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Governo Lula vê aval direto de Trump a medidas dos EUA contra o Brasil

O governo Luiz Inácio Lula da Silva passa a admitir, nos bastidores, que Donald Trump avaliza as recentes medidas dos Estados Unidos contra o Brasil. A mudança de avaliação ocorre após o ex-presidente americano receber, na semana passada, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Casa Branca, em meio à ofensiva de Washington contra facções criminosas brasileiras e à adoção de novas tarifas sobre produtos nacionais.

Mudança de leitura em Brasília

Assessores do Planalto reconhecem que o discurso mudou em poucos dias. Até o fim de maio, integrantes do governo atribuem as ações contra o Brasil principalmente à ala mais ideológica da gestão republicana, personificada no secretário de Estado Marco Rubio. A narrativa servia para isolar a influência da direita brasileira na Casa Branca e reduzir o peso político de Jair Bolsonaro e seus aliados no tabuleiro externo.

A visita de Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência em 2026, altera esse cálculo. O senador é recebido por Trump em seu gabinete, no Salão Oval, acompanhado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro e do empresário Paulo Figueiredo. Menos de 48 horas depois, o governo americano anuncia a designação de facções brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas, um passo defendido há anos pelo bolsonarismo.

Na terça-feira (2), Trump publica em rede social uma foto ao lado de Flávio, tirada no Salão Oval. “Foi muito bom receber Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca — um jovem inteligente que ama muito seu país, o Brasil!”, escreve o republicano. O gesto é lido em Brasília como sinal explícito de alinhamento político, num momento em que Washington também anuncia novas medidas tarifárias e pressiona setores da produção brasileira.

No Planalto, a avaliação é que Trump não apenas é informado como chancela a ofensiva. Um auxiliar de Lula resume, em reservado: “Ficou claro que não é só a ala ideológica. As decisões passam pelo presidente”. O governo evita confronto público direto com Trump, mas admite que o episódio reorganiza forças na relação bilateral e aumenta a margem de ação do grupo bolsonarista na capital americana.

Tarifas, facções e disputa política

Os Estados Unidos anunciam, na última semana, três frentes de pressão sobre o Brasil. A mais sensível do ponto de vista da segurança pública é a inclusão de PCC e CV em listas de terrorismo, com impactos sobre fluxo financeiro, vigilância internacional e cooperação policial. O enquadramento aproxima a retórica de Washington da defesa do bolsonarismo no Congresso brasileiro, que tenta há anos rotular as facções como terroristas para ampliar instrumentos de repressão.

Na área econômica, o governo americano impõe uma taxa de até 12,5% vinculada a preocupações com trabalho forçado em cadeias produtivas que envolvem o Brasil. A medida afeta diretamente exportadores de setores intensivos em mão de obra e com histórico de fiscalização frágil, como parte do agronegócio, da mineração e da indústria têxtil. Nos bastidores, técnicos do Ministério da Fazenda calculam que, mantido o atual desenho, o impacto pode chegar a bilhões de reais em perda de competitividade ao longo de três anos.

Além da tarifa de até 12,5%, está na mesa uma sobretaxa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros, vinculada a negociações comerciais em curso. O Planalto descarta, neste momento, qualquer recuo dos Estados Unidos na classificação de PCC e CV como terroristas ou na cobrança já anunciada contra o trabalho forçado. Ainda assim, integrantes do Executivo apostam no grupo de trabalho bilateral, recém-criado, como saída para evitar a aplicação integral da sobretaxa de 25%.

O movimento expõe um duplo tabuleiro. No plano externo, Lula tenta preservar a agenda de reaproximação com Washington e reduzir atritos em meio à preparação para a cúpula do G7, marcada para este mês, onde assessores veem espaço para um encontro bilateral com Trump. No plano interno, o governo precisa responder à narrativa da oposição, que apresenta as decisões americanas como vitória da pressão bolsonarista sobre a Casa Branca.

Flávio Bolsonaro já explora o episódio. Em declarações recentes, o senador diz esperar que o “governo Trump” atenda seu pedido para rever o “tarifaço” contra produtos brasileiros, reforçando a ideia de influência direta sobre o republicano. A estratégia serve a dois objetivos: fortalecer sua pré-candidatura ao Planalto e desgastar a diplomacia lulista, acusada pela oposição de ser leniente com facções e pouco influente junto a Washington.

Diplomacia sob pressão e próximos movimentos

Diplomatas brasileiros avaliam que o reconhecimento, ainda que informal, do aval de Trump às medidas dos EUA muda o horizonte da política externa. Até agora, a aposta era confinar a ofensiva a setores específicos da administração republicana, sem comprometer o diálogo de alto nível. A leitura mais recente é que a disputa política doméstica do Brasil passa a transbordar de forma aberta para o Salão Oval.

O grupo de trabalho bilateral é visto no Itamaraty como o último amortecedor para evitar a sobretaxa de 25%. Técnicos já mapeiam cadeias produtivas mais expostas e buscam apresentar, em 60 a 90 dias, planos de rastreabilidade e certificação para reduzir suspeitas de trabalho forçado. O cálculo é que, se houver espaço político em Washington, esse esforço técnico pode sustentar uma flexibilização das tarifas extras, ainda que mantenha a pressão regulatória.

Os desdobramentos da designação de PCC e CV como terroristas também preocupam governadores e secretários de segurança. A classificação abre portas para maior troca de informações e bloqueio de recursos no exterior, mas acende o alerta para uma possível escalada de violência doméstica, caso as facções reajam ao aumento da cooperação internacional. Integrantes da cúpula policial veem, ao mesmo tempo, oportunidade de reforçar investigações financeiras e risco de radicalização do discurso punitivista no Congresso.

No cenário político, a foto de Trump com Flávio Bolsonaro circula com força nas redes de direita e consolida a tentativa de apresentar o senador como interlocutor preferencial de Washington. No governo, a reação é calibrar o tom e insistir em uma agenda pragmática com os Estados Unidos, centrada em comércio, clima e investimentos, enquanto monitora o efeito eleitoral do gesto do republicano.

Os próximos meses testam a capacidade de Lula de combinar pressão diplomática silenciosa com a necessidade de dar resposta pública a um eleitorado sensível a temas de segurança e emprego. A depender do que sair do grupo de trabalho e das conversas em torno do G7, o episódio atual pode marcar apenas o primeiro capítulo de uma relação bilateral mais tensa — ou o ponto de inflexão que definirá como o Brasil lida, daqui para frente, com um Trump fortalecido e um bolsonarismo com cadeira cativa na Casa Branca.

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