mira de navios de guerra, enquanto o mercado financeiro calcula quanto tempo a rota mais sensível do planeta suportará a pressão sem um novo choque de preços.

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