Grupo protocola pedido de impeachment de Osmar Stabile no Corinthians
Um grupo de sócios e conselheiros do Corinthians protocola, na manhã desta quarta-feira (15), o primeiro pedido de impeachment contra o presidente Osmar Stabile. O requerimento exige abertura imediata de processo e afastamento cautelar do dirigente.
Uso do Parque São Jorge e acusações de falta de transparência
O documento é entregue ao Conselho Deliberativo e mira o coração da atual gestão. Os autores acusam Stabile de violar o Estatuto Social e a legislação ao usar o Parque São Jorge como garantia em um acordo tributário bilionário, fechado com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), e de conduzir o clube com baixa transparência administrativa.
O acordo com a PGFN busca equacionar uma dívida estimada em R$ 1,2 bilhão. Segundo o pedido, o Corinthians oferece o conjunto de imóveis do Parque São Jorge, avaliado em R$ 602,2 milhões na transação tributária, como garantia em caso de calote. Os autores sustentam que a medida desonera o patrimônio social, expõe a sede histórica a risco de execução judicial e atropela exigências formais do Estatuto, que prevê quórum mínimo e maioria qualificada no Conselho para operações dessa natureza.
O texto cita ainda um ambiente de opacidade na condução do clube. Conselheiros e associados relatam pedidos ignorados pela diretoria em temas centrais: contratos administrativos, distribuição de ingressos, estrutura de cargos e salários, manutenção da Neo Química Arena, contratação de empresa de segurança e dados de um censo interno. Para os signatários, a ausência de respostas fere o dever de transparência e compromete a capacidade de fiscalização sobre a gestão.
Disputa política, acusações internas e impacto na gestão
O pedido é liderado por Antonio Roque Cittadini, ex-vice-presidente do Corinthians, ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo e derrotado na eleição indireta que leva Stabile ao poder em agosto de 2025. Ele não está sozinho. Assinam também os conselheiros e associados Alexandre Germano, ex-diretor financeiro, Cyrillo Cavalheiro Neto, Fernando Perino, ex-diretor jurídico adjunto, José Augusto Mendes, Marcelo Kahan Mandel, ex-diretor de relações internacionais, Peteson Ruan, Wilson Canhedo Júnior e Yun Ki Lee, ex-diretor jurídico do clube.
O grupo tenta transformar uma disputa política em processo institucional, com potencial de tirar Stabile do cargo menos de um ano após a posse. O movimento ocorre em um momento de fragilidade financeira e de desgaste interno, agravado por declarações públicas do próprio presidente sobre a existência de “funcionários fantasmas” no quadro do clube. De acordo com o requerimento, Stabile admite o problema em entrevistas, ao comentar cortes de pessoal e eventuais medidas contra ex-presidentes.
Os autores enxergam nessas falas um retrato de descontrole na gestão de recursos humanos e uma confissão de práticas irregulares que atravessam diferentes administrações. A peça cita ainda suposto descumprimento de prazos para divulgação de demonstrações financeiras. Atrasos ou ausência de balanços, apontam, ferem o Estatuto, contrariam normas legais e enfraquecem a leitura da real situação econômica do Corinthians por conselheiros, associados, patrocinadores e torcedores.
O pedido de impeachment chega ao Conselho Deliberativo em um momento em que o clube tenta reorganizar dívidas, renegociar contratos e manter competitividade esportiva. Uma eventual saída de Stabile, ainda em meio ao processo de equacionamento tributário com a União, pode afetar negociações em andamento, frear decisões estratégicas e acirrar a disputa entre grupos políticos que se alternam no poder alvinegro nas últimas décadas.
Crise institucional, risco patrimonial e próximos passos
O documento pede não apenas a abertura do processo, mas o afastamento cautelar de Stabile durante a apuração dos fatos e a possibilidade de responsabilização de todos os envolvidos, caso irregularidades sejam comprovadas. Na prática, a aprovação do pedido pelo Conselho abriria uma crise institucional imediata: o clube precisaria acionar a linha sucessória, reorganizar o comando da diretoria e dar respostas rápidas a credores e parceiros comerciais.
O uso do Parque São Jorge como garantia acende um alerta específico entre conselheiros e torcedores. A sede social, espaço simbólico e histórico do clube, fica formalmente exposta em caso de inadimplência no acordo com a PGFN. O patrimônio físico, estimado em R$ 602,2 milhões, torna-se peça central na discussão sobre o preço a pagar para reequilibrar uma dívida de R$ 1,2 bilhão e sobre o limite entre ousadia financeira e temeridade.
O documento é encaminhado a Leonardo Pantaleão, presidente em exercício do Conselho Deliberativo, que passa a ser o responsável por analisar a admissibilidade do pedido e definir os próximos passos, conforme as normas internas do Corinthians. A partir daí, o processo pode seguir para comissões específicas, debates em plenário e votação, em um rito que tende a mobilizar não apenas conselheiros, mas também a arquibancada.
Procurado, Stabile diz ter sido surpreendido pela informação e afirma que só se pronunciará depois de ter acesso integral ao conteúdo do pedido. A resposta formal do presidente, quando vier, deve pautar a narrativa pública e servir de termômetro para o humor de conselheiros e da base que o elegeu. Enquanto isso, a pergunta que ecoa dentro e fora do Parque São Jorge é se o clube consegue enfrentar uma crise política desse tamanho sem comprometer ainda mais sua estabilidade financeira e sua imagem junto a patrocinadores e torcedores.
