Ciencia e Tecnologia

Google lança Gemini 3.5 Flash e leva agentes de IA ao grande público

O Google lança em 19 de maio o Gemini 3.5 Flash, modelo de inteligência artificial que a empresa afirma ser quatro vezes mais rápido que rivais. A big tech passa a integrar agentes de IA diretamente ao Google Search e ao aplicativo Gemini, levando a disputa com a OpenAI para o centro do mercado consumidor.

Google leva agentes às massas e pressiona rivais

O anúncio ocorre no complexo que abriga a conferência anual de desenvolvedores do Google, na Califórnia, em um clima mais próximo de parque de diversões do que de palco solene de tecnologia. No centro da apresentação, Sundar Pichai, CEO da companhia, descreve uma virada: a inteligência artificial deixa de ser apenas uma ferramenta de bastidor e passa a agir como agente autônomo para tarefas diárias, de organizar viagens em grupo a acompanhar promoções de compras.

Esses agentes rodam sobre o Gemini 3.5 Flash, novo modelo otimizado para velocidade e custo, que o Google diz operar cerca de quatro vezes mais rápido que concorrentes de ponta. Parte deles aparece no aplicativo Gemini, que hoje soma 900 milhões de usuários mensais, segundo a empresa. Outra parte é acoplada diretamente ao Google Search, usado por mais de 3 bilhões de pessoas, o que transforma a busca em um ponto de entrada massivo para a nova geração de IA.

Pichai apresenta exemplos de uso que os executivos tratam como demonstrações do que vem pela frente. Um agente batizado de Gemini Spark consegue ler e-mails, montar um roteiro de viagem em grupo, fazer reservas e ajustar horários mesmo depois que o usuário fecha o notebook ou deixa o celular de lado. No próprio mecanismo de busca, “agentes de informação” monitoram campeonatos esportivos, oscilação de ações na bolsa ou quedas de preço em sites de comércio eletrônico e retornam ao usuário quando algo relevante acontece.

A estratégia mira diretamente a liderança conquistada pela OpenAI com o ChatGPT desde o fim de 2022. Pouco depois de o Google revelar a primeira geração da família Gemini 3, em novembro passado, Sam Altman, CEO da OpenAI, envia um “código vermelho” aos funcionários para acelerar melhorias no chatbot. Nos meses seguintes, a rival concentra esforços em seu agente de programação, o que abre espaço para o Google tentar ocupar o centro da experiência de IA do consumidor comum.

Disputa de mercado bilionário e corrida por eficiência

O lançamento do Gemini 3.5 Flash ocorre em um momento em que o negócio de IA deixa de ser promessa e passa a pressionar a estrutura financeira da Alphabet, controladora do Google. O próprio Pichai revela que o consumo mensal de tokens, a unidade usada para medir processamento em modelos de linguagem, salta de 480 trilhões para 3,2 quatrilhões em um ano. Cada token exige poder de computação e energia elétrica, dois insumos que encarecem de forma acelerada.

Para segurar esse volume, o Google projeta gastos de capital de cerca de US$ 190 bilhões em 2026, seis vezes mais do que desembolsava quatro anos atrás. Investidores, por ora, parecem recompensar a aposta: o valor de mercado da Alphabet supera US$ 4 trilhões em janeiro e agora se aproxima de US$ 5 trilhões, consolidando a empresa como uma das gigantes absolutas da economia digital.

A conta, porém, não fecha apenas com entusiasmo de mercado. Pichai admite que algumas grandes empresas “já estouraram seus orçamentos anuais de tokens — e estamos apenas em maio”. Os consumidores, diz o executivo, ainda estão longe de um comportamento semelhante, fenômeno que analistas apelidam de “tokenmaxxing”. Para transformar experimentação em receita recorrente, o Google precisa apertar parafusos de monetização.

Uma das frentes é técnica: tornar cada token mais barato, com modelos mais eficientes como o próprio Gemini 3.5 Flash. Outra frente é comercial. Usuários do Gemini recebem avisos de que limites de uso de IA serão aplicados, com patamares mais generosos para assinantes, segundo o analista Richard Windsor, da consultoria Radio Free Mobile. A medida funciona ao mesmo tempo como contenção de custo e incentivo para migrar para planos pagos.

A companhia também volta a recorrer à máquina de publicidade que financia sua operação há duas décadas. As respostas com IA no Google Search já exibem anúncios intercalados, e o plano é acrescentar painéis explicativos gerados por IA ao lado dessas peças. O Google ainda evita inserir publicidade no aplicativo Gemini, mas deixa claro que enxerga nas consultas mais detalhadas um campo fértil para segmentar campanhas e vender atenção qualificada a anunciantes.

O que muda para usuários, mercado e a própria IA

Na prática, o avanço dos agentes apoiados no Gemini 3.5 Flash pode redesenhar a forma como usuários lidam com serviços digitais cotidianos. Em vez de pular entre abas de navegadores, buscar passagens, comparar preços e checar horários, o consumidor tende a delegar essas tarefas a um agente persistente, que acompanha a jornada de ponta a ponta. A mesma lógica se aplica a acompanhar um campeonato de futebol, monitorar uma carteira de ações ou manter sob vigilância uma lista de produtos desejados.

Esse movimento reforça a posição do Google como intermediário quase inevitável de qualquer atividade on-line, o que preocupa rivais e reguladores. Para a OpenAI, a mudança é especialmente sensível. A empresa que colocou o chatbot no centro da conversa de IA agora vê o Google usar sua base de 3 bilhões de usuários de busca como atalho para empurrar agentes avançados ao grande público, sem exigir novas instalações ou mudança de hábito.

Especialistas apontam que, se o plano funcionar, a OpenAI pode se ver forçada a acelerar parcerias com fabricantes de hardware, como Apple e Microsoft, ou com plataformas de busca e comércio, para compensar a desvantagem de distribuição direta. Ao mesmo tempo, a expansão de agentes de IA ao cotidiano intensifica debates sobre privacidade, dependência tecnológica e risco de automação de atividades hoje feitas por trabalhadores humanos, de atendentes de call center a analistas júniores em escritórios.

O Google, por sua vez, precisa provar que consegue equilibrar ambição tecnológica e disciplina financeira. A escalada para 3,2 quatrilhões de tokens por mês mostra apetite quase ilimitado por poder de computação. Os anúncios, assinaturas e cortes de custo por token indicam o esforço para transformar esse apetite em um negócio sustentável, sem desgastar usuários com barreiras artificiais de acesso.

Os próximos meses devem revelar se o Gemini 3.5 Flash entrega, no uso cotidiano, a velocidade e a confiabilidade prometidas no palco do evento. A forma como consumidores adotarem ou rejeitarem agentes que trabalham em silêncio, lendo e-mails e vasculhando a web em segundo plano, vai definir não apenas o futuro do Google, mas também o rumo da própria inteligência artificial de uso pessoal.

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